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Em síntese: Há
quem acuse o Cristianismo de fomentar o complexo de culpa e a tristeza. Ora isto
é falso. A alegria é um dos frutos do Espírito Santo; cf. Gl 5, 22. O pecador
sente a dor de haver pecado, mas alegra-se por sentir tal dor, visto que ela é
dom de Deus.
Marcos Tavares no JORNAL DA PARAÍBA, edição de 09/03/05, p. 3, faz-se porta-voz
de uma concepção do Cristianismo erroneamente difundida: seria fonte de complexo
de culpa e tristeza. Eis as palavras do escritor:
Citando:
Nossa culpa
Somos tão
culpados que, segundo a liturgia católicas já nascemos em pecado e só o batismo
nos liberta. Essa tradição judaico/cristã da culpa é uma das responsáveis pelas
inúmeras neuroses desse mundo onde respirar, sorrir, ser feliz é motivo de
arrependimento, como se o nosso Deus nos tivesse posto no mundo apenas para
deleitar-se com nosso sofrimento...
Não há culpa em amar, em sorrir, em desejar o belo, em querer ser melhor e
maior. Nascemos para isso, para crescer e subir como gente. Para isso a natureza
nos dotou de um cérebro eficiente e de uma capacidade de análise regular.
Fôssemos para ser infelizes, culpados, não precisaríamos de Deus nem de sua
misericórdia, não precisaríamos da razão nem da sensibilidade, seríamos
irracionais, vivendo para a reprodução e a alimentação. Nossa condição de
pensantes nos leva e encaminha à felicidade, ao prazer, razão única de vida e de
nossa passagem neste planeta. Por isso sexo é bom, amar é bom, sorrir é bom.
Comer é bom e não ter culpa é ainda melhor.
QUE DIZER?
Proporemos quatro ponderações:
1. Alegria,
fruto do Espírito
São Paulo escreve que um dos frutos da ação do Espírito Santo no cristão é a
alegria; cf. GI 5, 22. O cristão é alegre porque sabe que, após as tribulações
da vida presente, ele será herdeiro da bem-aventurança celeste. E que, aliás,
esta não é meramente futura, mas já começa neste mundo pela habitação de Deus na
alma do justo; cf. Jo 14, 23. Ciente do dom de Deus, São Paulo recomendava aos
fiéis de Filipos: "Alegrai-vos sempre no Senhor; repito: alegrai-vos" (FI 4, 4).
2. O pecado original
Verdade é que a mensagem cristã começa professando um pecado na origem do gênero
humano, do qual resultaram a morte e as desgraças que acometem o homem.
Ora é fato inegável que existem infortúnios na vida de cada ser humano; qualquer
pensador o pode averiguar. O que a mensagem cristã tem de específico é a
indicação da respectiva causa: um pecado ou a transgressão da ordem estabelecida
por Deus. É de notar que esta explicação dos males existentes no mundo tem seus
paralelos nas crenças de povos antigos.
Eis quatro testemunhos significativos:
Em New South Wales (África) várias tribos afirmam que os primeiros homens foram
destinados a não morrer. Contudo era-lhes proibido aproximar-se de certa árvore
oca, em que abelhas selvagens tinham feito a sua colméia. No decorrer do tempo,
as mulheres cobiçaram o mel da árvore proibida, até que, belo dia, uma delas,
desprezando as admoestações dos homens, tomou do seu machado e o arremessou
contra o tronco; imediatamente saiu deste uma enorme coruja. Era a Morte, a qual
de então por diante circula livremente sobre o mundo e reivindica para si tudo
que ela possa tocar com as asas.
Os pigmeus referem que Deus (Mugasa) a princípio criou dois rapazes e uma jovem,
com as quais vivia amigavelmente na floresta, como o pai com seus filhos, num
lugar de toda bonança: nada faltava aos homens, nem tinham que recear por alguma
perspectiva de morte. Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua
face. Habitava uma tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar
lenha para o fogo e um jarro de água. Um dia, porém, a moça, vencida pela
curiosidade, escondeu-se atrás de uma árvore, ficando à espreita do "Pai", que
havia de aparecer. De fato, ela o pôde ver, quando estendia o braço reluzente de
ornamentos a fim de apanhar o jarro. A menina alegrou-se então profundamente e
guardou o segredo do ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediência. Chamou
os três irmãos à sua presença e lhes censurou a falta, predizendo-lhes que havia
de os deixar; para o futuro, a indigência e a morte pesariam sobre eles. Os
prantos do grupinho humano não conseguiram deter a sentença; certa noite Mugasa
partiu rio acima, e não foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu à
mulher, morreu após três dias de existência...
Graciosa é a história que contam os japoneses: o príncipe Ninighi se enamorou
pela princesa "Florescente como as flores". O pai da jovem, que era o Deus da
grande montanha, consentiu em seu casamento e deixou-a partir com sua irmã mais
velha "Alta como as rochas". Esta, porém, era tremendamente feia, de sorte que o
noivo a mandou voltar para casa. Em conseqüência, o velho Deus amaldiçoou o
genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!
