LITURGIA: REPOUSO E NÃO ESTRESSE
Hoje em dia muitas celebrações litúrgicas, em vez
de levarem ao repouso, conduzem a um verdadeiro cansaço, um perigoso estresse.
Uma senhora me dizia, em Goiânia, que na terra onde mora, perto de Belém do
Pará, as Missas estão se tornando insuportáveis devido ao estrépito, à
barulheira do canto, dos conjuntos musicais, além de comentários intermináveis e
avisos que não terminam. Às vezes, ainda consegue levar o marido à Missa, diz
ela, mas a certa altura ele diz: "Mulher, não agüento mais, vou embora". De
fato, levanta-se e se retira.
Ora, a sagrada Liturgia não constitui um
espetáculo. Toda a assembléia celebrante brinca diante de Deus e em Deus. A
Liturgia não é conquista humana. Não é eficaz pela força das palavras como se
fosse uma conquista. É obra de Deus, puro dom divino, Deus mesmo a ser acolhido.
A Liturgia leva a assembléia ao repouso em Deus e não ao cansaço, ao estresse do
esgotamento físico e psíquico.
Na ação litúrgica já participamos do "repouso"
prometido por Deus a seu povo (cf. Sl 94). Ela conduz à tranqüilidade, ao
descanso, ao sossego da comunhão de vida e do amor com Deus e em Deus. Seu
desenrolar aos poucos vai aquietando os corações dos que chegam à assembléia
celebrante cheios de tensões causadas pela vida agitada, pelas preocupações do
dia-a-dia. Aos poucos, na escuta da Palavra de Deus, o coração se deixa
reconciliar, estabelece-se novamente a harmonia com Deus, com o próximo e com
toda a criação. Os participantes acolhem a Palavra e a deixam aninhar-se no seu
coração. Todos vão se deixando enlevar pelo ritmo dos diversos ritos, que
estabelecem o clima de oração, melhor, que constituem oração, relação efetiva e
afetiva com Deus por Cristo e em Cristo Jesus.
Por isso, as nossas celebrações devem voltar a
ser mais contemplativas dos mistérios de Cristo que se tornam presentes, onde
entrará sobretudo a linguagem da escuta atenta, da acolhida, da contemplação,
dos ritos em si mesmos, inclusive, do silêncio.
A celebração cristã não pode estar repleta de
estímulos externos, de estrépito, de barulho, repleta de ruídos. Evitar-se-ão
toda surpresa, toda quebra do ritmo do rito, toda interrupção do fluir da
relação orante com Deus através de todas as faculdades e todos os sentidos,
embalada pelo ritmo do rito. A palavra, o som, o canto e a música constituem
apenas um aspecto da participação ativa. É um desastre quando o som da palavra e
da música se torna atordoante e ensurdecedor. Isto não leva ao repouso em Deus,
mas a maior tensão, ao estresse. As pessoas deixam a celebração mais tensas do
que quando chegaram.
Diria que a participação ativa é antes uma
acolhida passiva do dom de Deus, do próprio Deus no coração, deixando-se
envolver por Deus, revestir-se de Deus, fazendo sua a glorificação prestada por
Jesus Cristo ao Pai. Deus não se agrada com um culto de multiplicação de
palavras. Compraz-se com um coração contrito e humilhado.
Toda celebração litúrgica, particularmente a Eucaristia, possui uma dinâmica interna. O início pode ser mais vivo para despertar e motivar a celebração. Aos poucos, porém, a partir da escuta e da contemplação dos mistérios, brota a resposta orante de admiração, de adoração, de louvor, de ação de graças. Comer e beber juntos exige tranqüilidade, sossego, satisfação, plenitude. Assim, toda a assembléia flui para o repouso, a comunhão, a linguagem do coração, a linguagem do esposo e da esposa, para o silêncio profundo da satisfação em Deus. Acontece, então, a reconciliação total, o descanso, o repouso em Deus. O coração e a alma se retemperam em Deus, se fortalecem com o dom de Deus. Assim, reconciliadas, as pessoas podem retornar à luta do dia-a-dia.
frei Alberto Beckhäuser, OFM