LITURGIA E TEMPO
Os
mistérios que Jesus Cristo viveu
neste mundo, Ele os viveu por amor de nós; neles se mostra nosso modelo, mas
sobretudo quer unir-se a nós como Chefe de um só Corpo Místico, do qual Ele é a
Cabeça e nós os membros. A virtude desses mistérios é sempre operante e eficaz.
Se Deus nos revela os segredos do Seu amor para conosco é para que os aceitemos
afim de nos adaptarmos ao plano eterno, de onde emana santidade e salvação. Se
Cristo nos revela os tesouros insondáveis através dos seus mistérios é para os
fazermos frutificar. Para tanto é preciso conhecer o Cristo Jesus através de
seus mistérios.
É principalmente no Evangelho que devemos procurar o conhecimento de Jesus e dos
seus mistérios. Outra maneira, porém, de conhecer os mistérios de Jesus é
associar-se à Igreja na sua liturgia. É sobretudo através da liturgia que a
Igreja instrui e educa a alma de seus filhos, de modo a santificá-los
tornando-os semelhantes a Jesus Cristo.
Para meditar sobre os mistérios da vida de Jesus, a Igreja instituiu um "Tempo
Litúrgico", pelo qual ela recorda a obra salvífica realizada pelo Cristo: e isso
ela faz a partir do "dia do Senhor" (dies Domini), durante a semana se
estendendo durante todo o ano, incluindo as diversas festas dos santos. No
Domingo, a Igreja recorda a ressurreição do Senhor, celebrada uma vez ao ano
(Páscoa) unindo os mistérios da Paixão-Morte-Ressurreição e gloriosa Ascensão de
Jesus aos céus.
A Igreja desdobra o mistério de Cristo durante todo o ano denominado "ano
litúrgico". Esse ano litúrgico "é o desdobramento dos diversos aspectos do único
mistério pascal" (CaIC 1171). Começando pelo Advento, depois o nascimento de
Jesus, a epifania até chegar à vida pública, paixão, morte e ressurreição, em
seguida, ascensão e envio do Espírito Santo, a Igreja celebra todo um ciclo que
faz o memorial do mistério pascal durante todo o ano, reservando sempre para o
domingo a celebração da ressurreição de Cristo. O dia do Senhor é ao mesmo tempo
o primeiro dia da semana (lembrando o primeiro dia da criação, visto que Cristo
faz novas todas as coisas) e o oitavo dia em que Cristo inaugura o "Hodie", o
"dia que não conhece ocaso" (cf. CaIC 1166). Nesse dia, os fiéis se reúnem para
ouvir a Palavra de Deus e realizar a Eucaristia (Sacramento dos Sacramentos),
fazendo memória, isto é, tornando presente o mistério pascal.
A liturgia da Igreja tem por finalidade render graças a Deus. Por isso "toda a
vida da Igreja gravita em torno do sacrifício eucarístico e dos sacramentos"
(CaIC 1113), pois a oferenda mais preciosa que podemos ofertar a Deus é o seu
próprio Filho que, imolado por nós, nos salvou e glorificou o Pai.
Fora da Eucaristia, o mistério de Cristo nela celebrado encontra especial
expressão na Liturgia das Horas, pois penetrando e transfigurando o tempo de
cada dia com tal mistério, a Igreja realiza a recomendação apostólica "orai sem
cessar" (1Ts 5,17). Sem dúvida, no centro da religião está o Santo Sacrifício
Eucarístico, verdadeiro sacrifício que renova a obra da nossa redenção,
aplicando-lhe os seus frutos; acompanha essa "oblação" com cerimônias sagradas;
cerca-a de um conjunto de leituras, cânticos, hinos, salmos, que servem de
preparação ou ação de graças à imolação eucarística. Esse conjunto constitui o
"Ofício Divino", que tem por função a santificação dos vários momentos do dia,
santificando, assim, o homem e prestando culto a Deus.
Os judeus costumavam rezar três vezes por dia a fim de santificá-lo: de manhã,
ao meio-dia e no fim do dia (cf. Sl 55,17). Os cristãos herdaram esta prática e
acrescentaram a oração noturna seguindo o testemunho de Jesus e dos Apóstolos
(cf. Lc 6,12; At 16,25)
São Bento determina na Regra para os seus monges sete horas canônicas (cf. RB
16), seguindo o que diz o Salmista: "Louvei-vos sete vezes por dia" (Sl
118,164). Essas horas canônicas são as Matinas, Prima (hoje, Laudes), Terça,
Sexta, Noa, Vésperas e Completas.
