PASTORAL  DA  PENITÊNCIA
Documento aprovado pela Comissão representativa da CNBB 18 - 25 de outubro de 1976 referendado pela XV Assembléia Geral em Itaici 7 - 17 de fevereiro de 1977

 

INTRODUÇÃO

 

A Igreja, no Concílio Vaticano II, reafirmou a sua solicitude para com o sacramento da penitência, determinando o seguinte: "O rito e as fórmulas da penitência sejam revistos de tal modo que expressem mais claramente a natureza e o efei­to do sacramento" (SC 72).

A Sagrada congregação para o culto divino, procurando satisfazer ao preceito conciliar, publicou. a 2 de dezembro de 1973, o novo rito da penitência.

A Comissâo nacional de liturgia vem realizando estudos, dentre os quais um foi publicado sob o título "Renovação da Pastoral da Penitência" (Comunicado mensal n° 236, maio de 1972, pp. 59 - 70) . A tradução do novo Rito foi outro tra­balho relevante na linha de oferecer à Igreja no Brasil os meios de uma celebração renovada do sacramento da penitência.

Desta forma, desde há mais tempo, a CNBB vinha preparando o clima para a vinda do novo rito.

A Assembléia geral dos bispos, em Itaici, no mês de novembro de 1974, de posse do Rito da penitência e de diversos documentos e estudos rea­lizados na Conferência, bem como da experiência pastoral do sacramento da penitência no País, vo­tou sobre algumas adaptações e tomou decisões a respeito dos pontos que eram de sua competência (cf. rito da penitência n° 38).

Agora, quando o Rito é lançado a público e entregue aos sacerdotes e demais agentes de pasto­ral, a CNBB, com o objetivo de servir à pastoral dos sacramentos no Brasil, vem, mais uma vez como o fez com a pastoral dos sacramentos da iniciação cristã, oferecer subsídios pastorais.

 

CAPÍTULO 1 - SITUAÇÃO DA PASTORAL DA PENITÊNCIA

 

Analisando a realidade, constatamos, entre os fatos sociais, vários processos e certas tendências sócio-históricas que marcam a Sociedade e a Igreja. Algumas destas tendências incidem na prática pe­nitencial.

 

1.1 - Processos e tendências na sociedade Entre as mudanças, desequilíbrios, aspirações e questionamentos atuais, provocados pelos proces­sos de industrialização, urbanização, migração e socialização personalizante ou massificante, multi­plicados pelo processo de comunicação social, cons­tata-se uma série de tendências, tais como:

 

* continuidade e possibilidade de individualismo no anonimato das massas;

* busca de autenticidade pela integração em peque­nos grupos;

* tentativas de valorização da pessoa como res­posta crítica à massificação e à coisificação;

* consciência de um egoísmo de grupos ou classes, provocado pela sociedade de consumo, onde no­vos formas de egoísmo criam a marginalização crescente, pela qual os ricos ficam mais ricos e os pobres se tornam cada vez mais pobres;

* formação de uma consciência permissiva, a qual, partindo da contestação de normas duma moral cujos valores não mais são percebidos como personalizantes, não reconstrói um quadro de valores autênticos, mas se perde na desintegração individual e social;

* reações positivas de solidariedade, na construção da paz, da fraternidade e do desenvolvimento;

* procura de Deus manifestada na sensibilidade a formas religiosas e místicas de diversas proveniências.

 

1.2 - Processos e tendências na Igreja e nos sacramentos

Descobre-se, na Igreja, um processo de encar­nação na realidade do mundo atual, provocado em grande parte pelo espírito do Vaticano II. Este processo vai, aos poucos, desenvolvendo nos católicos um sentido crítico que os leva a libertar-se de falsos valores espirituais e morais, com o con­seqüente desabrochar do senso de responsabilida­de pessoal. Tais processos ajudam a Igreja. a sa­lientar o fato de que deve prevalecer o espírito so­bre a letra da lei (cf. Rm. 7,7; GI. 2,19).

Verifica-se, assim, uma mudança de mentali­dade. As tendências da sociedade atual repercutem sobre tal mudança de mentalidade, desencadeando nos fiéis um questionamento da fé, exigindo deles uma convicção mais sólida desta fé, provocando uma adesão mais pessoal e comprometedora com Cristo, pelo engajamento numa comunidade con­creta. Evidentemente, tudo isto atinge a forma de celebração e a pastoral dos sacramentos.

 

1.3 - Processos e tendências na prática penitenciai

Os processos e tendências supramencionados repercutem também sobre a compreensão do sacra­mento da penitência, criando novas exigências para a sua pastoral e suas formas de celebração. Esta repercussão manifesta-se, sobretudo, nos seguintes pontos:

* na atitude de conversão, como busca cada vez mais explícita de Deus, com crescente consciên­cia eclesial;

* na situação de perplexidade, enquanto conseqüência da época de transição pós-conciliar;

* na atitude tradicionalista, enquanto expressão de formas superadas de evangelização e catequese;

* na diversificação de procedimento dos pastores e demais agentes de pastoral, face às três posi­ções anteriores.

Examinando mais detalhadamente estes pon­tos de: conversão, perplexidade, tradição e diversificação de procedimento, podemos caracterizar e concretizar mais a visão sobre a situação pastoral da penitência.

 

1.3.1 - Quanto à atitude de conversão

O tipo de conversão que se verifica é, em grande parte, reflexo da catequese recebida. Nota­mos elementos positivos e negativos nas atitudes de conversão:

 

1.3.1.1 - elementos positivos

* maior maturidade pessoal, quanto ao modo de agir;

* busca de orientação, através do sacramento da penitência;

* mudança de mentalidade, quanto ao sentido de pecado, abrindo perspectivas para uma maior consciência da dimensão social e eclesial do mesmo;

* insatisfação dos fiéis com relação à simples ab­solvição, quando necessitam de conselho ou de apoio por parte do confessor;

* melhoria do espírito comunitário na vivência sacramental e na celebração eucarística.

 

1.3.1.2 - elementos negativos

* conversão encarada como fruto apenas da von­tade humana;

* desconhecimento dos valores evangélicos e, até mesmo, dos mandamentos da lei de Deus e da Igreja;

* perda ou falta do sentido de pecado;

* consideração da vida conjugal como setor estri­tamente privado, que não entra no campo da confissão;

* perda do sentido da renúncia e da ascese cristã,

* falta de consciência a respeito das situações de pecado existentes nas estruturas da sociedade e da família;

* concepção individualista da salvação.

 

1.3.2 - Quanto à situação de perplexidade A perplexidade de muitos fiéis, na prática penitenciai, parece provir de quatro grandes con­juntos de fatores: crise da moral, formas diferentes de celebração, inutilidade aparente da confissão, certos esquemas de exame de consciência defasados em relação à situação atual.

 

1.3.2.1 - elementos de perplexidade, relacio­nados com a crise da moral:

* falta de noção clara de pecador;

* em alguns, laxismo (nada é pecado), em outros, rigorismo (tudo é pecado);

* busca do processo de conversão, mas sem saber nem onde nem como;

* mudança de mentalidade moral e social, que pro­voca o afastamento ou a diminuição de freqüên­cia ao sacramento;

* pecado não mais considerado como ato contrário à moral, mas apenas como problema psicológico;

* consideração de que pecado grave é apenas ma­tar e roubar;

* desvios e abusos de ordem sexual não mais en­carados como pecado;

* desconhecimento da realidade batismal, não se percebendo a diferença entre ser cristão e ser pagão;

* tomada de consciência da dimensão cristã do social.

 

1.3.2.2 - elementos de perplexidade relaciona­dos com as formas diferentes de celebração:

* aceitação da confissão comunitária, com reservas e ressalvas;

* maneira apressada e massificante com que se fazem certas confissões comunitárias

, * busca de perdão diretamente em Deus com re­jeição da mediação eclesial, por motivos diversos. 1.3.2.3 - elementos de perplexidade relaciona­

dos com a idéia de inutilidade da confissão quanto a seus efeitos:

* alguns confessam-se, mas não se entrosam na comunidade;

* opinião de que a confissão é inútil porque se volta a repetir os mesmos pecados;

 

1.3.2.4 - elementos de perplexidade relacionados com certos esquemas de exame de consciência defasados em relação à situação atual:

* a afirmação "não tenho pecado", como sintoma da falta de critérios no reconhecimento dos pró­prios pecados;

* dificuldade psicológica em acusar os pecados;

* busca da confissão apenas em determinadas épo­cas do ano, como Natal e semana santa;

* dificuldade em perceber os limites da própria responsabilidade e o exercício da liberdade pessoal.

 

1.3.3 - Quanto à atitude tradicionalista
Eis alguns elementos, que podem ajudar a caracterizar tal atitude:

* fidelidade no recurso à confissão freqüente;

* utilização do sacramento como meio de progresso espiritual;

* acusação de atos moralmente graves, sem penetrar na raiz do mal;

* acusação de situações psicológicas como peca­dos, mais por motivo de angústia ou compensação do amor próprio, do que por reconhecimento da culpa com percepção da necessidade de voltar à Aliança, como projeto de vida e de conversão;

* divergência entre os pecados acusados em con­fissão e a vida real;

* incoerência entre confissão e vida cotidiano posterior;

* não reconhecimento da gravidade dos pecados contra a justiça;

* maior preocupação com pecados relativos à castidade;

* consideração do pecado como ato meramente individual e procura do sacramento da penitên­cia unicamente para purificação pessoal;

* confissão apenas como condição para comungar;

* preponderância do "medo do castigo" como motivo da confissão;

* falta de uma verdadeira conversão como expres­são de uma vida reconciliada e integração na comunidade.

 

1.3.4 - Quanto à atitude dos pastores e de­mais agentes de pastoral, frente às posições de conversão, perplexidade e tradicionalismo. Neste sentido, podemos elencar alguns fatos que completam a visão da situação da pastoral da penitência entre nós:

* a introdução da absolvição geral em atenção ao direito dos fiéis a celebrar sacramentalmente o perdão dos pecados;

* a opção por novas prioridades pastorais ou pela profissionalização do clero que reduz o tempo antigamente empregado em ouvir confissões;

* a insegurança e a busca de um conteúdo teoló­gico-moral, face a este sacramento;

* o grande número de comunhões, inclusive de pes­soas que necessitariam de prévia confissão, segundo as atuais determinações da Igreja;

* falta de unidade na orientação da pastoral peni­tencial, quanto à pluralidade de formas de cele­bração;

* insegurança quanto ao que seja atualmente con­siderado pecado;

* falta de espírito de pastor, por parte de confessores que realizam absolvições mecânicas e aceitam, por comodismo, a absolvição geral ou con­fissão comunitária como meio mais fácil e mais rápido de se celebrar este sacramentos;

* falta de valorização da tarefa penitenciai como estímulo à conversão e como reforço à dimensão social do sacramento;

* catequese não adequada para fazer aparecer mais claramente a natureza e os efeitos do sacramento da penitência.

Toda esta realidade complexa exige de nós, a seguir, um esforço de reflexão teológica.

 

CAPÍTULO 2 - ENFOQUES TEOLÓGICOS

 

2.1 - O pecado na vida do homem

 

2.1.1 - Vocação do homem à santidade

O homem se sente intimamente atraído a rea­lizar, na sua história, a imagem segundo a qual foi criado, já que Deus o constituiu dotado da capacidade de conhecer e amar, para poder, ao governar e transformar toda a criação, glorificar o mesmo Deus e assim santificar-se (cf. GS 12;22).

Em virtude de sua vocação à filiação divina, deve o homem realizar, na sua história, a imagem de Filho de Deus, pois nesta realidade foi consti­tuído desde a sua origem, tendo sido dotado da capacidade de viver em comunhão com Deus e, em Deus, com todos os outros homens, no per­feito domínio de si mesmo e de toda a criação e assim, feliz, glorificar a Deus.

A realização da santidade é crescer nesta linha em solidariedade com todos os outros que recebe­ram a mesma vocação. Esta santidade promove um nível de vida mais humano em todas as suas dimensões (cf. GS 12; LG 40 ).

 

2.1.2 - Pecado, destruição do homem

A indiferença a esse esforço de crescimento a que o homem é chamado por seu Criador, é a primeira manifestação do pecado, que pode se agra­var até à total desintegração da pessoa humana e à ruptura com Deus.

A visão teológica do pecado, assentando-se sobre as dimensões antropológicas do mal que se verifica na realidade do mundo, vem completá-Ias. Com efeito, a fé denuncia a gravidade do desprezo do homem pelos imensos benefícios com que Deus o dotou (cf. 2 Sm. 12).

