Masculino, feminino, poder e transcendência
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Introdução Uma época de grandes transformações como a nossa é também propícia a grandes confusões. Essas confusões ocorrem em todas as áreas da realidade humana. Sem dúvida isso acontece também em relação à sexualidade. Diante desse fato torna-se importante levantarmos questões básicas, como as que buscam as raízes naturais da sexualidade: O que é sexualidade? O que é masculino? O que é feminino? Existem diferenças naturais? As diferenças decorrem apenas de influências sociais? Discute-se muito o abuso do poder na obtenção do prazer sexual. Mas qual e como é o poder da própria sexualidade? A sexualidade, ao mesmo tempo que é algo carnal, muito concreto, inspira por outro lado os sentimentos e as ações mais sublimes. Como isso pode ser entendido? Sem a preocupação de respondê-las, mas buscando apenas objetivar melhor essas questões, vamos inicialmente explicitar os conceitos de sexualidade e de genitalidade. A sexualidade na espécie humana se constitui do conjunto de fenômenos bio-psico-sócio-espirituais decorrentes do fato dessa espécie ser constituída de indivíduos machos e fêmeas, aos quais estão atribuídos um papel determinado na geração de novos indivíduos e que lhes confere certas características distintas. Esse conjunto de fenômenos está relacionado à preservação da espécie, pertencendo portanto a um nível diferente do conjunto dos fenômenos que estão em função da preservação do indivíduo. A genitalidade é a qualidade ou a propriedade, geneticamente determinadas, que cada indivíduo possui em relação à capacidade, potencial ou efetiva, de geração, determinando também uma série de características anatomo-fisiológicas específicas. Na espécie humana, cada indivíduo tem, naturalmente, uma genitalidade específica, masculina ou feminina. A genitalidade é a parte central da sexualidade. A sexualidade é o total. A genitalidade é a figura que se destaca do fundo. Embora a sexualidade se expresse de muitas maneiras, é através da genitalidade que ela se expressa de forma mais evidente. Para entender melhor a sexualidade e genitalidade a partir do referencial psicodramático conceituo o Papel de Acasalador ou Papel Genital. Considero-o como um papel Sociossomático ou Socio-fisiológico pois, ao corresponder a uma função social trata-se de um papel social, porém, diferentemente dos demais papéis sociais, desenvolve-se ligado a uma função fisiológica: a função fisiológica genital. Esse papel surge juntamente com os primeiros papeis sociais, ou seja, inicia seu desenvolvimento em torno dos dois anos de idade. Da mesma forma que os outros papéis sociais, leva consigo a estrutura do Núcleo do Eu. Evidentemente haverá o Papel de Acasalador Masculino e o Papel de Acasalador Feminino. É principalmente através deles que se evidenciará a identificação sexual. No adulto esses papéis se apresentarão sob formas sociais diversas: marido/esposa; namorado/namorada; flertador/flertadora; amásio/amásia; solteiro/solteira; celibatário/celibatária etc. A cada um dos Papéis Masculino e Feminino corresponderão os Modelos de Acasalador Masculino e Feminino, que serão constituídos do Papel, com sua estrutura nuclear, e das marcas mnêmicas de todas as vivências que ocorrerem durante seu desenvolvimento nos demais papéis sociais. É através do Papel de Acasalador que e instala e se elabora o Complexo de Édipo. O Papel de Acasalador participa portanto do Processo de Triangulação Social, mas não com exclusividade, como nos faz crer Freud. MASCULINO/FEMININO O Modelo de Acasalador Masculino tem por base referencial os processos de conquista. Conquistar tem o sentido de submeter, vencer, subjugar; alcançar. adquirir, ganhar; adquirir à força do trabalho. Com conotação familiar tem o sentido de obter o amor (de alguém). A ação fundamental masculina é sair, ir longe, ir fundo em busca da mulher. A música "Moto Contínuo"de Edu Lobo e Chico Buarque descreve com muita propriedade aspectos da ação masculina de conquista:
"Um homem pode ir ao
fundo do fundo
Basta sonhar com você Por outro lado, o Modelo Acasalador Feminino tem por base referencial os processos da sedução. Seduzir, na sua origem latina, seducere, tem significado de "levar para o lado", "conduzir para o lado". Significa inclinar de forma artificiosa para o mal ou para o erro; desencaminhar, enganar ardilosamente O samba de Dorival Caymmi, "A vizinha do lado" descreve com muita graça esse significado da ação sedutora:
"A vizinha quando passa Atendemos também para o simbolismo da bolsa de Pandora, da mitologia grega. Pandora, que pode ser considerado um mito correlato ao de Eva da mitologia semítica, em virtude da curiosidade feminina abre a bolsa que os deuses do Olimpo haviam dado de presente aos homens. Dessa bolsa sairam todas as calamidades e desgraças que até hoje atormentam os homens (presente de grego...) Entretanto, no fundo da bolsa permaneceu guardada a Esperança. A bolsa de Pandora simboliza o genital feminino. Podemos entender a Esperança que restou no fundo como sendo a capacidade do útero de gerar novos seres. Seduzir, porém, é também atrair, encantar, fascinar, deslumbrar, como Tom Jobin e Vinícius de Moraes descreveram de forma maravilhosa em "Garota de Ipanema".
