§ 1323 - "Na última ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e Sangue. Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o sacrifício da cruz; confiando destarte à Igreja, sua dileta esposa, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento do amor, sinal da unidade, vínculo da caridade, banquete pascal em que Cristo é recebido como alimento, o espírito é cumulado de graça e nos é dado o penhor da glória futura”.
§ 1324 - A Eucaristia é "fonte e ápice de toda a vida cristã". "Os demais sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se ligam à sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa”.
§ 1328 - A riqueza inesgotável deste sacramento exprime-se nos diversos nomes que lhe são dados. Cada uma destas designações evoca alguns de seus aspectos. Ele é chamado: Eucaristia, porque é ação de graças a Deus. As palavras "eucharistein" (Lc. 22,19; 1 Cor. 11,24) e "eulogein" (Mt. 26,26; Mc. 14,22) lembram as bênçãos judaicas que proclamam - sobretudo durante a refeição - as obras de Deus: a criação, a redenção e a santificação.
§ 1329 - Ceia do Senhor, pois se trata da ceia que o Senhor fez com seus
discípulos na véspera da sua paixão, e da antecipação da ceia das bodas do
Cordeiro na Jerusalém celeste.
Fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por
Jesus quando abençoava e distribuía o pão como presidente da mesa, sobretudo por
ocasião da Última Ceia. É por este gesto que os discípulos o reconhecerão após a
ressurreição, e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão as
suas assembléias eucarísticas. Com isto querem dizer que todos os que comem do
único pão partido, o Cristo, entram em comunhão com ele e já não formam senão um
só corpo nele.
Assembléia eucarística (synaxis), porque a Eucaristia é celebrada na
assembléia dos fiéis, expressão visível da Igreja.
§ 1931 - Comunhão, porque é por este sacramento que, nos unimos a Cristo, que nos torna participantes do seu Corpo e do seu Sangue para formarmos um só corpo; denomina-se ainda as coisas santas: ta hagia; sancta” - este é o sentido primeiro da "comunhão dos santos" de que fala o Símbolo dos Apóstolos - pão dos anjos, pão do céu; remédio de imortalidade, viático...
§ 1933 - Encontram-se no cerne da celebração da Eucaristia o pão e o vinho, os quais, pelas palavras de Cristo e pela invocação do Espírito Santo, se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Fiel à ordem do Senhor, a Igreja continua fazendo, em sua memória, até à sua volta gloriosa, o que ele fez na véspera da sua paixão: "Tomou o pão..." "Tomou o cálice cheio de vinho...” Ao se tornarem misteriosamente o Corpo e o Sangue de Cristo, os sinais do pão e do vinho continuam a significar também a bondade da criação. Assim, no ofertório, damos graças ao Criador pelo pão e pelo vinho, fruto "do trabalho do homem”, mas antes ”fruto da terra” e "da videira”, dons de Criador. A Igreja vê neste gesto de Melquisedec, rei e sacerdote, que "trouxe pão e vinho" (Gn. 14,18}, uma prefiguração da sua própria oferta.
§ 1337 - Tendo amado os seus, o Senhor amou-os até o fim. Sabendo que o chegara a hora de partir deste mundo para voltar a seu Pai, no decurso de uma refeição lavou-lhes os pés e deu-lhes o mandamento do amor, Para deixar-lhes uma garantia deste amor, para nunca afastar-se dos seus e para fazê-los participantes da sua Páscoa, instituiu a Eucaristia como memória da sua morte e da sua ressurreição, e ordenou aos seus apóstolos que a celebrassem até à sua volta, "constituindo-os então sacerdotes do Novo Testamento"
§ 1346 - A liturgia da Eucaristia desenrola-se segundo uma estrutura fundamental
que se conservou ao longo dos séculos até aos nossos dias. Desdobra-se em dois
grandes momentos que formam uma unidade básica:
-a convocação, a Liturgia da Palavra, com as leituras, a homilia e a oração
universal;
-a Liturgia Eucarística, com a apresentação do pão e do vinho, a ação de graças
consagração e a comunhão.
Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística constituem juntas “um só e mesmo ato
de culto”; com efeito, a mesa preparada para nós na Eucaristia é ao mesmo tempo
a da Palavra de Deus e a do Corpo do Senhor.
§ 1348 - Todos se reúnem. Os cristãos acorrem a um mesmo lugar para a Assembléia Eucarística. Encabeçados pelo próprio Cristo, que é o protagonista principal da Eucaristia. Ele é o sumo sacerdote da Nova Aliança. É ele mesmo quem preside invisivelmente toda Celebração Eucarística. É representando-o que o Bispo ou o presbítero (agindo "em representação de Cristo-cabeça") preside a assembléia, toma a palavra depois das leituras, recebe as oferendas e profere a oração eucarística. Todos têm sua parte ativa na celebração, cada um a seu modo: os leitores, os que trazem as oferendas, os que dão a comunhão e todo o povo, cujo Amém manifesta a participação.
§ 1350 - A apresentação das oferendas (o ofertório): trazem-se então ao altar, por vezes em procissão, o pão e o vinho que serão oferecidos pelo sacerdote em nome de Cristo no Sacrifício Eucarístico, e ali se tomarão o Corpo e o Sangue de Cristo. Este é o próprio gesto de Cristo na Última ceia, "tomando pão e um cálice". "Esta oblação, só a Igreja a oferece, pura, ao Criador, oferecendo-lhe com ação de graças o que provém de sua criação". A apresentação das oferendas ao altar assume o gesto de Melquisedec e entrega os dons do Criador nas mãos de Cristo. É ele que; em seu sacrifício, leva à perfeição todos os intentos humanos de oferecer sacrifícios.
§ 1351 - Desde os inícios, os cristãos levam, com o pão e o vinho para a
Eucaristia, seus dons para repartir com os que estão em necessidade. Este
costume da coleta, sempre atual, inspira-se no exemplo de Cristo que se fez
pobre para nos enriquecer:
Os que possuem bens em abundância e o desejam dão livremente o que lhes parece
bem, e o que se recolhe é entregue àquele que preside. Este socorre os órfãos e
viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, se encontram em
necessidade, assim como os encarcerados e os hóspedes que chegam de viagem; numa
palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados.
§ 1356 - Se os cristãos celebram a Eucaristia desde as origens, e sob uma forma que, na sua substância, não sofreu alteração através da grande diversidade dos tempos e das liturgias, é porque temos consciência de estarmos ligados ao mandato do Senhor, dada na véspera da sua paixão: “Fazei isto em memória de mim” (1 Cor. 11,24 - 25).
§ 1357 - Esta ordem do Senhor, cumprimo-la celebrando o memorial do seu sacrifício. Ao fazermos isto, oferecemos ao Pai o que ele mesmo nos deu: os dons da sua criação, o pão e o vinho, que pelo poder do Espírito Santo e pelas palavras de Cristo se tornaram o Corpo e o Sangue de Cristo: Este se faz, assim, real e misteriosamente presente.
§ 1360 - A Eucaristia é um sacrifício de ação de graças ao Pai, uma bênção pela qual a Igreja exprime o seu reconhecimento a Deus por todos os seus benefícios, por tudo o que ele realizou através da criação, da redenção e da santificação, Eucaristia significa, primeiramente, ação de graças.
§ 1366 - A Eucaristia é, portanto, um sacrifício porque re-presenta (torna presente) o Sacrifício da Cruz, porque dele é memorial e porque aplica seus frutos:
[Cristo] nosso Deus e Senhor ofereceu-se a si mesmo a Deus Pai uma vez por
todas, morrendo como intercessor sobre o altar da cruz, a fim de realizar por
eles (os homens) uma redenção eterna. Todavia, como a sua morte não devia pôr
fim ao seu sacerdócio (Hb. 7,24.27), na Última ceia, "na noite em que foi
entregue" (1 Cor. 11,13), quis deixar à Igreja, sua esposa muito amada, um
sacrifício visível (como o reclama a natureza humana) em que seria re-presentado
(feito presente) o sacrifício cruento que ia realizar-se uma vez por todas uma
única vez na cruz, sacrifício este cuja memória haveria de perpetuar-se até ao
fim dos séculos (1Cor 11,23) e cuja virtude salutar haveria de aplicar-se à
redenção dos pecados que cometemos cada dia .
§ 1368 - A eucaristia é também o sacrifício da Igreja. A Igreja, que é o corpo
de Cristo, participa da oferta da sua Cabeça. Com Cristo, ela mesma é oferecida
inteira. Ela se une à sua intercessão junto ao Pai por todos os homens. Na
Eucaristia, o sacrifício de Cristo se torna também o sacrifício dos membros do
seu Corpo. A vida dos fiéis, seu louvor, seu sofrimento, sua oração, seu
trabalho, são unidos aos de Cristo e à sua oferenda total, e adquirem assim um
valor novo. O sacrifício de Cristo presente no altar dá a todas as gerações de
cristãos a possibilidade de estarem unidos à sua oferta.
Nas catacumbas, a Igreja é muitas vezes representada como uma mulher em oração,
com os braços largamente abertos em atitude de orante. Como Cristo que estendeu
os braços na cruz, ela se oferece e intercede por todos os homens, através dele,
com ele e nele.
§ 1370 - A oferenda de Cristo unem-se não somente os membros que estão ainda na terra, mas também os que já estão na glória do céu: é em comunhão com a santíssima Virgem Maria e fazendo memória dela, assim como de todos os santos e santas, que a Igreja oferece o Sacrifício Eucarístico. Na eucaristia, a Igreja, com Maria, está como que ao pé da cruz, unida à oferta e à intercessão de Cristo.
§ 1373 - "Cristo Jesus, aquele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, aquele que está à direita de Deus e que intercede por nós" (Rm. 8,34), está presente de múltiplas maneiras na sua Igreja: na sua Palavra, na oração da sua Igreja, "lá onde dois ou três estão reunidos em meu nome" (Mt 18,20), nos pobres, nos doentes, nos presos (Mt 25,31-46), nos seus sacramentos, dos quais ele é o autor, no sacrifício da missa e na pessoa do ministro. Mas "sobretudo (está presente) sob as espécies eucarísticas".
§ 1378 - O culto da eucaristia. Na liturgia da missa, exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras coisas, dobrando os joelhos, ou inclinando-nos profundamente em sinal de adoração do Senhor. "A Igreja católica professou e professa este culto de adoração que é devido ao sacramento da eucaristia não somente durante a missa, mas também fora da celebração dela, conservando com o máximo cuidado as hóstias consagradas, expondo-as aos fiéis para que as venerem com solenidade, levando-as em procissão".
§ 1381 - "A presença do verdadeiro Corpo de Cristo e do verdadeiro Sangue de Cristo neste sacramento 'não se pode descobrir só pelos sentidos, diz S. Tomás, mas sim só com fé, baseada na autoridade de Deus'. Por isso, comentando o texto de são Lucas 22,19 ("Isto é o meu Corpo que será entregue por vós"), São Cirilo declara: "Não ponhas em dúvida se é ou não verdade, aceita com fé as palavras do Senhor, porque ele, que é a verdade, não mente”.
§ 1382 - A missa é ao mesmo tempo e inseparavelmente o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz, e o banquete sagrado da comunhão ao Corpo e ao Sangue do Senhor. Mas a celebração do Sacrifício Eucarístico está toda orientada para a união íntima dos fiéis com Cristo pela comunhão. Comungar é receber o próprio Cristo que se ofereceu por nós.
§ 1384 - O Senhor nos convida insistentemente a recebê-lo no sacramento da eucaristia: "Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6,53).
§ 1386 - Diante da grandeza deste sacramento, o fiel só pode repetir
humildemente e com fé ardente a palavra do centurião: "Domine, non sum dignus
ut intres sub tectum meum sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea -
Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e
serei salvo". E na divina liturgia de são João Crisóstomo, os fiéis oram no
mesmo espírito: Da vossa ceia mística fazei-me participar hoje, ó Filho de Deus.