 

2.1.3 - O homem e o pecado

Com a entrada do pecado no mundo (cf. Rm. 8,12), o homem experimenta uma ambigüidade no íntimo de seu ser quanto à realização do ideal a que é chamado e, não raro, passa a buscar sua própria realização prescindindo de Deus (cf. GS 13).

                                

2.1.4 - O homem e sua orientação de vida   Sem uma referência ao seu fim último, que é Deus no seu plano de amor em que o homem é chamado a participar da vida e da felicidade de Deus, como filho, o mesmo homem viverá desorientado tanto no que se refere à sua pessoa, como na sua relação com os demais e com o resto da criação. Sem uma orientação de vida para o bem, o homem submerge-se em muitos males. Estes não têm sua origem no Criador, que é bom (cf. GS 13).

O homem livre se dignifica pela adesão cons­ciente a esse plano de Deus que encaminha sua exis­tência terrena para a plena e feliz realização de seu próprio anseio de perfeição (cf. GS 14; 17).

 

2.1.5 - Cristo, revelação da vocação do homem

Cristo é aquele que revela plenamente o ho­mem ao próprio homem e lhe descobre a subli­midade de sua vocação. Toda recusa consciente e consentida de aceitá-1o e tomar a sério sua men­sagem, para assemelhar-se a Ele, é pecado que destrói o próprio homem. Conseqüentemente é também uma ofensa a Deus e ruptura de comu­nhão com Ele, que quer que todo homem viva de acordo com o que é, a saber, sua imagem e seme­lhança (cf. Gn 1,26 - 27 a ).

No entanto, desde o princípio da história, o homem, instigado pelo demônio, procurou seu pró­prio caminho, desviando-se da direção traçada pelo Criador. Rejeitou, pois, a salvação, multiplicando seus desvios por responsabilidade pessoal e criando na sociedade humana um clima de injustiça onde a responsabilidade de cada um se dilui no anonimato duma responsabilidade coletiva (cf. GS passim).

Não obstante esse afastamento do homem, Deus quis vir ao seu encontro, fazendo com ele Aliança, e assim libertá-lo de seus males e de suas aflições, convocando-o para reunir-se em povo que buscasse a plena realização de suas aspirações ínti­mas (cf. oração eucarística IV).

 

2.1.6 - Aliança e atitude dos homens

A aceitação ou a rejeição desta aliança entre Deus e o seu povo é uma tomada de posição fun­damental de cada homem face a seu Deus e face à vida que Ele propõe ( Cf Ez 36,27s; Jr. 31,31s ) . A rejeição da Aliança é a morte para o homem (Sl. 1,12 ) , acarreta sua exclusão do povo e a separação de Deus.

A aceitação da Aliança nâo torna o homem imune ao pecado. Com efeito, este pode pecar, mas, por causa do obscurecimento de sua inteligên­cia e enfraquecimento da vontade, seus pecados nem sempre significam total negação da orientação de vida para Deus e, por isso, não acarretam a ter­rível ruptura de comunhão com Deus.

Grandes moralistas do passado asseguram ser dificílimo determinar o que é ou não é "pecado mortal".

Os atos, então, do homem, se tornam tanto mais graves quanto mais profundamente atingem a pessoa e a afastam da direção de vida para a. qual Deus o chama.

Por outro lado, o homem só pode libertar-se do pecado impulsionado pelo Espírito, que o leva a empenhar-se com todas as suas forças em conhe­cer a Deus e a praticar o que é bom diante de Deus e dos homens. Só a atitude constante de conversão liberta o homem do pecado. Cristo, voltando paria o Pai, pôde afirmar: "Eu venci o mundo" (Jo 16,33; of. Jo 12,31; 1Jo 2,14).

 

2.1.7 - A consciência, norma de decisão No mais profundo de si mesmo, o homem descobre a existência de uma lei. Ele não a dá a si mesmo, mas a ela deve obedecer. A voz dessa lei ressoa, oportunamente, aos ouvidos de seu cora­ção, advertindo-o de que deve amar e praticar o que é bom e evitar todo mal.

É, pois, no íntimo de sua consciência que o homem decide seus atos e sente a culpa de seu pecado. É também no íntimo de seu coração que todo homem percebe o apelo para buscar o que é verdadeiramente bom e resolver com acerto os nu­merosos problemas morais com que se defronta pessoal e socialmente. E é só através de sua liber­dade que o homem pode readquirir sua própria dignidade, quando tenha pecado (cf. GS 16 e 17).

 

2.1.8 - A lei moral

A responsabilidade da pessoa diante de sua própria dignidade e diante de Deus é que justifica o predomínio da reta consciência no julgamento de seus atos. 'Não se deve, contudo, ignorar que as pessoas e a sociedade não podem guiar-se pela ce­gueira dos caprichos individuais, e sim pelas nor­mas de uma moralidade que corresponda à digni­dade do homem, cuja imagem, revelada por Deus na história, resplandeceu admiravelmente na pessoa de Jesus de Nazaré. A lei moral fundamenta e forma a reta consciência dos indivíduos e da socie­dade.

 

2.1.9. - Situação de pecado no mundo

Há situações no mundo que se apresentam em total desacordo com a dignidade da pessoa humana e com o plano de Deus, sem que ninguém sinta o grito de uma consciência culpada. Há situaçôes de injustiça, marginalização, comercialização da pessoa, corrida desenfreada para valores que não satisfazem plenamente aos anseios da pes­soa humana e até a adoção de contra-valores que destroem e tornam os homens insensíveis aos bens maiores: são o pecado que impera no mundo e sufoca a voz da consciência (cf. Jo 8,21).

Ao denunciar tais situações estamos chamando a todos para assumir a própria responsabilidade de reagir construtivamente face a tais situações peca­minosa, a fim de conseguirmos nos encaminhar para uma sociedade mais humana, e assim libertar os homens de tais situações.

O pecado do mundo, também chamado pecado social, criando situações que condicionam a própria liberdade das pessoas, é o desafio aberto à missão da Igreja. Essa missão é de libertar o homem do pecado, para formá-lo, em Cristo, homem novo, numa comunidade em que reine a paz, fundada na justiça, na verdade, no amor e na liberdade.

A libertação do pecado só pode acontecer em Cristo que vence o mundo e vence o pecado, na sua morte e Ressurreição, pelo dom do seu Espírito

que dá testemunho da verdade no íntimo do homem e o atrai para o amor do Pai e dos irmãos.

