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VIA SACRA |
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Já no séc. IV, os
romeiros à Terra Santa visitavam em Jerusalém, de maneira informal, os santos
lugares onde aconteceram a paixão e morte de Jesus. Este costume transformou-se
no exercício da via-sacra praticado hoje, especialmente na Quaresma.
Desde o séc. XVIII são contados quatorze estações desde a casa do julgamento até
o santo sepulcro:
1.Jesus é condenado à morte.
2.Jesus toma a cruz aos ombros.
3.Jesus cai pela primeira vez.
4.Jesus encontra sua aflita mãe, na rua da Amargura.
5.Simão Cirineu ajuda Jesus a levar a cruz.
6.Verônica limpa o rosto de Jesus.
7.Jesus cai pela segunda vez.
8.Jesus exorta as filhas de Jerusalém.
9.Jesus cai pela terceira vez.
10.Jesus é despojado de suas vestes.
11.Jesus é pregado na cruz.
12.Jesus morre na cruz.
13.Jesus descido da cruz.
14.Jesus é depositado no sepulcro. As vias sacras modernas acrescentam uma
décima-quinta estação: Jesus ressuscitado.
Em Jerusalém, os antigos romeiros percorriam a "via dolorosa" no sentido
inverso, isto é, do Santo Sepulcro ao pretório romano.
[1]
Segundo tradição antiqüíssima, a Virgem Maria, mãe de Jesus, após a Ressurreição
visitava diariamente o cenáculo, a casa de Anás e Caifás, Calvário e o Santo
Sepulcro, o pretório, Getsemani, o Horto, o Vale de Cedron, e a Fortaleza de
Antônia no Sião. Esta tradição foi retomada no séc. XII pelos franciscanos em
Jerusalém, onde na Via Dolorosa colocaram algumas capelinhas e marcas de pedra.
Estas já seguiam a ordem cronológica e a via-sacra começou a encontrar sua forma
atual, justamente no tempo da crescente devoção para com os sofrimentos de
Jesus. Para quem não podia ir até a Terra Santa, os mesmos franciscanos
divulgaram as estações da Via Crucis substituida por quadros pintados. As
estações 13 e 14 surgiram no séc. XIV juntamente com as imagens dos sete Passos:
Jesus na coluna, Ecce Homo, as imagens da Procissão do Encontro, o corpo do
Senhor morto numa sepultura aberta.
O santo frade Leonardo de Pôrto Maurício (1676 - 1751) sozinho instalou 576
via-sacras. As orações de uma via-sacra constam no manual: "Sanctos
Exercicios Quotidianos" (1773).
A mulher Santa Verônica, três quedas de Jesus, o encontro de Jesus com sua mãe,
não constam nos Evangelhos. Por isso o papa João Paulo II, em 1991, propôs
algumas mudanças na via-sacra.
Há via-sacra pública, em muitos centros de romaria: Juazeiro do Norte (CE), Bom
Jesus da Lapa (BA), Canindé (CE), Aparecida do Norte (SP).
No Rio Grande do Sul, o termo via-sacra poderá indicar a encomendação das almas
realizada na zona rural, nas sextas-feiras da Quaresma. O Caderno Gaúcho n. 8
descreve a via-sacra em Soledade (RS): Ao som da matraca e após o pôr do sol, um
grupo ou terno de pessoas, dirigido por um capelão, visita as casas para rezar
pelas almas. Inicialmente, a casa visitada fica em silêncio com as portas e
janelas fechadas. O capelão alterna orações cantadas com o terno. Depois oferece
preces para as almas do enforcados, dos aflitos, dos acidentados etc. que são
respondidas pelos donos da casa. Após mais algumas orações a critério do
capelão, é permitida a entrada do terno somente pela porta dos fundos. Recebem
um café preto, um chimarrão ou um gole de bebida alcoólica. Terminam a visita
com o canto:
Bendito
louvado seja da puríssima Conceição
da Virgem Maria Senhora Nossa Concebida sem pecado original.
O grupo vai
aumentando com moradores das casas já visitadas que desejam também fazer
“penitência”.
[2]
O canto tradicional da via-sacra é: A morrer crucificado, em latim, Stabat
Mater.
Na sexta-feira santa, às 4.00 horas da manhã em Sabará (MG), reunem-se os
devotos na igreja do Rosário munidos de matracas e muitas velas. Para reviver os
passos de Jesus até sua crucificação, fazem uma caminhada penitencial até a
capela do Senhor Bom Jesus.
Com a Campanha da Fraternidade, surgiram novas formas da via-sacra que mostram a
paixão, morte e ressurreição de Jesus, misturados ao sofrimento povo brasileiro.
No dia 26 de março de 1.999, 3000 crianças e adolescentes ajudados pela Pastoral
do menor realizaram uma via-sacra nas ruas do centro de São Paulo (SP). Uma
criança disse: O desemprego crucificou a mim e a meus pais. Em 1999, jovens
coordenaram a via-sacra em Minas Novas (MG). As preces falavam de uma vida nova
para o Vale do Jequitinhonha. O sofrimento estampado no rosto dos atores, já
característico do povo do Vale, tornava mais real a encenação da crucifixão.
Muitos fiéis choravam emocionados. Em 1995 em Getúlio Vargas (RS), a 18ª Romaria
da Terra encenou e rezou uma via-sacra com relatos do sofrimento do povo hoje.
(Cf. Rosto do Cristo Sofredor, Puebla.)
Em Ponte dos Carvalhos (PE), em 1968, o padre Geraldo Leite passou a celebrar
com o povo uma via sacra em que figuravam o camponês, a viúva, a prostituta e
até Martin Luther King.
[3]
Outra via-sacra ao vivo é apresentado em Coronel Pacheco (MG).
frei Francisco van der Poel ofm
[1]
Peregrinatio ad loca sancta. Viagem da espanhola Aetéria ou Egéria que visitou
na na Semana Santa de 393 Jerusalem.
[2]
Equipe IGTF. Folk, Festo e Tradições Gaúchas. (Cad.Gaúchos No.8) Porto Alegre,
Fund.Inst.Gaúcho de Trad.e Folcl., 1983. pp.58-59.
[3]
COUTINHO, Maurício. “Ponte dos Carvalhos tem Via Sacra diferente: camponês,
viúva e prostituta, Cristos de Hoje”. In: Diário do Comércio, Recife. 14/04/1968.
p.12