Transtorno do Sono em Idosos
Já é tradicional a afirmação de
que passamos dois terços de nossa vida dormindo mas, o que ninguém sabe
exatamente, é quantas pessoas estão fora desse cálculo hipotético. Calcula-se,
por baixo, que aproximadamente 14% das pessoas têm algum transtorno do sono.
Essas pessoas estarão passando muito menos ou muito mais que dois terços de sua
vida dormindo e a insatisfação com a qualidade do sono aumenta com a idade.
Estima-se que os transtornos do sono afetam em torno de 50% das pessoas com mais
de 65 anos.
Um grande número de idosos apresenta alterações na qualidade do sono,
principalmente as dificuldades em conciliar o sono (pegar no sono), sono
entrecortado ou fragmentado, sono muito superficial. Nos idosos, o próprio ritmo
circadiano parece sobre alterações e não são raros os casos de inversão do dia
pela noite (acordado a noite e sonolento de dia). Uma das primeiras alterações
que podem indicar a iminência de transtornos do sono é a alteração do horário de
acordar (muito mais cedo na velhice).
Além de eventual sensação de cansaço durante o dia que segue a noite mal
dormida, outros problemas musculares e articulares podem surgir com as
alterações do sono. É o caso, por exemplo, das bursites, refluxo
gastro-esofágico, tendinites, mialgias (dores musculares), cervicalgias
(torcicolos), etc. Se esses problemas podem ser conseqüência de esforços
posturais e posições mal acomodadas durante noites de insônia, por outro lado,
eles também acabam perturbando o sono das noites seguintes, fazendo assim uma
espécie de círculo vicioso.
Os pacientes idosos portadores de demência também costumam apresentar distúrbios
do ciclo sono-vigília, e esse distúrbio pode servir até como avaliação do grau
de demência; quanto mais alterado for o ritmo sono-vigília, mais intensa a
demência. O fato dos pacientes demenciados passarem as noites acordados tem como
complicação, não exatamente a saúde do paciente, mas os transtornos que isso
acaba produzindo nas pessoas que cuidam deles.
CLASSIFICAÇÃO DOS DISTÚRBIOS DO SONO
Entre as chamadas dissonias,
parassonias, alterações associadas a medicamentos e substâncias, associadas a
transtornos emocionais ,etc, existem aproximadamente 100 tipos de problemas do
sono. Para nós a classificação pode ser bem mais simples, interessando mais os
casos chamados de insônia, hipersonia, parassonia e distúrbios dos movimentos
noturnos.
Insônia
Insônia pode ser definida como
a dificuldade em conciliar e manter o sono. Inclui-se aqui (indevidamente?)
também, os casos onde a pessoa julga que seu sono não está sendo suficiente. É
bom lembrar que a insônia, apesar de referida sempre como um estado isolado, é
apenas um sintoma e não uma doença em si.
Uma das classificações mais simples é quanto à parte do sono comprometida. Assim
sendo, teríamos Insônia Inicial, quando a pessoa custa a pegar no sono, a
Insônia Intermediária, quando acorda durante a noite e a Insônia Final, quando
acorda muito cedo.
Assim sendo, a Insônia pode ser tanto a dificuldade de iniciar o sono como de
manter o sono ou mesmo a percepção de que o sono não foi reparador. Para alguns
autores, o diagnóstico de insônia exige que, além do dormir mal ou não dormir,
exista também as perturbações do bem-estar no dia seguinte. Estas perturbações
seriam: fadiga, cansaço fácil, ardência nos olhos, irritabilidade, ansiedade,
fobias, incapacidade de concentrar-se, dificuldades de atenção e memória,
mal-estar e sonolência.
Surpreendentemente, porém, alguns pacientes que relatam passar a noite em claro,
dizem-se bem dispostos de dia. Tais pacientes não poderiam ser classificados
como verdadeiros insones mas como pessoas com baixa necessidade de sono. Essas
pessoas que dormem pouco não se queixam de insônia e nem mesmo reconhecem a má
qualidade do sono como um problema sério em suas vidas.
Em termos de gravidade podemos dizer que a insônia "não mata mas maltrata". Isso
quer dizer que a insônia afeta mais o aspecto psíquico e social da vida do que
ameaça o seu componente biológico. Idosos com Insônia tendem a ter mais
acidentes.
Em relação aos dados estatísticos, podemos dizer que todos os grupos etários,
raciais e socioeconômicos apresentam insônia mas, de modo geral, são as mulheres
que mais referem o problema, o qual aumenta com a idade e nas pessoas que vivem
sós. O sintoma insônia tem múltiplas causas que podem ser reunidas em seis
grupos. As causas situacionais, as psiquiátricas, as clínicas, as disritmias
circadianas, os fatores comportamentais e os distúrbios do sono primários.
Causas Farmacológicas de insônia
As drogas consideradas
metilxantinas, tais como a cafeína e a teofilina, as drogas simpatomiméticas
como a efedrina, o álcool, os corticóides, as tiroxinas, alguns neurolépticos e
antidepressivos, particularmente os modernos inibidores seletivos de recaptação
da serotonina, todas elas têm grande potencial para causar a insônia.
| substâncias |
onde estão |
| álcool | bebidas, alguns xaropes |
| cafeína | bebidas, analgésicos, café, xaropes, antigripais, chocolate |
| teofilina | remédios para bronquite, enfisema e asma |
| efedrina | descongestionantes nasais, xaropes, antigripais |
| corticóides | antiinflamatórios e antialérgicos |
| neurolépticos | sedativos |
| antidepressivos | antidepressivos |
| tiroxinas | remédios para tireóide e alguns para emagrecer |
| anorexígenos | remédios para perder peso |
Uma das informações muito úteis aos clínicos, é em relação aos anti-histamínicos e tranqüilizantes diazepínicos (Valium®, Diempax®, Diazepam®, Lorax®, Dormonid®...) podem causar efeito paradoxal em idosos, ou seja, podem produzir mais insônia ao invés de melhorá-la. Também o álcool, utilizado em pequenas doses por alguns idosos para induzir ao sono, pode ser uma das causas do sono fragmentado e de má qualidade.
Causas médicas de insônia
Em geral, qualquer doença crônica capaz de
causar dor ou desconforto pode produzir alterações na qualidade do sono. Nos
idosos, as causas clínicas mais freqüentemente relacionadas às alterações do
sono são: dificuldades urinárias, doenças articulares, bursites, refluxo
gastro-esofágico, dificuldades digestivas com flatulência e meteorismo, doença
pulmonar crônica (bronquite, asma...).
Alguns desses quadros podem ser responsáveis pelo sono fragmentado e despertar
no meio da noite. Atualmente fala-se muito da Síndrome da Apnéia Noturna como
uma das condições mais associadas ao despertar no meio da noite e,
conseqüentemente, de hipersonia no dia seguinte.
Entre as situações clínicas capazes de produzir insônia, podemos esquematizá-las
da seguinte forma:
| Causa clínica | Insônia leve (%) | Insônia grave (%) |
| depressão | 2,6 | 8,2 |
| bronquite crônica | 1,6 | 1,5 |
| doença prostática | 1,6 | 2,7 |
| insuficiência cardíaca | 1,6 | 2,5 |
| dor lombar | 1,4 | 1,5 |
Causas psicológicas de insônia
O estado de tensão produzido por estresse,
embora seja encontrado em qualquer idade, tem uma prevalência muito acentuada
nos idosos. Motivos para alterações depressivas o idoso pode ter de sobra; morte
de companheiros, perda do cônjuge, perda do espaço social, dificuldades
financeiras, sentimentos de abandono por parte da família, limitações físicas
próprias da idade, mudanças no status social, percepção da própria condição de
saúde, etc.
As três situações psiquiátricas mais associadas à insônia no idoso são, por
ordem decrescente de freqüência: ansiedade, depressão e demência. Normalmente,
salvo muitas exceções, a ansiedade é mais responsável pela insônia inicial, ou
dificuldade para conciliar o sono, e à insônia intermediária, proporcionando o
ato de levantar no meio da noite e não conseguir dormir mais.
A depressão, por sua vez, estaria mais relacionada com a insônia terminal, ou
seja, pelos despertares muito cedo, ainda de madrugada. A depressão pode ainda
causar a hipersonia, que é o ato de dormir demais. Na demência, ainda em seus
estágios iniciais, pode haver inversão circadiana, quando o paciente troca o dia
pela noite.
Causas ambientais de insônia
Uma das maneiras mais fáceis de se
"aprender" a ter insônia é a opção de dormir tarde, ficar até de manhã vendo
televisão, lendo ou qualquer outra coisa. Esse tipo de insônia adquirida tem
sido muito freqüente devido ao hábito das pessoas terem aparelhos de televisão
no quarto.
A Insônia Adquirida também atormenta profissionais com necessidade do trabalho
em turnos noturnos, bem como os pilotos de avião, os quais podem ter
dificuldades para criar uma rotina para o sono devido aos ajustes aos fusos
horários.
Hipersonia
Alguns autores classificam como hipersonia,
um grupo diverso de condições que tem como principal queixa a Sonolência
Excessiva Diurna. Outros preferem achar que a hipersonia é um transtorno que se
manifesta pelo ato de dormir demais, ou seja, por passar dormindo a maior parte
do tempo em que estaria acordado.
Normalmente a maioria das hipersonias é secundária à insônia noturna, quando
então o paciente passa a dormir de dia o tempo que não dormiu à noite, portanto,
não se trata de hipersonia primária. Outros casos de hipersonias que não sejam
secundárias à insônia, podem ser conseqüência de hipotireoidismo, hipoglicemia,
de má ventilação pulmonar nos bronquíticos crônicos e enfizematosos, ao uso de
antihistamínicos (antialérgicos) ou tranqüilizantes. Outros medicamentos também
podem induzir à sonolência, como é o caso dos antiespasmódicos, antidepressivos,
barbitúricos, etc.
Apnéia do sono
Pessoas que tem o transtorno conhecido como
apnéia do sono podem parar brevemente de respirar quando adormecidos, e tem
vários despertares breves e repetidos ao longo da noite perturbados por essas
crises. Este distúrbio freqüentemente se associa a roncos, que é a tradução
sonora do estreitamento da via aérea durante a passagem do ar.
Quando o referido estreitamento da via aérea se torna mais severo, dá-se o
fechamento desta, resultando em apnéia. Assim sendo, a apnéia é arbitrariamente
definida como parada da respiração ou interrupção do fluxo aéreo por no mínimo
durante 10 segundos.
A chamada apnéia Noturna ou apnéia do sono é muito mais comum nos idosos que em
outros grupos etários, e uma importante causa de hipersônia. A apnéia noturna se
caracteriza por uma crise de roncos altos, repentina, que se repete ao longo da
noite e cessa em mais ou menos 10 segundos. As crises acontecem mais quando a
pessoa dorme de barriga para cima.
A apnéia do sono parece estar relacionada ao excesso de sonolência durante o
dia, a depressão, a dor de cabeça, e o prejuízo da memória da demência. O quadro
de apnéia do Sono está ainda relacionado a um aumento do risco de morte súbita
dormindo.
Paranóias
As Parasonias são comportamentos incomuns apresentados pelo paciente dormindo. Normalmente esses comportamentos incomuns dizem respeito ao sonambulismo, mioclonias, fala noturna, pesadelos e confusão mental noturna. Alguns medicamentos agravam essas parasonias, como é o caso dos beta-bloqueadores que costumam provocar pesadelos, da cafeína, antidepressivos e álcool que podem produzir mioclonia (movimentos espasmódicos durante o sono).
Tratamento Farmacológico da Insônia
Antes de se recomendar um medicamento, cujo
objetivo seja exclusivamente fazer dormir, é indispensável verificar se existe
alguma condição responsável pela insônia e que mereça um tratamento anterior e
prioritário.A depressão emocional, por exemplo, deve ter tratamento prioritário
sobre a Insônia e, normalmente, esta cede depois de tratada aquela. O mesmo se
diz da diabetes, do hipertireoidismo, das dores nas juntas, das lombalgias, etc.
Preferentemente o tratamento medicamentoso da Insônia deve ser temporário, até
que se corrijam as causas que a originaram. A duração do tratamento deve ser
definida em função da indicação e informada ao paciente. Trata-se de 2 a 5 dias
em caso de insônia ocasional (ex.: durante uma viagem) e de 2 a 3 semanas em
caso de insônia transitória (quando da ocorrência repentina de um incidente
sério). O tratamento da insônia crônica deve ser instituído somente após
consulta a um especialista. Qualquer persistência de distúrbios do sono após um
período de 6 semanas deve ser objeto de investigações adicionais.
Nos idosos, quando necessários, os medicamentos eleitos para induzir o sono
devem ser aqueles com meia-vida curta, tomando-se o cuidado de verificar se os
mesmos não estão tendo um efeito paradoxal, ou seja, se não estão deixando o
paciente mais agitado ainda.
Uma vez que a insônia é um distúrbio complexo, seu tratamento pode exigir
múltiplas abordagens. Para as insônias transitórias, que duram um ou dois dias,
a solução mais prática são os hipnóticos. Atualmente, o uso de hipnóticos
tornou-se bastante seguro mas, mesmo quando havia riscos, esses nunca afastaram
os pacientes da tentação do sono instantâneo. Os laboratórios do sono procuram
estabelecer por meio da história clínica e, às vezes, da polissonografia, as
causas da insônia e instituir tratamentos capazes de corrigi-las.
Benzodiazepínicos
Os chamados benzodiazepínicos são
classificados de acordo com a duração de sua ação (meia-vida). Nos idosos a meia
vida desses medicamentos costuma ser maior, de tal forma que o flurazepam e o
diazepam podem chegar a uma meia-vida de mais de 100 horas.
Tanto a sedação do dia seguinte, quanto os efeitos paradoxais (agitação) devem
ser muito bem considerados. Tanto sedação do dia seguinte, quanto agitação do
efeito paradoxal podem favorecer quedas nos idosos.
Para os idosos, o triazolam e o lorazepam (Lorax®, Mesmerin®) são preferíveis,
apesar desse último ter probabilidade de desenvolver dependência. Nesses casos a
relação custo-benefício deve ser considerada. Normalmente eles não têm efeito
pardoxal e a meia-vida é menor. Particularmente em idosos o lorazepam é o
benzodiazepínico com melhor ação hipnótica e ansiolítica. O midazolam (Dormire®,
Dormonid®) é o benzodiazepínicos com menor meia-vida, entretanto, numa
porcentagem de até 12% dos casos pode haver agitação paradoxal e/ou confusão
mental noturna. Isso deve ser previsto e orientado para a família do paciente
idoso.
Para pacientes suspeitos de portarem apnéia do sono, cujo diagnóstico pode ser
suspeitado pelo roncar muito alto e em surtos, devem ser evitados os
benzodiazepínicos em geral.
Anti-histamínicos
Alguns antihistamínicos, como por exemplo, a difenidramina (antialérgico), cicloheptadina (Periatim®) ou a prometazina (Fenergam®) costumam ser usados como hipnóticos por profissionais que evitam benzodiazepínicos. Não se recomenda essa prática, tendo em vista os efeitos colaterais dos antihistamínicos, bem como a grande probabilidade do efeito paradoxal e agitação em idosos.
Antidepressivos
Alguns antidepressivos tricíclicos, como é o
caso da amitriptilina (Amytril®, Tryptanol®) podem ter um bom efeito hipnótico.
Na realidade eles são preferíveis quando a eventual causa da Insônia possa estar
sendo a depressão.
Nos idosos, entretanto, devemos estar atentos para os efeitos anti-colinérgicos
desses medicamentos tricíclicos, tais como a constipação intestinal, a glossite
por ressecamento de mucosas, excesso de sudorese, hipotensão e, principalmente
em homens idosos, a retenção urinária ou prostatismo.
A nortriptilina (Pamelor®), também um antidepressivo tricíclico, tem menos
efeitos anti-colinérgicos e pode induzir também ao sono. A dose capaz de induzir
ao sono chega a ser até menor que a dose terapêutica para a depressão. Assim
sendo, tendo em vista a ausência de possibilidade de dependência, muitas vezes é
preferível induzir ao sono com antidepressivos que com tranqüilizantes.
Outros sedativos
O zolpidem (Stilnox®) é um hipnótico
não-benzodiazepínico e está indicado nos casos de insônia (ocasional,
transitória). O zolpidem atua principalmente sobre os distúrbios do sono e
quando usado isoladamente, não se constitui em tratamento para nenhum outro
problema psíquico, podendo mascarar outros sintomas emocionais.
Em pacientes idosos com mais de 65 anos recomenda-se que a dose inicial seja de
5 mg e que uma dose de 10 mg não seja ultrapassada. Estudos de farmacologia
humana e animal não demonstraram quaisquer efeitos sobre os centros
respiratórios, todavia, o uso do zolpidem em pacientes com insuficiência
respiratória severa deve ser realizado com cautela, bem como nos portadores de
Apnéia do Sono.
O zopiclone (Imovane®) também pertence a um novo grupo químico,
farmacologicamente semelhante às benzodiazepinas. É um hipnótico que rapidamente
induz o sono, além de mantê-lo dentro dos padrões normais durante a noite
(melhora a qualidade de sono). O zopiclone possui uma meia-vida de eliminação
curta, sendo rapidamente excretado, não havendo, pois, acúmulo do produto e de
seus metabólitos. Nos estudos realizados, mostrou-se que zopiclone não causou
dependência nos pacientes em que ele foi administrado.
Ballone GJ - Transtorno do sono em idosos