 

2.2 - A reconciliação em Cristo

 

2.2.1 - Cristo, sacramento da reconciliação,
A Boa Nova da reconciliação é Jesus Cristo. Nele resplandeceu, para todos os homens, o amor salvífico do Pai. Pelo mistério da Encarnação ele assumiu o pecado dos homens; entrou no mundo a, para salvar, entrou na casa dos pecadores. Por sua palavra e por sua vida entre os homens, reve­lou a misericórdia do Pai e denunciou o pecado dos homens, ensinando a todos o caminho da volta, do amor e da libertação.

Esta é a vontade do Pai: que por Ele todos os homens sejam salvos. No mistério de sua passa­gem por este mundo, consumada na morte-ressur­reição e ascensão, tornou-se o único sacramento da reconciliação dos homens com o Pai e dos homens entre si.

 

2.2.2 - A Igreja, Sacramento da reconciliação
A Igreja é o sinal e instrumento visível do Cristo invisível no meio dos homens. Na comunidade eclesial Jesus Cristo, no Espírito, continua a sua missão reconciliadora e libertadora. Por isso o grande desafio da Igreja é crescer na comunhão com Cristo, por meio da conversão, renovação e purificação, a fim de espelhar, sempre com mais fidelidade, a santidade do Esposo e denunciar ao homem a presença . do pecado nas estruturas do, mundo que se afasta do seu Deus. Pois "o Espírito com sua vinda, convencerá o mundo do Pecado, da Justiça e do Juízo" (Jo 16,8 s ).

Pela Igreja e na Igreja, o Pai, por meio do Cristo e no Espírito banto, continua convidando todos os homens à salvação, oferecendo-lhes, na Palavra e nos Sacramentos, caminhos de libertação até a total plenitude em Cristo Jesus.

 

2.2.3 - O batismo, inserçâo na comunidade dos reconciliados

Pelo batismo, o homem é inserido em Cristo e por Ele torna-se membro da comunidade dos reconciliados com o Pai no Espírito Santo. Povo santo e pecador, é enviado a celebrar, na história, a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo e anunciar a todos o perdão dos pecados e a viver, no dia a dia, um novo relacionamento com Deus e com o homem e sua história.

No Batismo, o homem também recebe um convite especial para tomar parte na mesa do Senhor, para fazer memória das grandes maravi­lhas operadas na comunidade do povo pelo Deus que perdoa os pecados dos homens, mas que quer viver com eles e levá-tos à plena comunhão. Por Jesus Cristo, na comunidade eclesial hoje reunida, o Corpo é dado e o Sangue é derramado para re­missão dos pecados de todos e assim reconciliar o mundo com o Pai.

A participação no Sacramento da Eucaristia renova a caridade dos batizados, unindo o Sacri­fício espiritual de sua vida ao sacrifício de Cristo que se oferece, na obediência, pela vida do mundo (cf. Rm passim ) .

 

2.2.4 - Eucaristia e reconciliação

A Eucaristia completa a incorporação com Cristo realizada no batismo. Tornando presente a ceia sacrificai do Senhor - síntese do Mistério Pascal - a celebração eucarística proporciona aos homens a participação na Morte e Ressurreição do Senhor (cf. Introdução geral ao missal romano, passim).

Quando oferecemos ao Pai o mesmo sacrifício de reconciliação do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, satisfazemos por nossos peca­dos, pois "o Senhor, aplacado por esta oblação e concedendo a graça e o dom da Penitência, per­doa-nos os crimes e os pecados, por maiores que eles sejam" (Concílio de Trento - XXII  sessão, of. Denzinger S. 1743).

É por isso que na III prece eucarística dize­mos: "Olhai com bondade a oferenda de vossa Igreja, reconhecei o sacrifício que nos reconcilia convosco. Que este sacrifício da nossa reconci­liação estenda a paz e a salvação ao mundo inteiro".

No momento da consagração dizemos também que o sacrifício foi e é oferecido para a remissão das pecados.

 

2.2.5 - A vida do batizado é uma existência reconciliada

O cristão vive no mundo uma história de tensão, história de guerra e de paz, de pecado e de graça, de divisão e de unidade, de egoísmo e de comunhão, de individualismo .e de fraternidade, de isolamento e de participação, de sociedade e de comunidade.

Enquanto espera pela vinda do Senhor, o cristão é chamado a viver, em Igreja, o mistério de uma existência reconciliada, no meio do mundo, experi­mentando em si a fragilidade e as conseqüências do pecado.

Nesta realidade histórica de tensão, o homem de fé é chamado a viver, dia após dia, uma con­versão contínua e renovada, respondendo aos apelos do Espírito Santo. Mas uma certeza o acompanha neste caminhar: a presença da misericórdia reconciliadora do Senhor Ressuscitado, aceita por ele no batismo. A experiência do pecado, para o bati­zado, deve levá-lo a uma nova abertura para o perdão, que é a experiência da misericórdia do Senhor.

2.2.6 - Na misericórdia do Senhor, os diver­sos caminhos do perdão

Deus Pai sempre toma a iniciativa e oferece de novo a graça da comunhão no Espírito Santo a todo homem. Na graça do mistério reconciliador do Cristo, o homem pode abrir-se e acolher a sal­vação de Deus, na atitude de conversão.

O convite de Deus e a resposta do homem devem acontecer e se expressar na vida e na reunião da comunidade, tornando-se assim visibilidade sa­cramental.

Na sua história, a Igreja tem reconhecido di­versos modos, atitudes e lugares para expressar a conversão e a reconciliação, como sejam: a vida de fé, os gestos de fraternidade, o perdão das ofensas mútuas, a caridade da esmola, as formas de jejum interior e exterior (4° mandamento da Igreja), a oração comum (especialmente o Pai nosso) , a unção dos enfermos e a celebração eucarística.

Todos estes modos e atitudes constituem mo­mentos fortes que manifestam a conversão cristâ e oferecem certa eficácia de reconciliação, pois parti­cipam da ação ministerial e reconciliadora da Igreja (cf. GS 37).

O novo rito da penitência reconhece o valor das celebrações penitenciais (cf. n° 37), pois a Igreja-sacramento tem diversos caminhos que levam ao perdão dos pecados e ao crescimento na comu­nhão com o Pai e com os irmãos. Extremamente rica é a história deste sacramento na vida da Igreja.

