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Como toda pessoa
religiosa, assim também o cristão precisa de um lugar onde possa
realizar ritualmente o seu culto e, conseqüentemente, que seja
símbolo do seu encontro com Deus. Este lugar não corresponde nem
ao templo hebraico nem ao pagão, pois estes espaços são
caracterizados pela presença da divindade e é esta presença que os
torna “sagrados” e sacralizantes. O lugar do culto cristão não é
identificado pela presença da divindade, mas pelo que nele se
realiza, isto é, a celebração do mistério.
Nele o Cristo está presente pela força de sua palavra e os fiéis
se reúnem no seu nome porque são convidados a fazer memória Dele.
“Fazei isto em memória de mim.” (Lc. 22, 19) – “Onde dois ou três
estão reunidos no meu nome, lá estou eu no meio deles.” (Mt. 18,
20).
Nos templos o encontro com os fiéis é casual. Para os cristãos é a
reunião que define o espaço, o templo, compreendido como lugar da
presença divina. Os fiéis são as pedras desse edifício. Paulo VI
tem uma frase que resume isso: “Se a Igreja é o lugar de uma
divina presença, este lugar é a assembléia dos fiéis...” (Paulo
VI, 1965)
A eclesia significava a reunião e só mais tarde passou a designar
também o lugar da reunião. Para o cristão não existe a
materialização de um lugar onde Deus habita. Já Salomão, quando
construiu o templo exclamou: “Mas é verdade que Deus habita na
terra? Eis que os céus e os céus dos céus não vos podem conter,
muito menos esta casa que eu construí!” (1Re. 2, 27). E São Paulo
aos atenienses diz: “Deus não mora em templos construídos pelo
homem.” (At. 17,24). O verdadeiro tempo no qual Deus pode morar
foi o corpo que Maria lhe ofereceu por obra do Espírito Santo.
Jesus mesmo diz: “Destruí este templo e eu o reedificarei em três
dias” (Mt. 26, 61). E João Evangelista faz questão de esclarecer:
“Ele falava do templo do seu corpo”. (Jo. 2, 21). Por participação
e pela força do batismo também o corpo do Cristão se torna templo
de Deus: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito
Santo que está em vocês, que recebestes de Deus e que não vos
pertenceis?” (1Cor. 6, 19); “Nele também vocês sois edificados
para vos tornar morada de Deus por meio do Espírito.” (Ef. 2, 22).
“Também vocês são as pedras vivas na construção de um edifício
espiritual...” (1Pe. 2, 5). “Não sabeis que sois templo de Deus e
que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo
de Deus, Deus o destruirá. Porque Santo é o templo de Deus que
sois vós.” (1Cor. 3, 16-17).
Na unidade do Espírito Santo todos os cristãos constituem o corpo
místico de Cristo, isto é, a Igreja. Este é o lugar do culto
indicado por Jesus à samaritana. “Os verdadeiros adoradores
adorarão o Pai em espírito e verdade”. (Jo. 4, 23). E na liturgia
o cristão expressa o seu louvor pleno, por Cristo, com Cristo, em
Cristo, a Deus Pai, na unidade do Espírito Santo.
Cristo portanto é o verdadeiro lugar do culto cristão, capaz de
elevar o perfeito louvor. Todavia a pessoa manifesta esta
realidade espiritual servindo-se da materialidade do próprio
corpo. Para obedecer ao mandado de Jesus as pessoas se reúnem com
outras e acabam determinando lugares, que se tornam lugares de
culto pela ação que neles se desenvolve.
Panorama
Histórico
Na primeira fase da
história, quando Jesus ainda está presente fisicamente, os lugares
de culto eram a sinagoga e o templo.
Sabemos dos Evangelhos como Jesus freqüentava a sinagoga; é só
lembrar o texto de Lc. 4, 17-21: “O Espírito do Senhor está sobre
mim...”
No templo hebraico Jesus ensina, principalmente de sábado, e cura
os doentes. Porém todo lugar onde o Cristo Jesus está presente –
como adorador do Pai e salvador dos homens – se torna lugar do
culto cristão. Cada lugar na terra onde o Senhor Jesus se torna
presente na comunidade e com maior ênfase onde Jesus se manifestou
como homem e através de seus sinais, principalmente na sala onde
realizou a ceia com os Discípulos antes de sua morte.
