ÉTICA E MARTÍRIO
Há um quadro da história e da vida
humana que inquieta, de modo muito intrigante, todos aqueles que o contemplam. É
o martírio. Homens e mulheres de diferentes condições sociais e de diferentes
momentos da história, da humanidade, particular referência aos dois mil anos do
cristianismo, enfrentam a perversidade da morte com uma serenidade que
impressiona. O martírio é desconcertante. Fácil é responder a pergunta que
explicita as razões dos que arbitrariamente comandam a maldade que ceifa a vida
dos outros. As ideologias sempre articulam argumentos variados que justificam,
em tantos momentos, atitudes que tiram a vida e comandam, dos outros, o direito
sagrado da liberdade. A mentalidade nas culturas, nos grupos ou em indivíduos,
clareia o quanto é fácil encontrar razões e justificativas para explicar e
justificar estas bárbaras execuções, a dureza das prisões e as arbitrariedades
dos poderosos da história.
Todos sabem o quanto a maldade é criativa para produzir os espetáculos que na
história deram, dão e darão largas à morbidez de corações que encontram prazer
na violência e na perversidade. Uma perversidade que tem no seu reverso a
incontinência do desejo desarvorado de poder muito, sempre mais e de não deixar,
a todo custo, de poder. Para tudo isso há uma cura, com um único remédio. Este
remédio se encontra nestes que enfrentam, com serenidade espetacular, a força
avassaladora dos perversos do mundo. Os mártires têm uma lição sempre atual para
curar maldade que destrói.
Vale a pena focalizar as raízes mais profundas geradoras do sustento dos
mártires de todos os tempos nesta serenidade que fascina e aponta um algo mais
nem sempre evidente para todos. Por isso, capeia mais soltamente a maldade nas
violências multiplicadas, nas tiranias das explorações e na frieza que não deixa
vir a prodigalidade dos afetos fraternos na geração da irmandade universal tão
necessária.
Ninguém morre porque quer morrer. Ninguém gosta e quer morrer. O medo de morrer,
particularmente pela não compreensão adequada da irmã morte, desanda os
funcionamentos internos fazendo com que se procure viver ao custo de qualquer
preço. De onde vem, então, a força que sustenta os mártires na audaciosa coragem
de morrer por alguém, por algum ideal, ou por algum projeto de vida? A resposta
a esta pergunta é a compreensão das alavancas sustentadoras da destemida coragem
para o martírio, espelhando uma lucidez que ultrapassa, e fazendo compreender o
que significa a expressão bíblico-neotestamentária “ver o invisível”, de Hb
11,1ss. De fato, a visão do que é tão evidente e que facilmente se apreende na
superfície de fatos, circunstâncias, condições de vida ou até mesmo das
convicções norteadoras de gestos e escolhas, não é suficiente para garantir a
coragem do martírio. É preciso ser capaz de ver o invisível. Este invisível não
é apenas referência ao que se esconde. Na verdade, trata-se de um manifestado
que não se dilui nas circunstâncias aparentes de tantas coisas tão efêmeras. Há
um modo de se ver o algo mais, que é invisível, mesmo contemplando o que compõe
a fugacidade do evidente. Quando se consegue alcançar a sabedoria de tudo é
passageiro, entrou no limiar da capacidade de ver o invisível. Obviamente, quem
vislumbra o invisível descobriu que o mais importante está para além, vai chegar
ainda, é preciso ser procurado. É próprio do coração humano, mesmo atolando-se
nas estações intermediárias, mover-se pela procura e pelo encontro do que é mais
importante.
Esta dinâmica, existencialmente, exige esforço de procura e o deslocamento de si
mesmo para um outro ou para valores maiores, e faz nascer a condição audaciosa
do martírio. Pouco a pouco emerge no agir da pessoa uma conduta que revela o
algo mais que suscita perguntas curiosas e ganha força missionária que advoga e
convence a respeito da existência de razões que ultrapassam razões mesquinhas.
O martírio cristão tem no testemunho de Cristo Jesus, o mártir do Pai, por
obediência amorosa, aliança selada para garantir a salvação da humanidade, o
alcance e o sentido de paradigma. Sua imitação corajosa explica e responde
perguntas, suscita observações que interpelam, apontando que há de se procurar o
mais importante, que estará sempre por chegar, dando uma modulação diferente a
escolhas, atitudes e modos de viver.
Sebastião, Inês, Paulo, o apóstolo, lembrados nestes dias, e outros desta
história, convencem como testemunhou Justino, nos primórdios da era cristã, que
se converteu ao ver a coragem dos mártires que, “intrépidos diante da morte...o
fazia pensar ser impossível que eles vivessem no vício e no amor dos prazeres”
(2 Apologia 12).
Dom Walmor
Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte