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Incertezas
científicas sobre o início da vida
Católicas pelo
Direito de Decidir é o nome de um grupo que vem tentando colocar em debate a
questão do aborto no Brasil. Sua coordenadora, a socióloga Maria José Rosado
Nunes, integra a Comissão de Cidadania e Reprodução (da qual o presidente
Fernando Henrique Cardoso é membro licenciado) e conhece a fundo a história do
pensamento da Igreja em relação ao assunto. Ela lembra que só em 1869, com o
Papa Pio IX, o aborto passou a ser considerado pecado em qualquer situação e em
qualquer momento de sua realização. Textos de pensadores católicos admitem, por
outro lado, a incerteza científica sobre o início da vida, com argumentos no
campo da biologia e da genética realçando a complexidade da questão. Um óvulo
fecundado (zigoto) tem vida, por exemplo, mas não se constitui numa vida humana,
tanto que 75% dos zigotos são expelidos naturalmente do organismo".
A este propósito pode-se observar que a notícia referente ao Papa Pio IX não é
exata. Desde o seu primeiro Catecismo (a Didaqué), datado do fim do século I, a
Igreja condenou o aborto sem restrições; mesmo a incerteza quanto ao início da
vida humana não foi argumento para legitimar o aborto em alguma situação. Ver PR
413/1996, p. 451-458.
No tocante ao início da vida humana, o famoso geneticista Dr. Jérôme Lejeune,
parece ter dito a última palavra, hoje geralmente aceita pelos médicos: desde a
fecundação do óvulo pelo espermatozóide, existe um novo ser humano, com o seu
princípio vital próprio e todas as informações que caracterizam uma autêntica
pessoa humana. É o que se pode ler no depoimento do Dr. Lejeune que abaixo vai
transcrito.
O pano de
fundo
Logo no início
do primeiro mandato do presidente Ronald Reagan, instaurou-se nos Estados Unidos
da América ardente polêmica a respeito do aborto: estava comprovado que naquele
país uma criança sobre três era eliminada antes de nascer. O Senado
norte-americano, impressionado pela problemática, pôs-se a considerá-la com
seriedade. E, a fim de tomar posição, procurou informações dos cientistas a
respeito do momento em que o concepto pode ser considerado autêntico indivíduo
humano, pois tal questão é decisiva para se definirem os direitos da criança. Em
vista de uma resposta, foi consultado, entre outros, o prof. Jérôme Lejeune,
francês; os títulos e méritos deste mestre e sua posição se acham expostos no
texto que transcrevemos a seguir e que corresponde ao relatório apresentado à
Comissão Senatorial encarregada do inquérito, aos 23 de abril de 1981. O próprio
autor deu a seu trabalho o título de TESTEMUNHO.
O testemunho
do Dr. Jérôme Lejeune
"Meu nome é
Jérôme Lejeune. Doutor em Medicina e Doutor em Ciências, sou responsável pela
Clínica e pelo Laboratório de Genética do Hospital de Pediatria destinado aos
pacientes feridos por debilidade mental. Após ter pesquisado em tempo integral
durante dez anos, tornei-me professor de Genética Fundamental na Universidade
René Descartes.
Há cerca de 23 anos descrevi a primeira doença cromossômica em nossa espécie,
devida ao cromossomo 21 extra-numerário, típico do mongolismo. Em conseqüência,
tive a honra de receber o Prêmio Kennedy das mãos do falecido presidente e a
William Allen Memorial Medal da Sociedade Americana de Genética Humana. Sou
membro da American Academy of Arts and Sciences.
Com meus colegas do Instituto de Genética de Paris, nos dedicamos à descrição
das etapas fundamentais da hereditariedade humana. Pelo estudo comparativo de
numerosas espécies de mamíferos, inclusive os símios antropóides, estudamos as
variações cromossômicas registradas no decorrer da evolução. Na espécie humana,
analisamos mais precisamente os efeitos desfavoráveis de certas aberrações
cromossômicas.
Nestes anos demonstramos pela primeira vez que uma doença cromossômica pode ser
combatida por um tratamento adequado... Mostramos que um tratamento químico pode
curar a lesão cromossômica em culturas de tecidos. Mais: uma dosagem apropriada
de produtos químicos (monocarbonatos e suas moléculas vetoras) melhora
simultaneamente o comportamento e as atividades mentais das crianças afetadas.
Assim a pesquisa meticulosa realizada sobre certos mecanismos da vida pode levar
a uma proteção direta de vidas humanas em perigo.
Quando começa
um ser humano?
Desejo trazer a
esta questão a resposta mais exata que a ciência pode atualmente fornecer. A
biologia moderna ensina que os ancestrais são unidos aos seus descendentes por
um liame material contínuo, pois é da fertilização da célula feminina (o óvulo)
pela célula masculina (o espermatozóide) que emerge um novo indivíduo da espécie
humana.
A vida tem uma longa história, mas cada indivíduo tem o seu início muito
preciso, o momento de sua concepção.
O liame material é o filamento molecular do ADN. Em cada célula reprodutora,
essa fita, de um metro de comprimento aproximadamente, é cortada em segmentos
(23, na nossa espécie). Cada segmento é cuidadosamente enrolado e empacotado
(como uma fita magnética em minicassete), tanto que no microscópio aparece como
um bastonete: um cromossomo.
Desde que os 23 cromossomos do pai se juntam aos 23 cromossomos da mãe, está
coletada toda a informação genética necessária e suficiente para exprimir todas
as características inatas do novo indivíduo. Isto se dá à semelhança de uma
minicassete introduzida num gravador; sabe-se que produz uma sinfonia. Assim
também o novo ser começa a se exprimir logo que foi concebido.
As ciências da natureza e as ciências jurídicas falam a mesma linguagem. A
respeito de um indivíduo que goza de boa saúde, o biólogo diz que tem boa
constituição; a respeito de uma sociedade que se desenvolve harmoniosamente para
o bem de todos os seus membros, o legislador afirma que ela tem uma Constituição
equilibrada.
Um legislador não consegue entender uma lei particular antes que todos os seus
termos tenham sido clara e plenamente definidos. Mas, quando toda essa
informação lhe é oferecida e a lei foi votada, ele pode ajudar a definir os
termos da Constituição. 5 -
Como trabalha
a natureza?
Trabalha de
modo análogo. Os cromossomos são as tábuas da lei da vida; quando eles são
reunidos no novo indivíduo (a votação da lei é figura da fecundação do óvulo
pelo esperma), eles descrevem inteiramente a Constituição dessa nova pessoa.
É surpreendente a miniaturização da escrita. É difícil crer, embora esteja acima
de qualquer dúvida, que toda a informação genética, necessária e suficiente para
construir nosso corpo e até nosso cérebro (o mais poderoso engenho para resolver
problemas, capaz até de analisar as leis do universo), possa ser resumida a tal
ponto que seu substrato material possa subsistir na ponta de uma agulha!
Mais impressionante ainda é a complexa soma de informação genética por ocasião
do amadurecimento das células reprodutoras, a tal ponto que cada concepto recebe
uma combinação inteiramente original, que nunca se produziu antes e que não se
reproduzirá tal qual no futuro. Cada concepto é único e, portanto,
insubstituível. Os gêmeos idênticos e os hermafroditos verdadeiros são exceções
à regra: cada ser humano é uma combinação genética. E notemos que as exceções
devem ocorrer no momento da concepção. Acidentes posteriores não levam a um
desenvolvimento harmonioso.
Todos esses fatos são conhecidos há muito tempo; todos os cientistas já outrora
estariam de acordo em dizer que, se existissem bebês de provetas, eles
evidenciariam a autonomia do concepto; a proveta não possuiria nenhum título de
propriedade sobre eles. Ora os bebês de proveta já existem.
Experiências
recentes
Quantas células
são necessárias para a construção de um indivíduo?
A resposta nos é dada por experiências recentes.
Se conceptos precoces de camundongos são tratados com enzimas, as suas células
se desagregam. Se, porém, misturarmos tais suspensões celulares provenientes de
embriões diferentes, veremos que as células voltam a se reunir. O número máximo
de células que operam para a elaboração de um indivíduo, é três.
O ovo fecundado normalmente divide-se em duas células: uma delas se divide
imediatamente de novo. Assim se forma o número ímpar e surpreendente de três
células, encapsuladas em seu invólucro protetor.
Segundo os nossos mais adiantados conhecimentos, a individuação (ou a formação
de três células fundamentais) é a primeira etapa após a concepção, à qual se
segue dentro de poucos minutos.
Tudo isto explica por que os doutores Edwards e Steptoe puderam ser testemunhas
de fecundação, em proveta, de um óvulo da Sra. Brown por um espermatozóide do
Sr. Brown. O minúsculo concepto que eles implantaram alguns dias mais tarde no
útero da Sra. Brown, não podia ser nem um tumor, nem um animal. Era, na verdade,
a extremamente jovem Luísa Brown, que tem hoje a idade de três anos.
A viabilidade do concepto é extraordinária. Por experiência, sabemos que um
concepto de camundongo pode ser congelado ao frio intenso (até de 29 graus) e,
depois de reaquecimento delicado, ser implantado com êxito. Para que haja o
ulterior crescimento, requer-se necessariamente a acolhida numa mucosa uterina
que forneça a alimentação apropriada à placenta embrionária. No interior da sua
cápsula vital, que é a bolsa amniótica, o novo indivíduo é tão viável quanto um
astronauta dentro do seu escafandro sobre a Lua: o abastecimento de fluidos
vitais deve ser fornecido pelo organismo da mãe. Esta alimentação é
indispensável à sobrevivência, mas ela não "faz" a criança; da mesma forma nem a
nave espacial mais aperfeiçoada pode produzir um astronauta. Esta comparação
ainda é mais significativa quando o feto se mexe. Graças a uma aparelhagem
ultra-sônica muito requintada, o professor Ian Donald, da Inglaterra, conseguiu
produzir no ano passado um filme que mostra a mais jovem "estrela" do mundo, ou
seja, um bebê de onze semanas a dançar no útero materno. O bebê, pode-se dizer,
brinca no trampolim! Dobra os joelhos, apoia-se sobre a parede, levanta-se e
recai. Visto que o seu corpo tem a densidade do fluído amniótico, ele não sente
a gravidade e dança muito lentamente, com uma graça e uma elegância totalmente
impossíveis em algum outro lugar da terra. Somente os astronautas, em suas
condições de não gravidade, conseguem tal suavidade de movimentos. A propósito
notamos que, quando se tratava da primeira caminhada no espaço, os técnicos
tiveram que escolher o lugar onde desembocariam os tubos portadores dos fluídos
vitais. Escolheram então finalmente a fivela do cinturão do escafandro,
reinventando assim o cordão umbilical.
Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade de evocar o
conto de fada do homem menorzinho do que o dedo mindinho.
Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de um polegar de comprimento,
desde o ápice da cabeça até a ponta do traseiro. Ele estaria muito à vontade
numa casca de nozes, mas tudo já se encontra nele: as mãos, os pés, a cabeça, os
órgãos, o cérebro, tudo está no seu lugar certo. O coração já bate há um mês.
Olhando de mais perto, veríamos as dobras das suas palmas de mão e uma
quiromante leria as mãos dessa minúscula pessoa. Com uma boa lente de aumento,
descobriríamos as marcas digitais. Tudo estaria aí para se fazer a carteira de
identidade civil deste indivíduo.
Com a extrema sofisticação da nossa tecnologia, podemos vislumbrar a vida
privada desta criaturinha. Aparelhos especiais gravam a música mais primitiva:
um martelar surdo, profundo, regular, de 60/70 batidas por minuto (o coração da
mãe) e uma cadência rápida, aguda, de 150/170 batidas por minuto (o coração do
feto) se sobrepõem, imitando os compassos de orquestra e realizando os ritmos
básicos de toda música primitiva, sem dúvida, porque é a primeira que o ouvido
humano consegue ouvir.
Assim observamos o que o feto sente, ouvimos o que ele ouve, provamos o que ele
saboreia e vimo-lo realmente dançar, cheio de graça e de juventude. A ciência
transformou o conto de fada do Pequeno Polegar numa história verídica, história
que cada um de nós viveu no seio de sua mãe.
E, para que melhor percebais a exatidão das nossas observações, acrescentamos:
Se, logo depois da concepção, vários dias antes da implantação, uma única célula
fosse retirada desse indivíduo semelhante a uma amora minúscula, poderíamos
cultivar essa célula e examinar os seus cromossomos. Se um estudante,
observando-a ao microscópio, não fosse capaz de reconhecer o número, a forma e o
aspecto das fitas de seus cromossomos, se ele não soubesse dizer com certeza se
essa célula provém de um símio ou de um ser humano, seria reprovado no exame.
Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo indivíduo começou a existir,
já não é questão de gosto ou de opinião. A natureza humana do ser humano, desde
a concepção até a velhice, não é uma hipótese metafísica, mas sim uma evidência
experimental. |