Os "Bataks" de Palawan (ilhas Filipinas) contam que o seu deus costumava
ressuscitar os mortos. Todavia certa vez os homens o quiseram enganar,
apresentando-lhe um tubarão enfaixado como um cadáver. Quando a Divindade
descobriu a astúcia, amaldiçoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao
sofrimento e à morte.
África Central, Japão, Ilhas Filipinas, ampla origem da mesma concepção.
Ouras lendas poderiam ser ainda citadas. Dão a impressão de que o gênero humano
acredita (ou acreditou) tenha havido uma derrocada inicial, causa da desordem
existente no mundo.
Derrocada inicial que foi superada pela "derrocada" final; o segundo Adão, Jesus
Cristo, foi até a morte por amor, a fim de resgatar o primeiro Adão, que foi até
a morte por desamor, constituindo assim a nova criatura (ver 2Cor 5, 17).
3. A alegria do
arrependimento
Mesmo a consciência do pecado não impede a alegria do cristão. É S. Agostinho
quem o diz: "Condoa-se o pecador pelo seu pecado, e alegre-se por se condoer".
Condoa-se o pecador por seu pecado... Se pecar é comum a todos os homens,
arrepender-se ou condoer-se não é comum, mas é próprio dos Santos. Daí a
exortação a que o pecador considere com sinceridade o seu pecado, o repudie, mas
não se deixe absorver pela tristeza...
Alegre-se por condoer-se, pois tal dor é dom de Deus, é sinal da graça que
trabalha no coração do homem. Por conseguinte a última palavra toca sempre à
alegria, que se tornará plena na bem-aventurança celeste.
Pode haver fases de crise de fé na vida espiritual do cristão que sofre de
aridez ou é acometido de acedia. São superáveis pela paciência e a perseverança
do cristão fiel, que nem por isto perde a sua alegria. Só o ato de pecar tira a
verdadeira alegria.
Quanto foi dito, se concretiza no axioma: "Um Santo triste é um triste Santo";
ainda que atribulado, o Santo alegra-se não por uma alegria vazia ou "festiva",
mas por alegria profundamente arraigada, pois ele sabe que Deus ama a quem dá
com alegria e não tristemente conformado.
4. Hedonismo
Chama-se "hedonismo" o sistema que faz do prazer o critério do comportamento
humano. É condenável porque escraviza o homem. É impossível alguém
auto-realizar-se sem praticar a renúncia ou o desapego. O prazer é algo
moralmente neutro, mas não pode ser a finalidade do agir humano; serve de
estímulo a certos atos bons.
Deus quis anexar o prazer a certos atos destinados à conservação do indivíduo (a
alimentação) e à conservação da espécie (o ato sexual) a fim de estimular a
pessoa à prática desses atos. Isto significa que tal prazer é lícito (pois Deus
o propicia); é lícito, porém, não como finalidade em si, mas como meio associado
a determinado fim; na medida em que o prazer serve à conservação do indivíduo ou
à conservação da espécie, é válido e pode ser procurado. Notemos que a cópula
conjugal é lícita também nos dias estéreis da mulher, pois é a própria natureza
quem proporciona esses períodos de pausa. Em conseqüência, o homem não fere a
natureza ou a lei de Deus quando realiza o ato sexual em tais condições. Não
poderíamos todavia esquecer que a renúncia voluntária ao prazer ou a
mortificação destinada a libertar o homem de paixões desregradas é também um
valor - e valor indispensável - na vida cristã.
Deve-se notar ainda o seguinte:
O Papa Inocêncio XI (1676-1689) condenou a proposição seguinte, formulada por
moralistas de sua época: "Não é pecado comer, beber ou fazer uso do matrimônio
unicamente por prazer sensual" (ver Denzinger-Schönmetzer n° 2108s [1158]). Tal
condenação não significa que ao cristão não seja lícito desejar o prazer
sensual, mas quer dizer que o prazer sensual lícito (o de um bom prato para quem
precisa de alimento, o da relação conjugal entre esposo e esposa...) deve ser
regido e dimensionado pela razão; esta tem que saber colocar esses prazeres
dentro da ordem harmoniosa da vida de alguém que mais e mais procura chegar a
Deus; o prazer tem que estar em sintonia com a oração e o trabalho; não pode ser
uma ilha ou um bloco independente, quase subtraído a Deus, mas há de ser a
expressão de alguém que pertence ao Senhor tanto por sua alma como por sua
constituição corpórea.
Em suma, o prazer de uma boa música ou o de uma bela excursão não são ilícitos
se assumidos como valores úteis a uma finalidade ulterior como seria a
restauração das forças físicas ou o enriquecimento cultural.
D Estevão Bettencourt, OSB In
Pergunte e Responderemos, julho/2005, nº 517 |