CELEBRAÇÃO OU FALAÇÃO
De tanto ouvir reclamar que a missa estava comprida demais, o padre e a equipe passaram a celebrar mais e falar menos. A igreja ficou mais cheia e a qualidade participativa melhorou.
Em cursos, é
comum ouvir comentários sobre a celebração. Entre tantos comentários e de todos
os tipos, um chama particularmente minha atenção. Muitas, mas muitas pessoas,
dizem que a missa se alonga, porque tem muita falação. Numa dessas conversas,
alguém me dizia que a missa deveria ser mais leve, mais silenciosa e com menos
falação. E receitava: comentários breves, homilia na medida e momentos para a
assembléia se envolver pelo silêncio e poder rezar. Eu fiz um pequeno comentário
de liturgista: e celebrar melhor.
Pensando nisso, achei por bem falar de um desequilíbrio celebrativo que vem
acontecendo em algumas missas: a falação. São dois tipos de falação que
atrapalham a missa. Um acontece no interior da assembléia, com aqueles que ficam
o tempo todo cochichando com o vizinho; outro é falação de alguns ministros da
celebração. Vamos nos concentrar no último.
Os faladores na celebração
As novas
Instruções Gerais do Missal Romano pedem que os comentários sejam breves,
cuidadosamente preparados, sóbrios e claros (IGMR 105). Mesmo assim,
comentaristas há que falam o tempo todo e longamente, abandonando a sobriedade e
a clareza por falar demais. Parece se considerarem na obrigação de comentar tudo
e achar meios de intervir a todo momento. Comentaristas que assim agem tornam-se
faladores na missa.
Junto a esses podem ser incluídos alguns padres que também falam longamente para
iniciar a missa, para motivar o ato penitencial, para pedir que a assembléia
silencie... e tanto falam e explicam o silêncio, que pouca chance dão aos
celebrantes de silenciar.
O que dizer daqueles que, irritadamente, têm a mania de explicar tudo, tintim
por tintim. Explicam que vão fazer uma saudação; e depois saúdam. Explicam as
partes da missa, como se ela fosse aula de significados, de sinônimos litúrgicos
ou celebrativos. Explicam símbolos e sinais para que os celebrantes confirmem
que de fato aquilo é um símbolo ou sinal.
Participando de uma missa dominical, ouvi de um jovem comentarista o seguinte
esclarecimento para a procissão de entrada: “Na frente virá a cruz processional,
depois os ministros e no final da fila, o padre”. Falou para dizer o que todos
iriam ver e para dizer o óbvio. A não ser que muitos sejam cegos na assembléia,
comentários assim são dispensáveis. A falação em algumas celebrações é tanta que
permite perguntar: afinal, estamos celebrando uma missa ou escutando uma falação
interminável.
Tudo que é demais dispersa
Sem
generalizar, já vi comentaristas que, na ânsia de comentar e preparar a
assembléia para ouvir as leituras, fazem autênticos sermões antes da Primeira
Leitura. Depois, repetem o mesmo com a Segunda Leitura e com o Evangelho... Sem
contar que depois de três sermões, que antecederam as leituras, vem a homilia do
padre. E mais uma mini homilia para introduzir a profissão de fé, outro
sermãozinho para introduzir as preces da comunidade e.... haja falação. Falar
demais, num processo comunicativo como a missa, produz efeito desgastante e
dispersa a assembléia.
Sei que alguns ministros da liturgia com a boa intenção de ajudar o povo a
compreender a missa chegam ao exagero de fazer missas explicadas para o povo,
como se o momento celebrativo da Eucaristia fosse hora para ensinar o que é a
missa e cada parte dela em particular. Transformam a missa numa aula de
catequese litúrgica, explicando isso e mais aquilo.
Você pergunta: “Não é interessante que a missa seja explicada, para que os
celebrantes possam conhecê-la melhor e, conseqüentemente, melhor participem?”
Claro que sim! Mas que isso seja feito em outras ocasiões; em encontros, por
exemplo. Não se pode confundir celebração eucarística com missa catequética nem
transformar a missa em aula. Missa é para ser celebrada.
Aceitar a dinâmica celebrativa
Como sair dessa?! Simples! A celebração tem um processo comunicativo dinâmico com canções, ritos processionais, momentos para falar, instantes de silêncio, hora de sentar para ouvir, de estar de pé para aclamar, momentos para ajoelhar, ocasiões para olhar... Fazer bem cada momento comunicativo, com a característica que lhe é própria e sem se estender em explicações, é o melhor modo de valorizar cada um dos ritos celebrativos que compõem a missa. Fora isso, estaremos sempre correndo o risco de ter muita falação e pouca celebração; muita catequização ou moralização e pouca mistagogia para introduzir os celebrantes no mistério e no compromisso com o projeto do Reino de Deus.
Perguntas para a Pastoral Litúrgica
1 - Você que faz parte da equipe litúrgica ou de uma equipe de celebração, como avalia os comentaristas: falam demais e o todo tempo?
2 - Durante a celebração, quando são feitos muitos comentários e muitas explicações, você e sua equipe de liturgia já analisaram qual o comportamento dos celebrantes? Ficam atentos ou inquietos?
3 - Como você avalia o hábito que alguns têm de fazer comentário o tempo todo e para tudo? Será que depois de 40 anos da Reforma Litúrgica, ainda é preciso comentar tudo e a todo momento?
De São José do
Rio Preto (SP),
Serginho Valle,
Coordenador do Serviço de Animação Litúrgica
www.liturgia.pro.br