Segunda fase:
Período Apostólico e Pós-apostólico
Depois da ascensão de
Jesus o espaço é determinado pela reunião e celebração que os
cristãos faziam.
a) no contexto judaico, depois de Pentecostes, os lugares de culto
dos cristãos continuam sendo os mesmos do culto dos hebreus. Estes
espaços eram freqüentados pelos discípulos para a escuta da
palavra e para a oração de louvor.
b) os convertidos ao cristianismo vão se distanciando gradualmente
dos lugares de celebração dos hebreus, mas rompem definitivamente
com os templos dos pagãos e começam a se reunir em casas
particulares, usando os mesmos móveis que havia nelas.
c) A “domus eclesiae” - à medida que as comunidades cristãs iam
crescendo e as casas de família tornavam-se incapazes de conter
todos os que se reuniam para fazer memória de Jesus e a partilha
do pão, foi necessário adquirir outros espaços, casas maiores que
fossem destinadas somente para o culto. A preferência era dada à
casas onde algum apóstolo já havia ensinado e partilhado o pão com
a comunidade, isto para manter viva a memória daquele que
testemunhou com a vida o Cristo morto e Ressuscitado. Começa neste
período o processo de ritualização e sacralização inclusive do
espaço e dos objetos que se destinam ao culto. Não se utilizam
mais objetos de uso doméstico como anteriormente.
d) também as catacumbas, ocasionalmente, se tornam lugar de culto.
As perseguições obrigam os cristãos a se proteger e portanto se
reúnem nos cemitérios, geralmente escavados em grandes galerias
fora dos muros da cidade.
Terceira fase:
quando toda a liturgia se estrutura
À medida que a
liturgia vai se estruturando, estrutura-se também o espaço
celebrativo. A “domus eclesiae” se estabelece em locais fixos e
acaba sendo projetada de forma que os cômodos correspondam às
exigências de caráter celebrativo-litúrgico, de acolhida, de
serviço e caridade. Os pobres eram contemplados sempre.
Não existe um modelo arquitetônico fixo para essas funções, mas o
que importa é que esses espaços se articulem entre si.
No entanto, o espaço que merecia uma atenção maior era o da ceia,
que se inspirava na sala escolhida e preparada para a ceia de
Jesus e na estrutura da sinagoga, na qual era dada ênfase à
proclamação e escuta da palavra e o louvor.
Outro espaço imprescindível era a sala do batismo e a fonte
batismal.
A forma e as dimensões desses locais variavam muito, dependendo da
situação geográfica e das necessidades locais. A aparência externa
não tem valor. A estrutura da “domus eclesiae” muda quando o
número de fiéis que se reúnem aumenta exageradamente. Os cristãos
a partir disso se inspiram em modelos de uso civil, como a
basílica. Claro que a passagem de um modelo para outro é gradual e
vão se inserindo aos poucos vários elementos. Por exemplo no
século III se define o lugar do bispo, através da introdução dos
presbíteros e da cátedra.
João Cipriano (+258) lembra o ambão como um lugar alto de onde o
leitor, visível a todo o povo, proclama o Evangelho.
A partir da metade do século III, o local de reunião passa a ser
denominado “eclesia”, antes “eclesia” referia-se à reunião de
pessoas.
A Basílica
Acontece uma mudança
estrutural muito grande na época de Constantino. Para um imperador
que se dizia cristão, o aspecto exterior e a grandiosidade do
templo eram muito importantes.
A atenção que na “domus eclesiae” era dada à celebração agora é
dada ao local da celebração. a Domus Eclesiae passa a ser a “Domus
Dei” ou “Domus Regis” e na terminologia grega “Basiliké oichia”,
basílica.
A forma externa e interna é da basílica civil, porém com o
acréscimo do quadripórtico – adro. Sendo este edifício considerado
“Domus Dei” a tendência é decorá-lo, enriquecê-lo para torná-lo
digno do Rei Divino.
A decoração e iconografia têm como objetivo viabilizar e tornar
compreensíveis os mistérios celebrados.
As construções seguem um padrão, não são mais livres, existem
regras.
O edifício é orientado conforme o percurso solar. A abside está
voltada para oriente e a porta para ocidente. Além do valor
simbólico existe o lado prático – a insolação.
No conjunto arquitetônico há perda de unidade, destacando cada vez
mais o lugar da celebração do restante do edifício, como se este
espaço fosse acessório.
