A  sucessão  no  Vaticano

Com a proximidade da morte do Papa João Paulo II, católicos de todo o mundo se perguntam quem será seu sucessor. Papas não se aposentam, nem passam seu cargo. Após a morte, o Sacro Colégio dos Cardeais se reúne para escolher o novo pontífice. O processo de votação é conhecido como conclave - que significa "local que pode ser trancado de forma segura". Secreto, o conclave é realizado entre 15 e 20 dias após a morte do Papa.

O conclave
A primeira providência a ser tomada após a morte de um Papa é convocar o camerlengo - o chefe do Colégio dos Cardeais. Atualmente, o ocupante do cargo é o espanhol Eduardo Martinez Somalo. É ele que vai anunciar oficialmente o falecimento do Santo Padre, depois de tocar três vezes na testa do papa com um pequeno martelo de prata e chamá-lo três vezes pelo nome de batismo. Na ausência de resposta, cabe ao camerlengo quebrar o anel do Pescador (usado em referência ao momento em que Jesus diz a Pedro que ele seria um pescador de almas), em que está gravado o nome do Papa e, em seguida, inutizar o timbre papal, a marca da autenticidade dos documentos assinados pelo pontífice.

O ritual
Uma missa celebrada na basílica de São Pedro abre o conclave. Os cardeais rezam para que o Espírito Santo inspire suas escolhas e juram manter a eleição em segredo. Depois , recolhem-se em aposentos especiais, previamente inspecionados para detectar possíveis microfones. Cada aposento é fechado por um tecido, na cor que simboliza a ligação do respectivo cardeal com o papa morto: púrpura, se o cardeal foi escolhido por aquele Papa, ou verde, caso não tenha sido.
A Capela Sistina se transforma na sala do conclave. O trono do Papa é removido e seis velas são acesas no altar onde está o cálice sagrado - onde serão colocados os votos. As cadeiras altas são cobertas de cor púrpura, a cor do luto e da realeza. Aos cardeais é proibida a entrada sem chapéu na capela: as cabeças descobertas simbolizam que a autoridade suprema não pertence a nenhum deles, mas nasce apenas dessa reunião.

A escolha do Papa
O conclave conta com cerca de 120 cardeais de diversas nacionalidades. Todos os cardeais com menos de 80 anos têm direito a voto, mesmo os excomungados ou que estejam sob censura. Eles ficam isolados durante nove dias ou até que a escolha seja feita.

Até a eleição de João Paulo II, em 1978, um Papa era eleito com dois terços dos votos mais um. Hoje, o novo pontífice é escolhido por maioria absoluta: metade dos votos mais um. Duas sessões de votação são feitas a cada dia, uma pela manhã e outra à tarde. Após cada sessão, os papéis da votação depositados no cálice são queimados. Caso a votação não seja concluída, uma fumaça cinza é expelida pela chaminé que fica ao lado da Basílica de São Pedro no Vaticano. É o sinal para que a multidão que aguarda na Praça de São Pedro saiba que a Igreja Católica ainda está sem seu chefe supremo.

Após a escolha, uma fumaça branca anuncia que o novo Papa foi escolhido. Quando a votação atinge a maioria absoluta, o deão, o mais velho dos cardeais, pergunta ao novo papa se ele aceita a eleição e por qual nome quer ser chamado. Os papéis da votação são queimados e a fumaça branca sai da chaminé. Com o novo papa já devidamente trajado, o deão vai até o balcão da basílica e proclama "Habemus papam!" (Temos um papa). É neste momento que o novo pontífice aparece para abençoar a multidão na Praça de São Pedro.

Quem será o sucessor?
Em meio a dúvidas e especulações, ainda é arriscado prever o perfil do sucessor de Paulo II. Teoricamente, qualquer adulto do sexo masculino pode ser eleito papa. Mas na prática, há muitos séculos que só cardeais são escolhidos. Especialistas acreditam que o próximo papa deve ter entre 64 e 68 anos, idade média dos cardeais do Colégio. Há possibilidade de ele ser oriundo da América Latina.

Vários cardeais são de países em desenvolvimento. Um dos favoritos é o nigeriano Francis Arinze, 72 anos. Latino-americanos também têm chances – a maior população católica do mundo está no continente. O mais cotado é o colombiano Dario Castrilon Hoyos, 75. Dom Cláudio Hummes, 70, arcebispo de São Paulo, corre por fora. Uma corrente tradicionalista deseja um papa italiano, que seria um dos arcebispos do país. Outros nomes fortes são o secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano, 77, o chefe da Congregação dos Bispos, Giovanni Battista Re, 71, e o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o alemão Joseph Ratzinger, 77.

Os cotados

Ângelo Sodano: cardeal italiano, número 2 na hierarquia da igreja, secretário de Estado do Vaticano, foi escolhido por João Paulo II para anunciar em 2000 o 3º segredo de Fátima.

Joseph Ratzinger: cardeal alemão, conservador, prefeito da Doutrina da Fé, antigo Tribunal da Inquisição. Para os críticos, medieval.

