A conhecida relação entre
sintomas depressivos e idade avançada sempre tem gerado numerosos
estudos. A maioria desses estudos aborda a polêmica sobre o fato da
depressão no idoso ser considerada, ou não, um tipo diferente das demais
depressões. Esse debate inicialmente se concentrou sobre a idade do
paciente idoso que sofria de depressão, interessava saber se a depressão
era senil, involutiva, pré-senil, etc.
Posteriormente, enfocou-se as comparações da idade dos pacientes quando
se iniciou a depressão. Nesse caso enfatizava-se antecedentes
depressivos, episódios depressivos ou distimia na história pregressa do
paciente. Neste caso pretendia-se saber se a depressão era, de fato,
senil ou era uma depressão antiga apresentando mais um episódio agudo no
idoso.
Os argumentos que sustentam ser a depressão no idoso um tipo diferente
da depressão de outras faixas etárias se apóiam nas diferenças de
sintomatologia. Nos idosos, por exemplo, a depressão se apresentaria com
sintomas somáticos ou hipocondríacos mais freqüentes, haveria menos
antecedentes familiares de depressão e pior resposta ao tratamento.
Apesar disso, a tendência atual é não estabelecer diferenças marcantes
entre a depressão da idade tardia e a depressão dos adultos mais jovens.
De fato, o que teria de diferente nos idosos seria, não a depressão em
si, mas as circunstâncias existenciais específicas da idade.
Do ponto de vista vivencial, o idoso está numa situação de perdas
continuadas; a diminuição do suporte sócio-familiar, a perda do estatus
ocupacional e econômico, o declínio físico continuado, a maior
freqüência de doenças físicas e a incapacidade pragmática crescente
compõem o elenco de perdas suficientes para um expressivo rebaixamento
do humor. Também do ponto de vista biológico, na idade avançada é mais
freqüente o aparecimento de fenômenos degenerativos ou doenças físicas
capazes de produzir sintomatologia depressiva.
Assim sendo, embora os fatores bio-psico-sociais agravantes possam estar
associados ao rebaixamento do humor na idade avançada, eles podem gerar
confusão a respeito das características clínicas da depressão nessa
idade. Os clássicos conceitos de depressão reativa, depressão secundária
e depressão endógena se confundem na depressão senil.
|
CAUSALIDADE
DA DEPRESSÃO |
DEPRESSÃO
REATIVA |
Reativa a alguma situação vivencial traumática |
De fato o idoso passa por uma
condição existencial problemática e, muitas vezes, sofrível |
DEPRESSÃO
SECUNDÁRIA |
Secundária à alguma
condição orgânica |
De fato o idoso costuma desenvolver
estados patológicos e degenerativos que facilitam o desenvolvimento
da depressão |
DEPRESSÃO
ENDÓGENA |
Endógena é constitucional, atrelada à personalidade |
Ora, de fato as pessoas com depressão
endógena ou constitucional envelhecem e continuam depressivas
|
DEPRESSÃO
REATIVA (Reativa a alguma situação vivencial traumática)
De fato o idoso passa por uma condição existencial problemática e,
muitas vezes, sofrível.
DEPRESSÃO SECUNDÁRIA (Secundária à alguma condição orgânica)
De fato o idoso costuma desenvolver estados patológicos e degenerativos
que facilitam o desenvolvimento da depressão.
DEPRESSÃO ENDÓGENA (Endógena é constitucional, atrelada à
personalidade)
Ora, de fato as pessoas com depressão endógena ou constitucional
envelhecem e continuam depressivas
Como vemos no quadro acima, pelas condições existenciais a depressão do
idoso bem que poderia ser, de fato, reativa. Poderia igualmente ser
secundária às condições físicas do idoso e, finalmente, pelos eventuais
antecedentes, poderia ser endógena. Nos adultos jovens esta confusão
causal é menor, pois os aspectos do entorno existencial estão mais
claramente definidos.
A
situação existencial do idoso
O estudo da
psicopatologia da velhice a partir de três aspectos concretos: saúde
mental, percepção do envelhecimento e autonomia funcional. Segundo César
Vásquez Olcese (2001), parece haver diferenças significativas entre
saúde mental e percepção do envelhecimento.