Além das basílicas são construídos outros edifícios como os
batistérios e os “martiria”, ou igrejas sobre os túmulos dos
mártires.
O batistério
O batistério como
vimos no “domus eclesiae” fazia parte da estrutura arquitetônica
do edifício, também em sala própria. Como as basílicas, este local
se desloca, destaca-se do conjunto arquitetônico e assume formas
que eram típicas das termas, dos tepidarium e locais de banho.
Geralmente são conjuntos arquitetônicos de planta centrada:
redondos, poligonais, octogonais.
Os martiria
Também os túmulos dos
mártires por vezes serviam como local de culto. No túmulo, ou num
local ao lado se celebrava o chamado “refrigerium”, ou banquete
fúnebre e mais tarde se introduziu a “fração do pão”.
O rito da “fração do pão” suplantou o banquete fúnebre e
constituiu o único e novo banquete, garantia a Ressurreição
memorial do mistério de Cristo.
Com o edito de Constantino, sobre estes túmulos foram edificadas
basílicas capazes de conter grande número de fiéis.
As memórias
São chamadas memórias
as construções erguidas nos locais onde Jesus sofreu a Paixão,
morte e Ressurreição. Temos por exemplo o santo Sepulcro, ou
basílica do Santo Sepulcro.
Os santuários
Como as Memórias e os
Martiria, os santuários lembravam e marcavam algum acontecimento
religioso.
Nas fases que analisamos até agora podemos perceber que:
a) Num primeiro tempo, no contexto judeu-cristão temos a presença
de elementos hebraicos e cristãos.
b) Após o primeiro período segue um outro no qual se rejeitam
totalmente os elementos culturais não cristãos. “Nós não temos nem
santuários nem altar”.
c) À medida que o perigo do sincretismo é afastado vão sendo
recuperados elementos expressivos da religiosidade, presentes
também nas outras religiões. Entre eles destacamos: o lugar, as
vestes, alguns gestos e objetos rituais, o uso do incenso e a luz
(vela).
d) Na idade-média, inicia-se o processo que vai privilegiando uma
religiosidade genérica sem perder o Cristo como centro.
e) Destacam-se aspectos particulares, com a conseqüente perda da
unidade do mistério. Isto é evidente sobretudo na iconografia e na
decoração do espaço.
Os locais de culto perderam a sua originalidade.
a) A domus eclesiae se torna santuário.
b) O santuário assume também a função de “domus”. O túmulo do
mártir é que faz esta transposição. O mártir é tido como o
continuador do mistério do sacrifício de Cristo. O túmulo do
mártir se torna altar e depois o altar se torna túmulo ou depósito
de relíquias.
c) Existe uma diferença substancial na concepção espacial do domus
eclesiae e os santuários. Na “domus eclesiae” é a celebração do
mistério que determina a estrutura do lugar. Nos santuários é o
evento ou o túmulo, ou a imagem presente que polariza e organiza o
espaço em função da devoção ou da “presença”.
d) Quando a “domus eclesiae” se torna a “domus Dei” a sua
organização interna se aproxima mais do santuário. E, quando no
santuário o culto e a devoção se expressam através da fração do
pão, ou Eucaristia o arranjo espacial também é adequado. Exemplos
dessas situações os temos nas igrejas pós-tridentinas. Nestas a
relação Espaço-Eucaristia não se dá pela celebração mas pela
devoção Eucarística. Some o altar para dar lugar ao trono
eucarístico.
Lugar sagrado que
consagra
O espaço da
assembléia, ou “Domus eclesiae”, quando se torna “Domus Dei” acaba
sendo considerado espaço sagrado que sacraliza. Adquire
importância por si mesmo e não pelo mistério que nele se celebra
ou pela “eclesiae” reunida.
A simbologia se sobrepõe à função, a alegoria ao sinal, a
estrutura aos fiéis. O mandato de Jesus, “Fazei isto em memória de
mim” não tem mais contexto para ser celebrado.
A estrutura arquitetônica e a iconografia remetem à escatologia,
ao triunfo, algo que se celebra no presbitério enquanto o povo de
Deus presta atenção e expressa a sua devoção a uma certa
distância, na nave. Quando se introduzem os bancos e os fiéis
começam a se ajoelhar, perde-se também a imagem escatológica do
povo de Deus a caminho. |