 

2.2.7 - A Igreja, comunidade ministerial, celebra o sacramento da penitência
A Igreja é uma comunidade a serviço da reconciliação e da salvação dos homens. Dentro desta realidade salvífica da Igreja é que deve se situar a celebração do sacramento da penitência.

A Igreja-comunidade tem consciência de que traz em seu seio santos e pecadores: "povo san­to e pecador", rega-se na oração eucarística V. Contemplando-se no Cristo, sempre descobrirá que ainda não é a Esposa sem mancha, a noiva preparada para as núpcias com o Cordeiro (Ap. 21,2.9) , e que não é ainda a revelação perfeita do Amor do Pai, assim como foi o Cristo histórico.

As comunidades sempre tiveram consciência de serem compostas de cristãos que pecam e que, portanto, precisam voltar-se para Deus, o qual nun­ca nega seu perdão ao coração contrito e humilhado (S 1 50).

Pecado e infidelidades sérias levam a uma ruptura de comunhão com Deus e a um afastamento da comunidade eclesial, fazendo o homem voltar ao jugo do poder das trevas, além de causarem escândalo para os irmãos que têm o direito de ver, na comunidade, o sinal e o testemunho da mensagem evangélica e da presença do penhor.

Para tais situações infelizes, exige-se um processo de reparação e de reconciliação, cujas expres­sões concretas sofreram mudanças através dos tempos, mas que no sacramento da penitência sempre encontram a graça do perdão e a reintegração na comunidade eclesial pela mediação visível da Igreja.

 

2.2.8 - A comunidade ministerial necessita de ministros da reconciliação

Na celebração do mistério da reconciliação, toda a comunidade eclesial desempenha um papel de mediação pela oração comum que é a interces­são em favor dos pecadores e dos próprios mem­bros da comunidade. Mas a estrutura teológica da assembléia litúrgica sempre exigiu ministros que presidissem aos fiéis reunidos em nome do Senhor,

que é Cabeça e Pastor de seus membros (cf. LG 28;25).

Aos apóstolos, Cristo confiou um ministério de confirmar os irmãos na fé e de os animarem na caminhada para o Pai. Os sucessores dos apóstolos, os Bispos com seus cooperadores, os presbíteros, exercem pois a função de estar à frente da comuni­dade presidindo à fé e à oração, bem como à comu­nicação no amor mútuo de irmãos. Com efeito, pode-se dizer com acerto: "Quando o ministro batiza é o mesmo Cristo que batiza" (cf. SC 7) . Os ministros, portanto, agem à frente da comuni­dade como a pessoa do próprio Cristo que preside à sua Igreja.

Compete aos ministros avaliar a fidelidade e a intensidade de conversão que traz os penitentes à comunidade, a fim de perdoar seus pecados ou retê-tos para um tempo de salutar penitência (cf. Jo 20,23).

É ministério dos que presidem conduzir a comunidade de tal modo que esta possa encontrar os caminhos para servir ao Senhor e viver na cari­dade com os irmãos.

 

2.2.9 - Necessidade e utilidade deste sacramento

O recurso ao sacramento da penitência, con­forme doutrina de Cristo e da Igreja, torna-se nor­malmente indispensável para os fiéis que tiveram a infelicidade de ofender gravemente a Deus. A re­cusa de submeter-se ao "poder das chaves" (cf Mt. 16,13 -19;18,18) nega a mediação da própria Igre­ja que é sinal e instrumento de salvação.

Ainda mais, a Igreja tomou consciência de que o sacramento da penitência é de grande utilidade para todos os batizados penitentes, quando reta­mente compreendido e celebrado (cf. rito n° 7b) . O sacramento se torna a expressão culminante da virtude da penitência e do perdão na vida da Igreja. A própria virtude da penitência está orientada para a expressão sacramental do perdão (cf. Rito n° 4 ) , assim como as celebrações não sacramentais rece­bem sua plena significação no contexto da celebra­ção sacramental da Igreja que tem múltiplas mani­festações.

O sacramento da penitência exprime, de modo pleno, a vida de conversão e de reconciliação da Igreja. Pode, pois, ser celebrado como meio de progresso espiritual, como impulso para um cres­cente dinamismo de conversão e reafirmação con­tinuada de uma vida para Deus e o próximo. Neste sentido temos as recomendações do Concílio Vaticano II (cf. PO ri 6; veja-se também a Instrução "Dum canonicarum legum" de 8 de dezembro de 1970; AAS LXIII - 30 aprilis - 1971, p. 318).

A confissão de pecados leves renova o encon­tro com o Cristo misericordioso, salvaguardando a liberdade de consciência de quem tem dúvidas ou pecado venial de maiores conseqüências. Resguar­da outrossim a fama dos que se aproximam do sa­cramento da penitência por necessidade estrita, por pecados graves.

 

2.3 - Dimensões do sacramento da penitência

 

2.3.1 - Um sacramento da Igreja

Ao celebrar este sacramento, a Igreja tem consciência de que todos e cada um desempenham um papel mediador que manifesta a dimensão ecle­sial do universo sacramental. Se bem que compete ao ministro dar a absolvição, todos participam, em Igreja, da reconciliação dos irmãos (cf. Rito ri 8 ) .

É claro que as formas comunitárias da recon­ciliação manifestam melhor esta dimensão (Rito ri 22 ) . É bom lembrar, porém, que mesmo na confissão individual o penitente não é um membro isolado, passivo, mas desempenha um papel ativo de Igreja e faz parte da própria estrutura eclesial do sacramento (cf. Rito ri 11).

 

2.3.2 - Um sinal de reconciliação e de amizade

A teologia subjacente no Ritual até há pouco em vigor usa sobretudo a simbologia do julgamen­to, enquanto que a teologia do cristianismo primitivo, retomada no novo Rito, acentua o aspecto da consciência de ser pecador e a necessidade de con­versão.

Isto reaparece no novo modo de se expressar na Igreja (cf. Rito no. 15, 22, 31 ), que insiste sobre o reconhecimento da distância que se insta­lou entre amigos, ligados por uma Aliança não cumprida e que, portanto, tem aspectos de ruptura da relação amical. A reconciliação se inicia com o propósito de voltar, continua num processo de conversão que se acentua no íntimo do penitente, fazendo seu coração desejar e se esforçar por con­seguir o estado anterior de amizade. Nesta dimensão, o encontro do pecador-penitente com o con­fessor ou com a comunidade presidida por seus ministros, se torna o momento de significar o reencontro de seu lugar no seio da Igreja. É neste sentido que se insiste mais sobre a gratuidade do gesto penitenciai e da Palavra de perdão, do que sobre a minuciosa acusação dos pecados.

