É
A
FÉ
QUE
SUSCITA
O
MILAGRE
E
NÃO
VICE-VERSA
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Muitas vezes o milagre é entendido como um acontecimento que contraria as leis da natureza e, portanto, realizado somente por uma intervenção divina. Se interpretamos o milagre somente desta maneira, não representaria essencialmente uma prerrogativa do cristianismo. O antigo santuário grego de Aslepio em Epidauro podia ser comparado ao nosso santuário do Divino Pai Eterno em Trindade: era meta continua de “romeiros” e enfeitado de “ex votos” que contavam as curas, exorcismos, libertação de pestes, tempestades, maremotos, e até relatos de mortos ressuscitados. |
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UM
FENÔMENO UNIVERSAL
Esses
fenômenos milagrosos podem ser encontrados em várias religiões antigas,
como a
etrusca ou na religião hebraica. No oriente conta-se o nascimento miraculoso
de Buda e dos fatos prodigiosos que ainda hoje se realizam nos diferentes
santuários da religião hinduísta. É bem verdade que seria necessário uma
pesquisa séria para distinguir, por exemplo, o milagre do ato mágico ou,
ainda, entre milagre e sugestão pessoal. Isso não deve, porém, nos induzir
a afirmar que todos os milagres que são relatados no mundo cristão são
verdadeiros, enquanto os outros são falsos.
Se continuamos a crer que milagre é um gesto que contrasta os ritmos normais
da natureza, então podemos tranqüilamente afirmar que trata-se de um fenômeno
universal, comum a todas as religiões e a todos os povos.
O verdadeiro problema está no aspecto teológico, isto é, a interpretação
do milagre.
É sobre isso que o cristianismo tem uma visão original que pode
ser resumida em três pontos.
Primeiro ponto. Antes de tudo o milagre não deve ser entendido como algo que
contraria as leis da criação. Afirmamos isso não somente porque conhecemos
ainda pouco estas leis, mas pelo fato que Jesus veio para dar novo vigor às
próprias forças da criação. Então, também os acontecimentos extraordinários
devem ser entendidos como um “confirmação” destas leis e não como uma
contradição a elas.
O “PRODÍGIO” E
O “SINAL” EM JOÃO
Sobretudo
no evangelho de João (é o segundo ponto) o termo milagre é indicado como
“sinal” (semeia) e não como
“prodígio” (térata). Isso quer
dizer que o evangelista não concebe o milagre como “gesto poderoso”, mas
como revelação de uma mensagem religiosa, um acontecimento que contém em si
um determinado ensinamento para os homens.
Por isso nos Evangelhos não é o milagre que suscita a fé, mas é a fé que
é o pressuposto do milagre. Quem não tem fé, corre o perigo de entender de
forma errada o milagre, vendo somente
nele o portento. O homem de fé que adere ao Evangelho não ”porque viu mas
porque acreditou” (Jo 20,29), faz um sincero esforço para interpretar o
milagre.
Assim entendida, a definição cristã de milagre é muito vasta, pois, para
quem crê, cada acontecimento da vida é potencialmente interpretado como um
sinal divino.
O
ESCÂNDALO DA CRUZ
Passando
ao terceiro ponto, deve-se frisar o fato de que a ação de Deus em prol da
salvação dos homens passa através da encarnação e da crucifixão: isto
quer dizer que Deus não privilegia o “fato espalhafatoso” para se
comunicar com a humanidade. O apóstolo Paulo escreve: “os judeus pedem
milagres e os gregos procuram sabedoria, enquanto nós pregamos Cristo
crucificado” (1 Cor. 1,22).
Muito mais que anunciar a idéia de um deus-mágico, nós cristãos preferimos
reconhecer Deus na fraqueza e no silêncio. O exemplo é do próprio Jesus que
proibia explicitamente aos beneficiados pelos milagres de contar aquilo que
tinha visto e experimentado. O ensinamento é este: devemos evangelizar através
aqueles sinais frágeis que merecem a mediação pessoal para serem entendidos
e aceitos. Crer só a partir dos milagres é atitude de pusilânime; acreditar
aprendendo a se maravilhar e se responsabilizar por tudo o que acontece ao
nosso redor é comportar-se de cristãos maduros. Desta forma uma pastoral que
privilegia demasiadamente o sensacionalismo e o contágio emotivo, não
poderia considerar-se em harmonia com o anúncio evangélico.
Texto originário de Giovanni Tangorra (teólogo) |