"Olha, que coisa mais
linda,
Moça do corpo dourado,
Ah! Se ela soubesse A ação feminina fundamental não é ir em busca do homem, mas atraí-lo, pois a ação de seduzir se caracteriza por uma espera ativa. A letra da música de Sílvio César, "Pr'a você" descreve com muita felicidade essa espera ativa:
"Pra você eu guardei, O PODER O prazer sexual, do qual o prazer genital é a figura que se destaca do fundo, exerce seu poder sobre o indivíduo tendo inicialmente por meta a ação auto-erótica. Ao se desenvolver o hetero-erotismo, surge um jogo de poder. Nesse jogo as estratégias masculina e feminina são basicamente diferentes. A estratégia masculina tende a ser mais direta, mais evidente. É a estratégia da conquista, onde a ação básica é a de avançar. O poder masculino é baseado na força física, na conquista, no ir além dos limites territoriais, no sair do conhecido para o desconhecido para buscar coisas novas, inclusive outras mulheres que não são as do território onde nasceu e ao qual pertence. Já a estratégia feminina é baseada na ordem, na solidificação da conquista territorial. Permanecendo no território, seduz, convida, atrai o homem para dentro do seu espaço. Numa visão social mais ampla, o prazer sexual tem forte poder de transformação. Na Grécia Antiga, Eros foi um deus muito popular, pois, com seus dardos, tinha o poder de unir pessoas de classes sociais muito diferentes. Na formação social brasileira, desde os tempos mais crus do processo antropofágico até nossos dias, a miscigenação racial, que deu origem ao "país mulato", é um exemplo significativo desse poder. A TRANSCENDÊNCIA Transcendência tem origem do latim transcendentia que tem significado de "escalada (de um muro)". Tem o sentido de superar os limites da experiência possível. De ir além do sujeito para algo fora dele. Pode referir-se, também, ao conjunto de atributos do criador ressaltando a superioridade em relação à criatura. Todo encontro humano busca a transcendência. O vínculo acasalador é, no entanto, privilegiado nessa busca. O encontro acasalador, no qual a ação feminina é a da espera ativa e de receber o homem e a ação masculina é a de ir em busca de conquistas e por fim ser recebido pela mulher, está magnificamente descrito na música de Chico Buarque "Sem fantasia", onde se estabelece o seguinte diálogo: A fala feminina:
"Vem, meu menino vadio
Vem, por favor não
evites Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero
fraco A fala masculina:
Ah, eu quero te dizer Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei Do ponto de vista biológico, o encontro acasalador tem o poder de produzir um novo ser humano. Com isso faz com que os indivíduos que se acasalam se aproximem do processo criador como em nenhuma outra situação. Esse encontro transforma o ser humano de criatura em criador. O jogo de poder que se estabelece no encontro masculino/feminino pode terminar no orgasmo, onde ambos ganham e ambos perdem. No momento do orgasmo o ser humano perde o controle do próprio eu. O orgasmo possibilita uma vivência transcendental de si mesmo Já vimos que o prazer sexual é um fator importante de transgressão de ordem social. O vínculo acasalador, na sua busca de transcendência, tem sempre um certo tom transgressor. É desse aspecto transgressor que surge a cumplicidade. Um vínculo acasalador que não tenha algum grau de cumplicidade é um vínculo fraco. Consideremos agora um caminho alternativo do acasalamento: o monge e a freira, que fazem voto de castidade, socialmente são celibatários. Buscam, porém, a transcendência através de um casamento místico. Estabelecem através do Papel de Acasalador um vínculo místico com a deidade. Para terminar, chamo a atenção para a música de Ivan Lins e Vitor Martins "Vitoriosa", que nos faz sentir um pouco da transcendência do encontro acasalador:
"Quero sua risada mais
gostosa José Manuel D'Alessandro Revista Catharsis - www.revistapsicologia.com.br/ |