Em países como o nosso, cheios dos problemas derivados do
subdesenvolvimento e de necessidades cada vez maiores, normalmente o
Estado tende a fixar sua atenção e esforço na solução de problemas
conjunturais, problemas que afligem à generalidade dos habitantes. O
estado empobrecido não prestigia determinados setores da população, como
exigiria a terceira idade.
Por isso, é quase certo dizer que os idosos de nossa sociedade estão
marginados. Eles estão excluídos da produção contra sua vontade,
tornam-se pouco consumidores, tendem a consumir maiores recursos da
saúde, e acabam sobrevivendo a expensas de uma sociedade quase sempre
hostil, recebendo as ajudas caridosas que esta se digna oferecer-lhes.
Estão excluídos da produção porque ninguém lhes dá emprego, tornam-se
pouco consumidores porque não têm dinheiro, não têm dinheiro porque
ninguém lhes dá emprego, e consomem recursos da saúde porque adoecem, e
adoecem mais porque não têm recursos para a saúde. Forma-se assim um
deplorável círculo vicioso.
A mídia foi a primeira a detectar essa situação deplorável dos idosos.
Os idosos só aparecem em propaganda de planos de saúde, no marketing de
supermercados estão as pessoas de meia idade e todos os demais prazeres
da vida são monopolizados pelos jovens, irrequietos, barulhentos e
coloridos. Mas quem para a conta dos prazeres são as pessoas de meia
idade e quem ajudou a erigir a estrutura social, essa mesma estrutura
social dos prazeres, forma os idosos.
Infelizmente, um dos sintomas deste descuido social geral para com o
idoso é o escasso conhecimento que se tem de sua realidade psicológica,
de sua subjetividade e da percepção que ele tem de si mesmo e do mundo
em que vive. Os estudos referidos à velhice se concentram, em geral, nos
aspectos demográficos, socioeconômicos, de seguridade social e de saúde
física, deixando de lado a saúde emocional e o colorido dos sentimentos
da pessoa que envelhece.
É pois, imperioso que a sociedade de um modo geral, e a medicina
psiquiátrica em particular, se aproximem e conheçam a dimensão
subjetiva, a problemática da saúde emocional e as potencialidades
subjacentes do idoso. Muito pouco se sabe sobre como o idoso percebe a
si mesmo e a seu envelhecimento, e isso será apenas o primeiro passo
para estabelecer uma atenção psicológica e rastrear os fatores materiais
e sociais que a determinam a angustia e a depressão que rodeiam o
envelhecimento.
A
saúde mental do idoso
Saúde Mental poderia ser
entendida como o equilíbrio psíquico que resulta da interação da pessoa
com a realidade. Essa realidade é o meio circundante que permite à
pessoa desenvolver suas potencialidades humanas e, normalmente, essas
potencialidades estão estreitamente associadas à satisfação das
necessidades humanas.
Uma das principais necessidades humanas básicas, para o idoso ou
qualquer um outro, é a chamada Autonomia Funcional. Esta, diz respeito à
capacidade que tem a pessoa para valer-se de si mesmo, interatuar com o
ambiente e satisfazer suas necessidades.
Percepção do envelhecimento é a manifestação subjetiva das alterações
sofridas a nível somático e funcional, atribuibuídas ao envelhecimento.
Isto se expressa numa troca da identidade pessoal, a imagem corporal, a
autovalorização, etc. Operacionalmente pode definir-se como a
auto-atribuição de traços de velhice. Assim sendo, a percepção do
envelhecimento se dá, mais destacadamente, nas seguintes observações:
Alterações na aparência
física
A grande maioria dos
idosos se percebe com menos cabelo, cabelos brancos (91.2%); manchas e
rugas na pele (81.1%); problemas de visão e de audição (74.9%); déficit
na força muscular (59.7%), etc. A isso se associa uma característica
psicológica, que é um forte apego ao passado (57.2%).