 

2.3.3 - Sacramento de louvor e ação de graças A percepção do sentido do pecado está diretamente ligada ao sentido de Deus, para o cristão.   É diante da bondade imensa do Pai, revelada em Jesus de Nazaré, que o pecado do homem aparece com toda sua gravidade: recusar o amor, resistir Aquele que atrai o homem para si, romper a Aliança, calcar aos pés o Filho de Deus, profanar seu sangue e ultrajar o Espírito Santo (cf. Hb. 10,29).

Tudo isso é que agrava o pecado do homem que conheceu Deus em Jesus Cristo. Ao ser per­doado, o cristão sente necessidade de louvar a misericórdia e a benignidade do Senhor, bem como de render graças ao Deus do perdão. Só a confissão da grandeza de Deus permite ao homem a ale­gria de quem se sente perdoado por amor. Sem essa dimensão de louvor e de gratidão, o Sacra­mento da Penitência poderá ser uma humilhação, mas não será o sacramento da libertação. A oração conclusiva; proposta pelo rito da penitência (cf. ri 207) retoma o estilo literário de prefácio que evoca uma forma de "eucaristia".

 

2.3.4 - Sacramento da alegria pascal

A páscoa do Cristo é que confirma a possi­bilidade de passar deste mundo de pecado para o Pai. Jesus, ao falar de sua Hora, pede ao Pai para glorificá-lo na glória que tinha antes (cf. Jo 17 ) . Assim, na Páscoa do Cristo todos os homens somos libertados nEle e obtemos a remissão dos nossos pecados. "Elevado da terra, ele atrai para si todos os homens" (Jo 12,32).

A libertação dos pecados pelo Sangue derra­mado e pelo Corpo entregue para a vida do mundo, faz com que os pecadores redimidos conscientementes pelo sacramento da penitência, cantem hinos de louvor e dêem graças ao Deus de misericórdia que perdoa seus filhos para reintegrá-tos na glória com que coroou seu próprio Unigênito.

A alegria do perdão deve, pois, transparecer na celebração em cantos e em atitudes. Se o peca­do é a degradação do homem, o perdão o reabilita; se o pecado humilha, o perdão restabelece na digni­dade de filho; se o afastamento entristece, a volta traz consigo o júbilo que provoca a festa de um banquete (cf. Filho pródigo - Lc. 15,11 - 32; Zaqueu - Lc. 19,1 - 10).

 

CAPÍTULO 3 - NOVO MODO DE CELEBRAR A PENITÊNCIA

 

3.1 - Singularidade

"Raras vezes a pastoral de um sacramento dependeu tanto da renovação de um Ritual como, no momento, está dependendo a do sacramento da Penitência. Trata-se de um sacramento que, ao longo da história da Igreja, conheceu em sua disci­plina, vicissitudes e praxes diversificadas, e que se encontra, atualmente, mais que qualquer outro, em plena fase evolutiva, procurando sua verdadeira imagem. Todos lamentam o crescente afastamento deste sacramento por parte do povo cristão, ou a revolta dos que o dispensam, dizendo que se con­fessam diretamente a Deus. Mas ninguém poderia pensar em voltar à disciplina e à pastoral deste sacramento anteriores ao Concílio Vaticano II" ( Apresentação ao "Rito da penitêncía").

3.2 - Objetivo

A Igreja, ao apresentar o novo rito da penitência, manifestando sua solicitude, quer pôr em evidência o ensinamento conciliar: "Aqueles que

 

CAPÍTULO 4 - PERSPECTIVAS  PASTORAIS

 

4.1 - Medidas Gerais

 

4.1.1 - É preciso continuar a missão funda­mental da Igreja de anunciar a penitência e a con­versão, apresentando o Cristo como libertador das situações de pecado que se verificam no Mundo e na Igreja.

A volta às comunidades eclesiais de base é sem dúvida uma resposta e um convite a esta con­versão concreta, capaz de instaurar um contexto de conversão sempre renovada e contínua. Essa é a tarefa primeira da Igreja, a missão fundamental dos apóstolos (cf. Ml 3,2;4,17 e paralelos; Lc. 24,46; Atos, passim e Hb. 6,1).

 

4.1.2 - Para isso, tendo diante dos olhos as situações atuais, é necessário formar a consciência moral dos fiéis, dando-lhes a verdadeira noção de pecado. A catequese e a pregação em geral não podem empregar critérios rígidos nem deixar na insegurança. A situação de pecado e a vocação a uma vida perfeita devem estar presentes no ensi­namento da Igreja.

 

4.1.3 - A conversão para o batizado se ma­nifesta em todos os momentos e ambientes de sua vida e o leva, inclusive, à freqüência assídua a uma comunidade que vive da Palavra e do Sacramento, no aprendizado do ensinamento de Jesus e onde se expressa, em gesto, a atualidade da presença do Cristo.

 

4. 1 . 4 - Apresenta-se a comunidade como lugar concreto da realização da vida cristã enquan­to sinal da conversão. A entrada no Reino de Deus não pode ser apenas um desejo ou uma interiori­dade da pessoa humana; há uma dimensão de sinal da salvação e de instrumento que requer uma ati­tude de participação concreta na comunidade.

 

4.2 - Tempos fortes de penitência na liturgia
4.2.1 - Na pastoral da penitência é preciso revalorizar aqueles tempos litúrgicos que por sua natureza têm um espírito capaz de levar à con­versão (quaresma, advento, rogações, peregri­nações) (cf. SC 110).

* A Quarta-feira de Cinzas não poderá reduzir-se ao simples rito de distribuir as cinzas, mas deve tomar um cunho de entrada na Quaresma que poderá ser um encaminhamento para uma celebração penitenciai a ser realizada sacramentalmente em tempo oportuno.

* O rito penitenciai da missa deveria tomar especial relevo nestes tempos litúrgicos e em outras ocasiões em que se queira dar realce à atitude peni­tencial. Pode ser usado como reativação pastoral de todas as práticas penitenciais. Essas práticas devem possibilitar uma mais digna aproximação da Eucaristia.

Em grupos pequenos, pode haver até acusação pública de uma ou outra falta exterior, o que con­tribui para maior intimidade e auxilio mútuo. Isto é particularmente possível com assembléias de maior vivência cristã. Depois de cada falta, pode-se levar toda a assembléia a responder: "Perdoai-nos Senhor" - ou outra fórmula semelhante - como prova de solidariedade e corresponsabilidade.