LAUDES. "Segundo uma venerável tradição de toda a Igreja, as Laudes, como oração
da manhã, e as Vésperas, como oração da tarde, constituem como que os dois pólos
do Ofício cotidiano. Sejam consideradas como as horas principais e como tais
sejam celebradas" (SC n. 89a.). Esse louvor da manhã consagra os primeiros
momentos de nosso dia a Deus. Após as trevas da noite, renasce um novo dia,
lembrando a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, "luz verdadeira que
ilumina todo homem" (Jo 1,9) e "Sol de justiça que nasce do Alto" (Lc 1,78). Por
isso se inseriu o Cântico de Zacarias (Benedictus) nesta hora canônica, pois uma
de suas tônicas é a glorificação do Senhor que obteve a vitória sobre a morte.
VÉSPERAS. As Vésperas recebem seu nome do astro luminoso Vésper (Vênus), que
começa a brilhar logo que caem as trevas da noite. Celebradas à tarde, ao
declinar do dia, conclui o dia e dá início à noite, agradecendo a Deus os dons
por ele recebidos naquele dia. Elas lembram também que o cristão deve cultivar a
esperança da vinda definitiva do Reino de Deus, que se dará no fim da jornada
deste mundo, quando habitaremos a Jerusalém celeste, onde não se precisará mais
da lâmpada nem da luz do sol. Os cristão celebram as Vésperas e repetem com os
discípulos de Emaús: "Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina"
(Lc 24,29).
Ofício de Leituras. O Ofício de Leituras pode ser celebrado a qualquer hora
desde o anoitecer até o fim do dia seguinte. A característica desse Ofício é que
nele podemos escutar mais longamente a Palavra de Deus e ter contato com os
autores de espiritualidade tanto antigos como modernos, além de diversos
documentos da Igreja.
Terça (9h), Sexta (12h) e Noa
(15h) evocam cada uma um acontecimento do Evangelho ou dos Atos dos Apóstolos.
Terça recorda a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos com Maria
no Cenáculo (cf. At 2,15). Conforme Mc 15,25, é a hora da crucifixão de Jesus.
Sexta lembra a hora em que Pedro saiu no terraço para rezar e teve uma visão.
Conforme Mt 27,45, é a hora da agonia de Cristo na Cruz.
Noa lembra a oração de Pedro e João no Templo, onde Pedro curou o
paralítico,conforme At 3,1. Lembra também a morte de Jesus na Cruz, segundo Mt
27,46
Completas deve-se rezar antes do repouso da noite. Nesse momento, faz-se um ato
penitencial pelas faltas cometidas naquele dia e a salmodia exprime a confiança
no Senhor: o sono da noite, que lembra o sono da morte, leva o cristão a se
entregar e abandonar ao Senhor antes do repouso noturno.
São Bento quer que o monge esteja todo inteiro no momento do Ofício Divino. Por
isso, diz que, na salmodia, nossa mente concorde com a nossa voz (RB 19),
indicando todo o empenho, devoção e temor de Deus que se deve empregar na
recitação do Ofício Divino.
Dizia Santa Terezinha: "Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples
olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou
no meio da alegria". É através da oração que nossa alma se eleva até Deus,
também através da oração nós pedimos alguma coisa a Deus ou agradecemos a Ele
pelo dom recebido. Ver Jo 4, 7-10: Assim é a maravilha da oração: nós vamos até
a beira do poço onde vamos procurar nossa água e encontramos Cristo. Ele vem ao
nosso encontro e nos dá água-viva. Jesus tem sede e nós também: a oração é,
pois, o encontro entre a sede de Deus e a nossa sede. Deus chama incansavelmente
toda pessoa ao encontro misterioso com Ele.
Os salmos são rezados e realizados em Cristo, por isso são um elemento essencial
e permanente da oração de sua Igreja e são adequados a todos os homens de
qualquer condição e tempo.
dom Adriano Bellini, OSB