Os fatores sociais e os elementos gerais parecem exercer uma forte
influencia. As mulheres levam mais em conta as mudanças em sua aparência
externa, os homens, por sua vez, ressentem mais a debilidade física.
Dentro da percepção do envelhecimento, cabe chamar a atenção sobre a
explicação que os idosos realizam de sua velhice, e sobre a rapidez com
que esta se instaura para eles. O ritmo do envelhecimento é percebido de
forma diferente por homens e mulheres. A maioria dos homens (59.1%)
pensa envelhecer de forma lenta ou pouco a pouco. As mulheres (52.7%),
em troca, vêem este processo como algo normal, nem lento nem rápido.
A correlação entre saúde mental e percepção do envelhecimento faz supor
uma influência negativa dos problemas psicológicos sobre a autopercepção
dos idosos. A presença de ansiedade, irritabilidade, sensação de
insuficiência, de inutilidade, entre outras, pode levar aos idosos a
supervalorizar (e em alguns casos extremos, a acelerar) alguns traços
próprios da velhice.
Da mesma forma, é lícito supor que a presença de certos traços do
envelhecimento e seus efeitos nas vidas das pessoas possam gerar
problemas psicológicos, já que, ao que parece, as limitações do
envelhecimento e a marginalização social concomitante, terminam por
afetar o equilíbrio interno dos indivíduos. O mais provável é que exista
uma influencia recíproca entre ambos fatores, os mesmos que à maneira de
um círculo vicioso se retro-alimentam mutuamente.
Autonomia
funcional
Entre as principais
características da perda progressiva da Autonomia Funcional estão os
problemas de mobilidade, de mover-se de um lugar a outro, principalmente
entre lugares distantes (40.9%). Outra limitação importante está no ato
de preparar seus alimentos (32.7%) e, finalmente, em conseguir as coisas
que necessitam (29.6%).
A discriminação que sofrem as mulheres no campo ocupacional, econômico,
familiar e outros, notadamente a descriminação maior da qual foi vítima
a mulher hoje senil, produz um efeito acumulativo que acaba resultando
numa velhice mais problemática.
Tendo uma vida marginalizada e deficitária produz-se, quase sempre, uma
velhice com problemas. Neste sentido, está certo o ditado que diz:
“envelhece-se como se viveu”. Isso significa que o envelhecimento pode
ser problemático na medida em que a vida tenha sido complicada ou, mais
comumente, na medida em que a pessoa teve dificuldade em adaptar-se à
vida.
As condições materiais de existência e o suporte familiar são fatores
decisivos na sensação de Autonomia Funcional dos idosos. Estando suas
necessidades melhores satisfeitas, haverá maior independência e
liberdade de ação.
Em síntese, muitos problemas da Autonomia Funcional podem ser explicados
a partir de fatores individuais, familiares e sociais. Entre os fatores
individuais, em primeiro lugar se encontra o perfil psicológico e mental
prévio da pessoa que envelhece, em seguida vem o nível educacional, as
experiências vitais críticas, os acidentes, as doenças pregressas e
atuais, a ocupação pregressa e atual, etc.
Socialmente, está em primeiro lugar, sem dúvida, a contundente
influência restritiva que a sociedade exerce sobre os idosos, limitando
suas possibilidades de atuação, oprimindo-os sob os modelos e padrões do
"velho", e restringindo suas possibilidades de participação. De modo
geral, não existe uma velhice típica, padrão, característica e igual.
Existem múltiplas velhices; tantas como sociedades, culturas e classes
sociais.
A Depressão e outros transtornos do humor, incluindo também as
alterações ansiosas, são problemas psicológicos que, em muitíssimos
casos, se expressam através de uma ampla variedade de transtornos
físicos e funcionais na senilidade. Os próprios sintomas emocionais
depressivos e típicos se constituem numa das principais queixas dos
idosos.
Um dos mais adequados modelos de abordagem da depressão na terceira
idade é o modelo bio-psico-social, o qual, como diz o nome, congrega os
aspectos sociais, psicológicos e orgânicos como ingredientes necessários
para produzir e manter o quadro depressivo. Sobre esse modelo
bio-psicosocial, atualmente muito aceito, a medicina poderia atuar com
eficácia num ou dois, ficando o aspecto social submetido à atuação
política, notadamente nessa questão da terceira idade.
Depressão
e demência
A demência implica sempre
num comprometimento importante e irreversível na qualidade de vida da
pessoa, portanto, se a demência foi diagnosticada, o prognóstico é
sempre reservado. Não é raro encontrarmos quadros similares à demência
em idosos hospitalizados, os quais, se apropriadamente tratados,
restabelecem a saúde cognitiva. Entretanto, embora alguns autores
mencionem esses quadros sob a denominação de demências reversíveis, na
realidade trata-se de Delirium, um quadro diferente de Demência.
As demências verdadeiras, sejam elas resultado de um quadro progressivo
como a Doença de Alzheimer ou de Demência Vascular, ou de natureza
estável, como as seqüelas de AVC, serão sempre irreversíveis. Embora as
atuais tendências para o tratamento da demência, como por exemplo o uso
de inibidores da acetil-colinesterase ou programas de reabilitação
cognitiva, tragam inegáveis benefícios para os pacientes, não é possível
ainda, restituir o nível de cognição anterior.
O Brasil já pode ser considerado um país envelhecido, apresentando mais
de 7% de idosos na sua população. Portanto, a medicina deve aparelhar-se
para distinguir o envelhecimento normal do patológico, bem como a
demência da depressão senil (pseudodemência depressiva).
Nesta última questão, tem sido às vezes bastante difícil diferenciar o
envelhecimento normal dos eventuais pródromos de uma demência
incipiente. As alterações neurofisiológicas associadas ao envelhecimento
começam a aparecer cedo na vida das pessoas, geralmente em torno dos
40-50 anos e, dependendo de fatores genéticos, ambientais e antecedentes
médicos pessoais, evoluem de forma muito variável entre as pessoas.
Anteriormente acreditava-se que os neurônios jamais se multiplicavam na
vida adulta, entretanto, hoje já se demonstrou eles podem replicar-se a
partir das chamadas células-fonte, porém, essa multiplicação não costuma
ser suficiente para neutralizar totalmente a perda progressiva da
população neuronal do cérebro. Mesmo ocorrendo alguma reorganização
benéfica de sinapses e dendrítos ao longo dos anos, bem como
modificações no número e sensibilidade dos neuroreceptores, alguma
alteração na performance cognitiva é observada e constatada em testes
neuropsicológicos com o envelhecimento.
As habilidades mais preservadas no idoso são aquelas resultantes da
substancial aprendizagem, isto é, habilidades bem consolidadas e,
portanto, mais resistentes à deterioração mnêmica. Avaliar essas
habilidades sólidas é um dos primeiros passos para o diagnóstico de
demência.
A avaliação do nível de consciência global deve levar em conta também o
nível de conhecimentos gerais do paciente. E este último, será sempre
conseqüente a educação formal do paciente. O exame da leitura costuma
ser conjunto à avaliação da compreensibilidade, ou seja, não se avalia
apenas a leitura em voz alta, mas também a interpretação do que foi
lido.
Existem diferentes
comprometimentos nas habilidades verbais que aparecem no exame da
comunicação. Em geral, as alterações de linguagem ocorrem a nível
léxico-semântico. Neste caso investiga-se a lembrança de palavras, a
nomeação de objetos, a fluência verbal e o nível discursivopragmático.
Porém, o vocabulário deve ser avaliado com algum cuidado, relevando-se
os discretos déficits de nomeação freqüentes em qualquer pessoa.
Excluída essa possibilidade fisiológica, a dificuldade de dar nomes às
coisas (disnomia) será considerado um dado valioso na avaliação
cognitiva. Quando a dificuldade para nomear é gráfica, chamar-se-á
disgrafia.
Ainda na avaliação da comunicação, os pródromos demenciais costumam
mostrar alguma dificuldade de narração de histórias, interpretação da
eventual mensagem da história ou do ditado e dificuldades de informar
adequadamente sobre a situação global a que se refere à história.