 

4.2.2 - A preparação para os sacramentos do batismo, da primeira eucaristia, da confirmação, do matrimônio, deve criar um espírito de reintegração mais consciente na comunidade eclesial.

A celebração do sacramento da penitência, nessas ocasiões, pode significar um reinício da ati­tude de conversão, além de revalorizar este sacra­mento na consciência dos fiéis.

 

4.2.3 - Nos lugares e momentos em que o anúncio da conversão deve ter prioridade por causa dos aglomerados de pessoas não explicitamente evangelizadas (peregrinações, romarias, santuários), as celebrações penitenciais ganham espe­cial importância e são mesmo necessárias. Cuide-se, pois, de preparar celebrações comunitárias que cor­respondam à índole própria destas circunstâncias.

 

4.2.4 - Nas novenas e tríduos de padroeiros (as) , nos retiros espirituais, é oportuno que se dedique um dia à celebração da penitência.

 

4.2.5 - No caso de a penitência estar senão abandonada ou caindo na rotina, é conveniente que se promovam periodicamente celebrações em dia e hora determinados. Sendo necessário, poder-se-á substituir a celebração da Eucaristia, num dia de semana, pela celebração comunitária da penitência. Isto pode ocorrer tanto na paróquia como em comunidades religiosas. É importante que nessas celebrações se imponha, como penitência, uma tare­fa concreta, com perspectivas comunitárias, a ser executada.

 

4.2.6 - Onde o contexto permitir, se reno­vem e valorizem as procissões penitenciais do tempo da quaresma e das rogações (cf. SC 109).

 

4.2.7 - Nas comunidades religiosas, sobretu­do por ocasião de ingresso no noviciado, emissão de votos ou em reuniões provinciais, seja expressa a dimensão de conversão da comunidade pela cele­bração penitenciai.

                               

4.3 - Educação para o espírito de penitência
O quarto preceito da Igreja - "jejum e abstinência" - seja incentivado não só como ascese pessoal, mas como participação nos sofrimentos de Cristo e sobretudo como possibilidade de auxílio aos pobres. É este mesmo espírito que deve permear toda a Campanha da fraternidade, durante a quaresma, com ressonância durante o ano todo.

* Dar a devida ênfase ao caráter penitenciai das sextas-feiras, orientando-o, quando possível, para uma tentativa de restauração da justiça no atendimento aos pobres.

* Dar um caráter de prática penitenciai à caridade organizada, por exemplo, Natal dos pobres, socorro de emergência a flagelados como tenta­tiva de despertar em todos a fraternidade, como sinal de conversão a Deus e ao próximo.

* Convidar grupos de fiéis a reservar algo , semanalmente, fruto de abstenção, para entregar aos pobres, numa perspectiva de ajudar a promoção humana.

* Valorizar e incentivar a colaboração comu­nitária entre famílias, comunidades eclesiais de base, grupos, em todas as ocasiões necessárias e oportunas.

* Aproveitar os sofrimentos diários como prá­tica de penitência. Quanto possível deve-se levar o povo a não se acomodar aos sofrimentos, mas a remediá-tos. Mas quando independem de nossos esforços, suportar esses sofrimentos na consciência de que Deus os aceita como redenção de nossos pecados.

* Elaborar, com especial cuidado, ritos para o dia das cinzas, finados, missões populares e outras ocasiões.

* As devoções populares sejam aproveitadas , para educação do espírito da penitência, tendo-se porém, sempre presente que devem ter um cunho de derrota do pecado pela ressurreição.

* Nas pregações levar o povo a uma atitude penitenciai em suas dimensões pascais de libertação, máxime quando se trata de celebração sacra­mental da penitência (cf. "Rito da penitência" - introdução, no. 3 - 4).

 

4.4 - Celebração do sacramento da penitência

 

4.4.1 - Confissão índividual

Na 14 Assembléia geral dos bispos do Brasil ficou aprovado em votação que "o local normal para ouvir confissões seja o confessionário tradicio­nal ou outro recinto apropriado.

 

4.4.1.1 - Seja no entanto providenciado um local discreto, anexo ao corpo da própria igreja e de fácil acesso, para que os fiéis, ao entrarem e saírem do templo possam ver claramente o "recinto apropriado" ou uma clara indicação deste e assim se sintam convidados à prática do sacramento.

 

4.4.1.2 - Quanto aos gestos, é importante que sejam expressivos e se situem no contexto de uma ação eclesial.

 

4.4.1.3 - Para as confissões individuais haja horários. certos e visivelmente afixados. Elimine-se confissão durante a Missa e durante qualquer outra celebração da comunidade no mesmo recinto (Euch. Myst. 17).

 

4.4.1.4 - A confissão individual se desenvol­va numa linha de diálogo e colóquio fraternal entre penitente e confessor. Procure este ter para com o penitente atitudes de paciência, compreensão e misericórdia, inspirados nos exemplos de Cristo.

A penitência celebrada de modo individual ,

não pode reduzir-se ao perdão dos pecados, mas deve colocar em realce o valor personalizante do aconselhamento, da orientação de vida e da direção espiritual. Sem confundir os campos, a acusação individual dos pecados espera, por parte do con­fessor, uma resposta da Igreja como formadora da consciência e uma crítica do juízo interpretativo quanto aos atos do penitente. Não se negue a nin­guém o direito de ser ouvido quando manif;,ste o desejo de atendimento pessoal.

 

4.4.1.5 - A tarefa penitenciai não seja ape­nas uma formalidade, mas o confessor tenha o cui­dado de dialogar com o penitente, pedindo sua sugestão ou motivando para uma prática concreta que vá ajudar o processo de conversão por um esforço convergente de atos que possam servir de remédio às faltas acusadas.

 

4.4.1.6 - Em caso de grande concurso de povo (natal, páscoa, romaria... ) , providencie-se número suficiente de confessores. Caso isto seja impossível, recorra-se à celebração comunitária em pequenos grupos, oferecendo, porém, um tempo razoável para a conveniente confissão individual.

 

4.4.2 - Celebrações comunitárias da penitência

 

4.4.2.1 - A celebração comunitária é sem dúvida meio de formação da consciência do povo. As perguntas porém que se devem fazer são: Como despertar o povo para uma nova visão na vivencia da fé e tirá-lo da rotina de ir pedir perdão sem mudar de vida? Como evitar uma sacramentalização indiscriminada?

