A compreensão da eucaristia está
relacionada com a história de amor entre Deus e a humanidade. Nela Deus toma
a iniciativa de vir ao encontro do homem e amá-lo gratuitamente: ...não
fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou seu filho
como vítima de expiação de nossos pecados (1Jo 4,10).
Ora, esse Deus que nos ama gratuitamente se revelou em Jesus Cristo que,
livremente e por amor, decidiu morrer na cruz para a salvação da humanidade,
cumprindo a vontade do Pai.
Na
última ceia com seus discípulos, Jesus antecipa o gesto fundamental de
doação de sua vida e de seu sangue, depois consumados na cruz, habilitando
seus discípulos a realizá-lo para sempre. Podemos afirmar que o dom da
eucaristia, como oferta gratuita do Pai através do corpo e do sangue de
Jesus, e de sua ressurreição, é a refeição maior, a realização da nova
Aliança de amor em Jesus ressuscitado, a forma de Deus continuar presente no
meio da humanidade.
NA LITURGIA DA IGREJA
Na
liturgia da Igreja nós celebramos o mistério pascal de Jesus Cristo.
Mistério de sua paixão-morte-ressurreição e ascensão ao céu. Ele está vivo,
presente e caminha à frente da comunidade (do seu povo), segundo o
evangelista: ...Ele vos precede na Galiléia; lá o vereis, como vos disse (Mc
16,7). A eucaristia é a celebração da ceia que Jesus realizou com os
discípulos, ou seja, o gesto de doação de seu corpo e de seu sangue como
alimentos de vida eterna. Esse foi, sem dúvida, o maior gesto de amor, pois:
Ninguém tem maior amor do que aquele que se despoja da vida por aquele a
quem ama (Jo 15,13). Podemos dizer que a eucaristia é celebrada na liturgia
como refeição fraterna onde é atualizado o mistério da Páscoa de Cristo.
Ao participarmos dessa refeição fraterna, salta-nos uma pergunta: por que
comungamos do corpo e do sangue do senhor? O teólogo Cesare Giraudo, citando
São João Crisóstomo, diz que celebramos a eucaristia para obter a lucidez de
espírito, a remissão dos pecados, a comunhão com o Espírito Santo, a
plenitude do reino do Céu, a confiança perante vós1. Realmente são
grandiosos esses elementos de efeito da sagrada comunhão. Se ainda quisermos
dizer de um modo mais abrangente, podemos afirmar, conforme nos sugere o
mesmo autor em São Basílio: Celebramos a eucaristia para obter do Pai a
transformação em um só corpo, corpo eclesial, escatológico e místico1. Pois
a eucaristia é pedida exatamente com essa finalidade: para nós. Ora, o que
acabamos de ver pode ser expresso ainda em outras palavras: a eucaristia,
por meio dos sinais visíveis do pão e do vinho e como presença simbólica e
sacramental, não nos foi dada só para que possamos adorar a Cristo sob as
espécies eucarísticas; a comunhão não nos foi dada principalmente para que
possamos encontrar e receber no coração o amigo Jesus, a quem fazemos, por
alguns instantes, uma fervorosa e afetuosa companhia. O senhor não institui
a eucaristia em função de nossos olhos que a contemplam. Ele a institui em
função de nossas bocas que se nutrem dela: instituiu-a para que a
comêssemos1. Esse é o ensinamento que nos vem da prece eucarística vista ao
mesmo tempo como súplica pela transformação das ofertas e súplica pela
transformação de nossa vida em sua vida.
Também Justino de Roma enfatizou, no segundo século, o aspecto comensal da
eucaristia, não apenas como pão e bebida comum, mas da maneira como Jesus
Cristo, nosso salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e
sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao
Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças
– alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa
carne – é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. (Justino, I
apologia, 66, 2)
Na vida da comunidade e na história
Desta
forma, a eucaristia tem conseqüências para a vida da comunidade e do
mundo.
Quem participa da celebração da eucaristia não pode mais viver indiferente.
É o próprio Jesus que diz: ...fazei isto em
memória de mim (Lc 22, 19). Ora, fazer memória de Jesus significa participar
de sua paixão-morte-ressurreição, assumir, no cotidiano da vida, o
compromisso de viver, no Espírito do ressuscitado, a solidariedade amorosa,
o amor gratuito, mediante gestos de generosidade à humanidade e
especialmente às pessoas mais necessitadas. Portanto, a eucaristia nos
remete a vivermos no cotidiano de nossa história a mesma vida de amor e de
doação que o Cristo viveu sendo obediente à vontade do Pai até a morte e
morte de cruz para então fazer valer a vitória da vida: ... páscoa de Cristo
na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo (Doc. Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, 43, nº 300).
1 GIRAUDO, C.
Redescobrindo a eucaristia. São Paulo: Loyola, 2003
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