O declínio de memória do idoso normal ocorre de modo discreto e se dá,
predominantemente, na memória operacional ou de trabalho. Será sempre
bom lembrar que a aquisição de conhecimentos e de aprendizado também
declinam com a idade, juntamente com a capacidade de retenção mnêmica
mas, mesmo assim, será possível ao idoso normal, apreender e manter na
memória a maior parte das solicitações do cotidiano. Um exame
neuropsicológico minucioso da memória é indicado sempre que existir
queixas significativas, embora a presença de queixas de memória em
idosos normais seja bastante comum. Há alguns medicamentos que
interferem na cognição e são largamente consumidos pela população de
idosos.
Pseudodemência depressiva
Cabe ressaltar também a
presença de depressão emocional, a qual pode chegar a 20% dos idosos,
afetando a cognição e a motivação para a memória. A depressão comumente
produz um déficit mnêmico, especialmente após os 40 anos, e esse
prejuízo de memória do depressivo pode ser confundido com um quadro
inicial de demência. Essa confusão depressão-demência pode ser maior
ainda, levando-se em conta o fato da depressão freqüentemente ter
características atípicas nos idosos.
O termo pseudodemência depressiva pode sugerir, erroneamente, que os
déficits observados serão reversíveis com o tratamento adequado da
depressão. Embora isso ocorra em alguns casos, não pode ser considerado
como regra geral. Boa parte dos pacientes inicialmente diagnosticados
como deprimidos (pseudodementes) apresentaram, depois de algum tempo,
verdadeiros sinais de demência, apesar da melhora inicial com o uso de
antidepressores. Os próprios estudos de imagem cerebral podem revelar
sinais mais compatíveis com demência do que da depressão nos pacientes
diagnosticados com pseudodemência depressiva.
Assim sendo alguém poderia pensar: "de que adianta conhecer a
pseudodemência depressiva, se esta corre paralelamente à demenciação
verdadeira?" De fato, embora, possa haver no idoso um déficit cognitivo
compatível com a idade e de pequena monta, a presença concomitante de
depressão aumenta essa deficiência ao ponto de, aos menos avisados,
parecer um verdadeiro quadro de demenciação pura.
O benefício de se saber da existência da Pseudodemência Depressiva e de
questionar esse diagnóstico está, primeiramente, no fato de minimizar o
prejuízo cognitivo com o tratamento da depressão. Em segundo, diante da
possibilidade de melhora, estimular familiares e médicos para o
tratamento daquele que se tinha por exclusivamente demenciado.
Mas, é bom que se tenha
em mente, que embora o tratamento com antidepressivos traga melhora aos
sintomas cognitivos, esses pacientes normalmente estão mais
comprometidos que seus pares não-deprimidos. Embora possa haver
comprometimento da disfunção cognitiva pela depressão, isso não exclui a
presença de demência subjacente. No caso de idosos deprimidos, uma das
principais características do exame neuropsicológico é a discrepância
entre os resultados e as queixas apresentadas.
O exame neuropsicológico pode também ser normal em alguns casos de
demência incipiente, principalmente em indivíduos com elevada
escolaridade. Isso ocorre porque, embora tenha ocorrido declínio de
funções cognitivas, o desempenho ainda permanece dentro da faixa de
normalidade.
Depressão
versus demência
Embora haja diferenças
diagnósticas entre a cognição prejudicada pela depressão e a demência, é
bom lembrar, como já foi dito, que as duas situações não devem ser
encaradas como distintas, tendo em vista que, mais provavelmente, elas
possam coexistir (prof. Paulo Mattos da UFRJ).
|
CARACTERÍSTICAS |
DEPRESSÃO |
DEMÊNCIA |
|
Início |
Preciso |
Indeterminado |
|
Progressão |
Rápida |
Lenta |
|
Atendimento Médico |
Mais precoce |
Mais
tarde |
|
Valor da queixa |
Detalhada |
Ausente |
|
O que é valorizado pelo paciente |
Os fracassos |
Os
sucessos |
|
Esforço e disposição |
Pouco |
Mantido |
|
Sociabilidade |
Perdida |
Mantida |
|
Piora |
Pela manhã |
Pela
tarde |
Geralmente, no exame
neuropsicológico do deprimido se observa uma grande discrepância entre
as queixas apresentadas e os resultados do exame. Embora as queixas
sejam contundentes e freqüentes, os déficits realmente constatados pelos
exames são quase sempre pequenos ou inexistentes. Esta discrepância é
importante para consolidar o diagnóstico de déficit secundário à
depressão.
