Um  "santo"  em  Goiás
Artigo do  Diário da manhã de 07 de janeiro de 2001

Até quando dura o sonho de um homem? Até se realizar ou enquanto for compartilhado por outros homens, mesmo que esse tempo ultrapasse sua própria existência. Esse foi um dos ensinamentos deixados pelo exemplo de vida do padre José Dalla Muta, mais conhecido como padre Zezinho, fundador da paróquia são João Bosco, em Goiânia.
Esquecido pela população goianiense, seu sonho ainda é lembrado pelos seus seguidores, por aqueles que lhe atribuem curas milagrosas e pelas gerações que por ele foram instruídas no que se transformaria no colégio Atheneu Dom Bosco, onde o padre italiano lecionava ensino religioso, latim, matemática, história e geografia. Os mais de 60 meninos carentes abrigados e amparados pelo padre também não deixam morrer a sua memória.

Todas essas pessoas formam hoje a Sociedade Amigos de padre Zezinho, que luta para levar adiante as obras religiosas do pároco, como a orientação espiritual e profissional aos mais humildes.
Um outro plano, em vias de se realizar, é o traslado do corpo do padre, que é considerado por muitos um verdadeiro santo, sepultado no cemitério Jardim das Palmeiras, para uma cripta a ser construída no santuário de são Leopoldo Mandic, também fundado por ele.
Foi ainda na Itália, no vilarejo de Faedo, que o então menino José conheceu a principal influência religiosa de sua vida, o padre Leopoldo Mandic. Presbítero com fama de milagreiro, Mandic era um confessor respeitado, que atraía fiéis de outras cidades a Pádova, onde autuava. Em seu ardor missionário, o seminarista Salesiano José Dalla Muta saiu da sua terra rumo ao Brasil, ordenando-se padre em São Paulo, em 1936. 
Em 1945, foi transferido para Goiânia, onde fundou o primeiro santuário de São João Bosco, no local em que funciona o colégio Atheneu Dom Bosco.


Escola

Na escola, passaram pelas mãos de Padre Zezinho várias personalidades, como o ex-senador Irapuan Costa Júnior, os ex-prefeitos Nion Albernaz e Hélio Mauro, além de importantes empresários goianos, como Luiz Gonzaga Mascarenhas e Luiz Alberto Cunha.
Durante os 46 anos que viveu em Goiânia, o pároco realizou quase 60 mil batizados, celebrou milhares de casamentos, além de ter sido capelão em diversos governos. O religioso tomou a seu cargo a educação de dezenas de crianças pobres. A sua maior luta, no entanto, foi pela canonização de seu primeiro mestre, são Leopoldo Mandic. 

Carisma chamava atenção
Rigoroso com os dogmas religiosos, padre Zezinho chegou a incomodar algumas alas da própria igreja por manifestar-se apaixonadamente contra a dessacramentalização dos ritos e a Teologia da Libertação. Seu bordão era: "não tenho papas na língua!".
Os que o conheceram, no entanto, atribuem ao sangue italiano suas explosões e o descrevem como alguém que "trovejava ralhas antes de dar a bênção do perdão". Outra frase sua era: "Senhor, iluminai os nossos corações com a fé e a luz do Espírito Santo".

Fato curioso na vida do religioso é o seu carisma. Mesmo após sua saída da paróquia Dom Bosco, em 1974, quando se tornou membro da Arquidiocese de Goiânia, indo residir à rua T 7, padre Zezinho continuou a ser visitado pelos inúmeros fiéis que havia conquistado. 


Vaticano

Nas quatro missas diárias que celebrava, padre Zezinho sempre pedia a intercessão de padre Leopoldo. Ele divulgava a história do vigário, distribuía sua imagem e curas de doenças eram realizadas. "São Leopoldo curava cancerosos e outras curas de câncer se operaram pelas orações de padre Zezinho, com a intercessão de São Leopoldo", afirma o presidente da Sociedade Amigos de padre Zezinho, Luís Souza.
Os relatos foram enviados ao Vaticano e, num processo incomumente rápido, padre Leopoldo transformou-se em são Leopoldo no dia 16 de outubro de 1983. O passo seguinte de padre Zezinho foi a construção de um santuário para ele. Padre Zezinho viveu apenas para ver a inauguração da igreja, em 12 de maio de 1991. Quatro meses depois ele seria levado pela mesma doença que ajudou a curar: o câncer.
As obras na paróquia são Leopoldo ainda não estão concluídas. A nave já recebe os fiéis, mas a estrutura para o trabalho pastoral não existe. A Sociedade dos Amigos de padre Zezinho pede ajuda para a finalização dos trabalhos.
Outra intenção daqueles que veneram o padre é transferir seu corpo para o templo do qual ele tanto lutou. "Padre Zezinho deve voltar para o santuário que idealizou", comenta padre Felice Pinelli, atual vigário da paróquia. O bispo de Goiânia, Dom Antônio Oliveira, já autorizou a transferência, que agora depende de uma autorização da prefeitura. 


Milagres

De acordo com a dona de casa Domingas Póvoa, padre Zezinho era tido como membro de várias famílias. "Para mim, era como um pai", conta. Ela atribui a ele a cura de seu marido, o industrial aposentado João Lemes Borges, em cuja coluna foi identificado um tumor canceroso no hospital do Câncer.
Paralisado do peito para baixo, João chegou a ficar internado durante 44 dias e foi desenganado pelos médicos. "Eles me disseram que meu marido tinha perda de potássio e albumina e que, na melhor das hipóteses, nunca voltaria a andar", lembra Domingas. 

A dona de casa preferiu orar a padre Zezinho, já falecido, pedindo a intercessão de são Leopoldo. "Um dia, antes de ser operado, meu marido me disse para ficar tranqüila, porque ele já havia sido curado pelos dois vigários". A dona de casa relata que quando os médicos realizaram a cirurgia na coluna de João Lemes nada mais foi encontrado. Depois de dois anos, o aposentado voltou a andar.
A dona de casa diz que pretende lutar pela canonização de padre Zezinho. Ela afirma que o vigário tinha visões, pressentimentos, além de realizar curas instantâneas. "Ele encostava as mãos numa pessoa machucada, e em pouco minutos, ela estava curada, garante.

Vanessa Vieira


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