Eis algumas pistas de idéias-força:

* necessidade de um ideal comunitário e con­dições para que os fiéis possam se integrar numa comunidade concreta;

* necessidade de celebrações temáticas, por exemplo: as injustiças sociais, a solidariedade hu­mana e cristã, a "geração da Igreja em termos de fraternidade", a ausência nas assembléias eucarís­ticas, os mandamentos de Deus . . .

* indicar a situação de pecado em que vive­mos e mostrar que estamos comprometidos com esta situação. Há pecados-causas e pecados-efeitos. Despertar, através da celebração, para a vitória so­bre os pecados-causas.

 

4.4.2.2 - Quanto ao sentido: as celebrações podem tomar um caráter autenticamente comuni­tário ou ter apenas um cunho coletivista.

Um exame de consciência individualista, em que cada um considera só sua relação com Deus, faz da celebração um ato coletivo mas não comu­nitário.

À medida em que todos tomam consciência da dimensão comunitária do pecado e de suas implicações sociais e querem contribuir para que a comunidade saia do pecado, então temos uma cele­bração comunitária.

 

4.4.2.3 - Quanto à satisfação a ser imposta: Sejam tarefas concretas que ajudem o povo a sentir-se solidário. Há dificuldades reais em descobrir tarefas concretas que atinjam a comunidade. Existe mesmo o perigo de a comunidade se fechar sobre si mesma, procurando resolver apenas seus problemas e não comprometer-se numa luta para vencer o pecado no mundo. É indispensável que se leve a uma abertura maior.

 

4.4.2.4 - Quanto ao rito e à escolha dos tex­tos, é deixada grande margem à criatividade dos presidentes e ministros da celebração. Para isto basta verificar os exemplos de celebrações temáti­cas apresentadas pelo próprio Rito, onde se diz claramente que em tais celebrações pode-se, opor­tunamente, dar a absolvição sacramental (cf. Apêndice 2 n. 4 ).

 

4.4.2.5 - Mais ainda do que na penitência individual, a celebração comunitária deve sublinhar a dimensão de ação de graças pelo perdão concedido, bem como de louvor à misericórdia do Senhor. Note-se, a respeito, o estilo de prefácio ou de "eucaristia menor" das orações propostas pelo rito (n. 39 das normas, no. 56-57 e n. 206).

 

4.4.2.6 - O gesto concreto a ser pedido aos penitentes que desejam receber a absolvição, quan­do esta é dada de modo geral, visa distinguir as pessoas que aceitam a penitência sacramental das demais presentes no mesmo recinto, mas que não estão dispostas ou não julgam necessária a absol­vição (cf. Rito n. 35 b). Compete ao bispo diocesano determinar ou indicar os gestos capazes de significar claramente esta participação no perdão concedido sacramentalmente (cf. Assembléia da CNBB, Itaici, novembro de 1974 em: Comunicado mensal, novembro, 1974, p. 1060 ).

 

4.4.2.7 - Para a satisfação penitenciai, in­diquem-se boas obras a praticar, como seja a visita a um doente, a um presídio, lugar pobre . . . No caso de se impor uma oração como penitência, seja ela orientada para determinada intenção e relacio­nada com os pecados confessados ou mais acentuados no tema da celebração, quando se trata de confissão geral.

Mais do que um ato passageiro, a tarefa peni­tencial poderá tomar um cunho educativo, se o confessor sugerir um "breve exercício" a ser con­servado ou repetido por alguns dias consecutivos.

 

4.5 - Situações especiais

 

4.5.1 - Quando houver grande afluência de penitentes, sejam estes preparados em grupos e com a ajuda de catequistas, para que o rito da Palavra e a ação de graças se realizem em comum, atenden­do o confessor a grupos menores e assim evitando longa espera por parte das pessoas.

 

4.5.2 - Insista-se na utilidade das celebrações penitenciais sem absolvição sacramental (Rito n. 37). Estas podem, com grande proveito, ser celebradas também sob a direção de outros minis­tros que não sejam presbíteros. A prática de tais celebrações educará a consciência dos fiéis a buscar o perdão não apenas no sacramento, mas na oração da Igreja, máxima na vivência renovada da caridade. "Celebrações de várias espécies podem de­sempenhar um papel na formação litúrgica das crianças" (cf. Diretório das missas com crianças n. 13) e também dos adultos. Alerte-se, no entan­to, para a diferença entre esta celebração e a absolvição sacramental.

 

4.5.3 - Especial destaque merece a possibilidade de variar as formas de celebrar o rito penitencial no início da celebração eucarística. Além das três propostas pelo ordinário do missal romano e que já oferecem inúmeras possibilidades de variações, o rito de aspergir os fiéis com água benta pode tomar o lugar do ato penitencial, máxime nos dias em que se faça uma adequada motivação e se ligue o rito da água com o batismo e se dê um cunho penitenciai a esta recordação do batismo por parte da comunidade (cf. missal romano, apêndice n. 1).

 

4.5.4 - Assim como entre os pastores há al­guns que são especializados em determinados seto­res da pastoral, haja também preocupação de pre­parar ministros da Penitência, mediante estudo mais profundo de psicologia e de moral, bem como de Espiritualidade.

 

4.6 - Conclusão

A Conferência nacional dos bispos do Brasil espera que essas constatações de alguns aspectos da situação pastoral da penitência, os enfoques teo­lógicos propostos à meditação de pastores e demais agentes de pastoral, a riqueza do novo rito do sacramento da penitência e as sugestões de algu­mas iniciativas práticas, venham ao encontro das necessidades do povo de Deus e do desejo de me­lhor servir, por parte dos responsáveis pelo anún­cio da Boa-nova.

Bendito seja, pois, Aquele que nos reconciliou consigo em Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação.

Foi Deus, Pai de misericórdia, que reconciliou o mundo em Cristo, seu Filho, não mais levando em consideração nossos pecados, mas depositando gra­tuitamente em nós a Palavra da reconciliação.

Somos, portanto, embaixadores do Cristo: é como se Deus mesmo exortasse por nosso intermé­dio: - "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc. 1,18) . Nós vos suplicamos em nome do Senhor Jesus: deixai-vos reconciliar com Deus (cf. 2 Cor. 5,18 - 20).

 

MENU RÁPIDO