O paciente com déficits cognitivos secundários à depressão tem um
comprometimento maior da recuperação da memória imediata, logo após a
apresentação pelo examinador, como se houvesse uma "preguiça" para
lembrar as coisas que acaba de apreender. A recuperação tardia, depois
de alguns minutos ou horas é basicamente normal. No caso de demências, a
recuperação imediata está igualmente comprometida, mas a recuperação
tardia tende a ser bem pior que a imediata, evidenciando perda de
material ao longo do tempo.
Os déficits cognitivos relacionados à depressão também têm como
característica seu curso flutuante ao longo do dia ou dos dias, podendo
estar hora normal e hora muito prejudicado.
Naquelas pessoas deprimidas que apresentam déficits cognitivos variados,
estes últimos melhorariam com o uso de antidepressivos que levariam à
remissão da depressão.
Quando a melhora cognitiva não parece ser completa, apesar de ter
ocorrido remissão completa ou quase completa do quadro depressivo,
deve-se ponderar duas hipóteses:
a) existe déficit
cognitivo real subjacente ao quadro, isto é, demência incipiente com
déficit apenas exacerbado pela depressão (excess disability) ou;
b) os antidepressivos estão, de algum modo, interferindo na
cognição.
Embora existam relatos
sobre o comprometimento de memória com o uso de Inibidores Seletivos da
Recaptação da Serotonina (ISRSs), em especial a fluoxetina,
classicamente aquele déficit ocorre com o uso de antidepressivos
tricíclicos. Sabe-se que quanto maior a atividade anti-colinérgica,
maior a possibilidade de indução da dismnésia. Na verdade, qualquer
fármaco com propriedade anti-colinérgica pode induzir o mesmo efeito.É
interessante observar que os déficits causados por antidepressivos
tricíclicos poderem ser indistinguíveis daqueles causados pela
depressão. Essa perda cognitiva determinada pelo próprio antidepressivo
será classificada como Delirium.
Neste caso, deve-se trocar o antidepressivo tricíclico para um Inibidor
Seletivo da Recaptação da Serotonina (ISRS), tais como venlafaxina,
bupropiona ou a mirtazapina. Deve ser evitado o uso concomitante de
benzodiazepínicos, que podem causar déficit mnêmico por vezes muito
significativo,. A mirtazapina, pelos seus efeitos ansiolíticos, em geral
permite ao médico não usar benzodiazepínicos.
CONCEITOS
Já existem vários autores
recomendando uma certa independência dos rígidos critérios da CID.10 E
do DSM.IV para o diagnóstico da depressão no idoso. Isso porque, para
essas classificações formais, as diferenças de diagnóstico entre os
vários transtornos depressivos se dão de acordo com o número de
episódios, duração dos mesmos, gravidade dos sintomas e evolução.
Entretanto, no ancião é difícil estabelecer limites entre o estado
normal e depressivo. Para ele o diagnóstico da depressão deveria se
basear mais em critérios quantitativos que qualitativos.
Partindo-se de um estado de ânimo retraído, de determinadas condutas e
de pensamentos depreciativos (culpa, inutilidade, abandono...),
juntamente com determinadas manifestações fisiológicas, tais como a
perda de peso, insônia, dores incaracterísticas, somatizações,... vários
autores propõem cinco critérios para consolidar o diagnóstico da
depressão no idoso (Spiltzer):
1-Vários sintomas de
depressão pelo menos por 2 ou mais semanas.
2-Sentimento de estado de ânimo diminuído durante este tempo.