Camillo Ruini: vigário-geral da Diocese de Roma, próximo do Papa e presidente da Conferência Episcopal. É italiano e aparece entre os 5 mais cotados nas listas dos preferidos.

Cláudio Hummes: arcebispo de São Paulo, franciscano, progressista em questões sociais, mas conservador em relação à doutrina.

Dionigi Tettamanzi: arcebispo de Milão, maior reduto católico da Europa. Forte entre os italianos, tido como moderado.

Christoph Schonborn: cardeal arcebispo de Viena, dominicano, descrito como corajoso, articulado e carismático. Foi o primeiro a dizer que o Papa estava doente.

Norberto Carrera: Liberal no social e conservador na doutrina da igreja, incentiva protestos contra impostos, violência e corrupção.

Francis Arinze: líder da Igreja na África, nigeriano, visto como conservador, mas interlocutor crucial no diálogo do Vaticano com grupos muçulmanos, budistas e hindus.

Bernardin Gantin: africano, amigo do Papa, é da Congregação para os Bispos e da Comissão Pontifícia para América Latina.

Oscar Maradiaga: arcebispo da capital de Honduras (Tegucigalpa), líder da igreja em ascensão na América Latina, atua em direitos humanos e dívida dos países pobres com FMI.

Dario Hoyos: cardeal colombiano, da Congregação para o Clero. Para alguns, é um dos favoritos entre os nomes da América Latina.

Pio Laghi: cardeal italiano, enviado da paz do Papa com missão de evitar guerra no Iraque. Foi embaixador do Vaticano em Buenos Aires, acusado de cooperar com militares.

Roger Etchegaray: cardeal francês, foi arcebispo de Marselha entre 1970 e 1984. Enviado em missão de paz ao Iraque, manteve diálogo com Saddam Hussein.

Carlo Maria Martini: cardeal italiano, liberal, arcebispo de Milão. Aposentou-se em 2002 para se dedicar ao estudo de textos.

Miloslav Vlk: arcebispo de Praga, é líder da Igreja nos países do Leste Europeu desde o fim do comunismo. Tem boas relações com líderes da Igreja na Itália.

Godfried Danneels: arcebispo na Bélgica, é moderado. Já sugeriu o uso de camisinha para portadores de HIV.

Jean-Marie Lustiger: arcebispo de Paris. Sua mãe, judia, morreu no campo de concentração. Ex-mecânico religioso, já foi criticado por rabinos israelenses.

Giovanni Battista Re: cardeal italiano. Foi auxiliar próximo de João Paulo II. É especialista em Direito Canônico.

Angelo Scola: o cardeal italiano é patriarca de Veneza e entrou para a lista recentemente. Promove visões conservadoras da igreja sobre sexualidade, aborto e casamento.

Lubomyr Husar: é líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Um azarão, mas humilde, generoso e carismático

Frases  do  Papa

"Vocês são o futuro do mundo, vocês são a esperança da Igreja, vocês são a minha esperança”
João Paulo II, aos 83 anos, dando início à semana de celebrações e cerimônias para marcar seus 25 anos como chefe da Igreja Católica Romana, em 2003. Frase de João Paulo II, a 22 de outubro de 1978, após a liturgia inaugural do seu Pontificado, na Praça de São Pedro, dirigindo-se aos jovens.

"A juventude não é apenas um período de vida (...), mas uma qualidade de alma que se caracteriza precisamente por um idealismo que se abre para o amanhã”.
João Paulo II, em outubro de 1994, em sua obra "Cruzando o Limiar da Esperança"

“Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem."
João Paulo II, na Carta Encíclica Fides et Ratio (nº 90)

“A terceira idade é uma dádiva de Deus e chegar a ela é um privilégio”
João Paulo II

“Em cada continente, os gritos por piedade perecem aumentar a cada dia. O mundo de hoje precisa muito do perdão de Deus. Onde o ódio e a sede por vingança estiverem, que a graça e a piedade de Deus estejam também nas mentes humanas”
João Paulo II faz apelo para acabar com as guerras e o sofrimento no mundo, em 2002.

"Que Cuba se abra ao mundo com todas as suas magníficas possibilidades e que o mundo se abra a Cuba"
João Paulo II em Cuba em 1998.

“Nós perdoamos e pedimos perdão. Pedimos perdão pelas divisões entre os cristãos, pelo uso da violência que alguns cristãos empregaram em nome da fé e pelo comportamento de desconfiança e hostilidade algumas vezes adotado em relação a seguidores de outras religiões”,
Declaração do Papa durante a homilia de uma cerimônia realizada na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

“Nós nos entristecemos pelo comportamento daqueles que, no curso da História, fizeram suas crianças sofrerem e, pedindo perdão, esperamos nos tornar irmãos”
Disse o Papa sobre a omissão da Igreja durante o Holocausto.

“A mulher é capaz de colaborar com o homem, porque ela é sua perfeita duplicata, na mesma qualidade”
Condenando a exploração e o abuso da mulher no turismo sexual e na prostituição.

“Um Estado moderno não pode fazer nem do ateísmo nem da religião um de seus ordenamentos políticos”
Em Cuba, em 1998

"A evolução é compatível com a fé cristã"'
João Paulo II


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