Pois não revelarei o Mistério aos vossos inimigos, nem vos darei o beijo de
Judas. Mas, como o ladrão, clamo a vós: Lembrai-vos de mim, Senhor, no vosso
Reino.
A fim de se prepararem convenientemente para receber este sacramento, os fiéis
observarão o jejum prescrito na sua Igreja. A atitude corporal (gestos, roupa)
há de traduzir o respeito, a solenidade, a alegria deste momento em que Cristo
se torna nosso hóspede.
É consentâneo com o próprio sentido da eucaristia que os fiéis, se tiverem as
disposições requeridas, comunguem toda vez que participarem da missa:
"Recomenda-se muito aquela participação mais perfeita à missa, pela qual os
fiéis, depois da comunhão do sacerdote, comungam o Corpo do Senhor do mesmo
sacrifício".
§ 1391 - A comunhão aumenta a nossa união com Cristo. Receber a Eucaristia na comunhão traz como fruto principal a união íntima com Cristo Jesus. Pois o Senhor diz: "Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em mim e eu nele" ao 6,56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: "Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim" (Jo 6,57):
Quando nas festas do Senhor os fiéis recebem o Corpo do Filho, proclamam uns aos outros a Boa Nova de que é dado o penhor da vida, como quando o anjo disse a Maria de Mágdala: "Cristo ressuscitou!" Eis que agora também a vida e a ressurreição são conferidas àquele que recebe o Cristo.
§ 1394 - Como o alimento corporal serve para restaurar a perda das forças, a
Eucaristia fortalece a caridade que, na vida diária, tende a arrefecer; e esta
caridade vivificada apaga os pecados veniais. Ao dar-se a nós, Cristo reaviva o
nosso amor e nos torna capazes de romper as amarras desordenadas com as
criaturas e de enraizar-nos nele:
Visto que Cristo morreu por nós por amor, quando fazemos memória da sua morte no
momento do sacrifício, pedimos que o amor nos seja concedido pela vinda do
Espírito Santo; pedimos humildemente que em virtude deste amor, pelo qual Cristo
quis morrer por nós, nós também, recebendo a graça do Espírito Santo, possamos
considerar o mundo como crucificado para nós, e sejamos nós mesmos crucificados
para o mundo. (...) Tendo recebido o dom de amor, morramos para o pecado e
vivamos para Deus.
§ 1396 - A unidade do corpo místico: a Eucaristia faz a Igreja. Os que recebem a Eucaristia estão unidos mais intimamente a Cristo. Por isso mesmo, Cristo os une a todos os fiéis em um só corpo, a Igreja. A comunhão renova, fortalece, aprofunda esta incorporação à Igreja, realizada já pelo batismo. No batismo fomos chamados a constituir um só corpo. A Eucaristia realiza este apelo: "O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o Sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão" (1 Cor 10,16 - 17):
Se sois o corpo e os membros de Cristo, é o vosso sacramento que é colocado sobre a mesa do Senhor, recebeis o vosso sacramento. Respondeis "Amém" ("sim, é verdade!") àquilo que recebeis, e subscreveis ao responder. Ouvis esta palavra: "O Corpo de Cristo", e respondeis: "Amém". Sede, pois, um membro de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro.
§ 1397 - A Eucaristia compromete com os pobres. Para receber na verdade o Corpo e o Sangue de Cristo entregues por nós, devemos reconhecer o Cristo nos mais pobres, seus irmãos: Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces sequer o teu irmão: Desonras esta própria mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, não te tornaste mais misericordioso.
§ 1404 - A Igreja sabe que, desde agora, o Senhor vem na sua Eucaristia, e que ali ele está, no meio de nós. Contudo, esta presença é velada. Por isso, celebramos a Eucaristia "expectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Jesu Christi - aguardando a bem-aventurada esperança e a vinda do nosso Salvador Jesus Cristo", pedindo "saciar-nos eternamente da vossa glória, quando enxugardes toda lágrima dos nossos olhos. Então, contemplando-vos como sois, seremos para sempre semelhantes a vós e cantaremos sem cessar os vossos louvores, por Cristo, Senhor nosso”.