3-Presença de pelo menos quatro dos sintomas seguintes:
aumento ou diminuição do apetite,
aumento ou diminuição do sono,
diminuição da energia,
sensação contínua de fatiga ou cansaço,
perda de interesse,
perda de prazer nas relações sociais,
perda de prazer nas atividades cotidianas,
sentimentos de reprovação ou culpa de si mesmo,
lentificação ou agitação psicomotora,
queixas ou evidência de diminuição na capacidade de concentração.
4-Alterações no funcionamento cotidiano da pessoa (interação social,
nível de atividade e busca de ajuda profissional), como causa ou
conseqüência da depressão.
PREVALÊNCIA
A prevalência de
depressão e transtornos depressivos nos idosos, de um modo geral, oscila
desde 10 até 20-27% (Blazer, Hughes, George - 1987). Já em idosos
institucionalizados a taxa de prevalência de depressão vai de 25 a 80% (Hyer
y Blazer -1982). É bom saber também que a depressão é 3 vezes mais
prevalente em idosos com alguma deterioração funcional que naqueles sem
essa condição.
SINTOMATOLOGIA
De um modo geral, a
clínica da depressão nos idosos é mais variada e atípica que no adulto
jovem. Os idosos apresentam freqüentemente sintomas depressivos que nem
sempre se ajustam aos requisitos necessários para categorias
diagnósticas das classificações tradicionais (CID.10 e DSM.IV).
Normalmente esses quadros são repletos de sintomatologia somática.
Os sintomas mais
freqüentes costumam ser inquietação psicomotora (depressão ansiosa),
sintomas depressivos (insuficientes para categorias de diagnóstico
formal), somatizações variadas, sinais de alterações vegetativas, perda
da autoestima, sentimentos de abandono e dependência, eventuais sintomas
psicóticos, déficit cognitivo variável, idéias de ou suicídio.
Em menor escala pode surgir alterações do sono, alterações do apetite,
reconhecimento dos sintomas psiquiátricos, perda de energia, sensação de
culpa, tristeza subjetiva, diminuição da concentração e pensamentos
sobre a morte.
Não se deve esquecer que a depressão é a patologia mais freqüente no
idoso e, normalmente, é apresentada de maneira atípica ou indireta, ou
seja, encoberta por múltiplas e variadas queixas somáticas e associada a
quadros de franca ansiedade.
O diagnóstico da depressão no idoso se baseia na história clínica, nos
antecedentes afetivos pessoais e familiares bem como no julgamento de
elementos sócio-psicológicos associados e possivelmente facilitadores.
Para o clínico, nunca é demais enfatizar que as diferenças entre os
distintos tipos de depressão apontados pelo DSM-IV ou CID.10 não têm
tanta relevância prática para a população de idosos.
PESQUISAS
Algumas pesquisas podem
refletir a realidade do idoso, como por exemplo as de Blazer (Blazer,
Hughes, George - 1987) e Kane (Kane A. R., Kane R.L. -1993). Esses
estudos permitem considerar que:
1- A maioria dos
idosos institucionalizados (75%) não está satisfeita e contente com
sua situação atual na instituição, o grau de bem estar pessoal é
insuficiente, o índice de satisfação global é baixo e a auto-estima
também é mínima (Lawton M.P. – 1975).
2- A auto-estima diminui progressivamente com a idade, atingindo seu
ápice mais baixo entre os 75 e 84 anos.
3- Parece que essa diminuição da auto-estima não é diferente entre
homens e mulheres.
4- A prevalência de transtornos depressivos na população
institucionalizada é de 54%, portanto, superior às taxas de
prevalência de 23-40% estabelecida na população de idosos em geral.
5- Em estudos tomando por base os índices de hemoglobia glicosilada
entre idosos, o grupo mais alto se encontra na faixa de 75-84 anos,
que é o mesmo grupo identificado com pior resultado na escala de
satisfação de Filadélfia e com maior prejuízo da auto-estima (Lawton
M.P. – 1975). Isso pode sugerir que as alterações do sistema
neuroendócrino podem estar associadas a possíveis transtornos
depressivos no processo de envelhecimento.
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