SANTO
IRENEU
Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No
XVII ano do imperador romano Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos
passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma
perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas
(seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo
passaram a gozar de grande fama por causa das "maravilhas" de seus múltiplos
carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a
Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião,
dissentindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia,
e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja. "Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o
elogiaram dizendo: "Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela
permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso
e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso
observador do Testamento de Cristo. Se pensássemos que a posição de alguém é
aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote
da Igreja, como de fato ele o é" (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é
o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis.
Costuma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia
(atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo
(martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que
confere a Ireneu o título de "vir apostolicus". Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. "Eu te poderia
dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara
tornando-se valentiniano-o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para
falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto
de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os
íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor,
seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas
oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas
Escrituras" (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60) Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião,
sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de
idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente
conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas,
cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as
Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor
(189-199). Diziam os bispos da Ásia -sob a liderança de Policrates, de Éfeso
-conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por S. João; para as
Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em
determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os
que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu
escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava
respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais.
Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão
(duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente
o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da
obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por
esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos
apóstolos em contextos diversos. Pacificados os ânimos, Ireneu -segundo o dizer de Eusébio
-fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa
"paz". Segundo Gregório de Tours, na clássica Hist6ria dos Francos,
Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a
um foco missionário para toda a Gália. Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do,
estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeceram-se bases
e princípios gerais para combater todas as heresias na Igreja. Nada se sabe -com certeza -sobre sua morte. Uma tradição
tardia -que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino -afirma ter sido ele
martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra
tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob
Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28
de junho.
Algumas notas
- Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excepcional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.
- É impressionante a cultura bíblica de Ireneu - que usava a versão dos Setenta - citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).
- Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neo-testamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon vetero-testamentário.
- Na formação teológica de santo Ireneu estão presentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especialmente -através de S. Policarpo -de S. João e da escola joanina -sobretudo Pápias -, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.
- É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhecia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.
- Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor - do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.
- Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais de Adversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.
- Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos "cânones imutáveis da verdade" (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente a linguagem técnica da teologia).
Helcion Ribeiro - Fonte: Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus