A  significação  histórica  do papado  de  João  Paulo II

Tentaremos, neste breve espaço, fazer uma avaliação do significado histórico de médio e de longo prazos do papado do polonês Karol Wojtila, o João Paulo II. Para tanto, valer-me-ei de conceitos da história e da sociologia das religiões, em especial os de sagrado e de profano, o de religiões de rejeição do mundo e o de desencantamento do mundo, ou secularização.

Se tivermos em mente um horizonte histórico amplo, observaremos que, ao longo dos últimos cinco séculos (fixemos como marco a publicação das noventa e cinco teses de Lutero em Wittemberg, em 1517), a religião em geral e a Igreja Católica, em particular, têm lutado contra o processo de secularização. Este pode ser definido por dois elementos: no plano institucional, ocorre o esvaziamento da importância jurídica e política da Igreja, sua retirada da vida pública, como um seu elemento cogente, e seu reassentamento no plano da vida privada, como questão de opção individual; por outro lado, na dimensão da cultura, a desaparição progressiva das crenças em divindades que participam diretamente das existências individuais vem sendo substituída pela noção monoteísta de um Deus onipotente e onisciente, tão diferente dos mortais e tão acima das questões destes que desaparece a plausibilidade de sua intervenção no dia-a-dia dos mortais, que são, desta forma, compelidos a "assumirem a responsabilidade" por suas existências, restando bloqueada a possibilidade de o sujeito interpretar a sua existência como um reflexo dos humores dos deuses, ou "forças" ou "energias". A esse processo conjunto (instituições e cultura) Max Weber chamou "desencantamento do mundo". Ele é também conhecido como processo de secularização.

A religião reformada, o Protestantismo, tende a ser mais vulnerável ao desencantamento do que o Catolicismo, na medida em que é mais racional e, portanto, evita apoiar a religiosidade de suas fiéis sobre elementos emocionais (isso não vale para o Protestantismo evangélico brasileiro, mas isso é outra história...). Tais elementos emocionais, sabidamente, contribuem para a longevidade de uma religião. A comparação histórica revela ser esta uma das mais seguras garantias de seu sucesso: a emulação, e não a inibição, das emoções, para que a experiência religiosa seja plena.

Quando João Paulo deu início a seu papado, no final dos anos setenta, a Igreja vinha já de quase três décadas de intensa participação política, tendendo à esquerda após o Concílio Vaticano II. O que importa, do ponto de vista sociológico, é que isso significava a imersão da Igreja nos conflitos da vida mundana e a colocação, por ela, do bem-estar material nesta vida como o principal conteúdo da salvação cristã. Significava também a desvalorização das emoções em prol da orientação estratégica segundo uma doutrina político-econômica racional, para a qual as emoções veiculadas pela religião seriam o "ópio do povo".

Isso bem pode ser verdade, mas, decididamente, não foi assim que a Igreja Católica realizou a proeza de existir, como instituição e cultura, ininterruptamente, ao longo de quase 1.800 anos. Ao contrário: o cristianismo é, na plena acepção do conceito, uma religião de "rejeição do mundo", isto é, uma cultura religiosa que desvaloriza a existência mundana, nesta vida, para entronizar a vida que ainda está por vir, essa sim, a verdadeira Existência. "Meu reino não é deste mundo", já sintetizava o Cristo. Deste modo, o núcleo de sentido da religião cristã será sempre, de uma forma ou de outra, atingido diretamente quando a vida neste mundo for afirmada como devendo ser mais importante do que a busca pela "verdadeira" salvação. O bem-estar material, dadas as premissas fundamentais da rejeição do mundo cristã, não pode, em termos lógicos, ser mais do que uma meta a ser perseguida com moderação e certa desconfiança, devido à possibilidade de os apetites mundanos serem demasiadamente estimulados, distraindo assim a atenção do "verdadeiro Reino".

Pois foi essa configuração simbólica que deu ao Cristianismo sua força histórica. Foi assim, mirando firmemente a "verdadeira vida" e, com o canto do olho, prestando atenção nesta "mundanidade", que o Catolicismo pôde chancelar ou opor-se a governos e a Estados, sem confundir-se com eles; que ele pôde firmar sua presença na sociedade como oferta de um sentido de vida que não dependesse da conjuntura econômico-política imediata; que ele pôde, enfim, responder às exigências de uma experiência religiosa explicitamente "pura", satisfazendo, ao mesmo tempo em que, propriamente, o constituía no Ocidente, o "interesse religioso" em sentido estrito (i. e., aquele que não visa bens, materiais ou ideais, de tipo mundano, mas sim uma certa condição espiritual, a emoção perene de sentir-se "salvo").

Muito embora a guinada politizante à esquerda da Igreja após o Concílio Vaticano II não implicasse, necessariamente, o convite a uma vida em busca do luxo material, João Paulo II parece ter interpretado tal tendência como portando um grave risco de dissolução das fronteiras nítidas entre o "sagrado" e o "profano" e de perda de contato com a seiva histórica específica da Igreja Católica, a saber, o fato de "Seu reino" não ser deste mundo. E neste caso, não obstante as posições ideológicas que cada um possa ter, há de se reconhecer que tal diagnóstico continha um bocado de verdade, ao mesmo se tomarmos como referência a sabedoria histórica. 

Em outros termos: não foi sempre "modernizando-se" e "estando em sintonia com o tempo" que a Igreja Católica chegou aonde chegou e construiu a sua força e significado próprios. E João Paulo II parece ter tido sempre uma consciência extremada desse fato. Sua recusa às modernizações, às adaptações, ao "ritmo dos tempos" guarda a mais perfeita sintonia com o receituário de sobrevivência histórica, no longo prazo, do Catolicismo. Diversão, adaptação, conforto, bem-estar, prazer, mundanidade enfim, bem, isso é muito mais bem feito pelos especialistas mundanos do que pelos religiosos. Competir nesse terreno é suicida, como já percebem os evangélicos neopentecostais, que competem entre si em termos de "quem permite mais coisas", dissolvendo assim, dia após dia, a nitidez da fronteira sagrado-profano e tornando-se, tendencialmente, instituições de auto-ajuda mágica com finalidades exclusivamente econômicas e políticas. A princípio, nada demais, visto que a livre-associação é um direito no Brasil, e dos bons. Mas a vida religiosa propriamente fica cada vez mais rarefeita, deixando de ser um fim em si e passando à condição de meio para o alcance do bem-estar material e espiritual nesta vida.

Todo o Papado de João Paulo II pode ser visto, do ponto de vista sociológico, como um momento de reafirmação estratégica do que é propriamente religioso, em oposição ao que é "do mundo", ainda que isso não signifique dissolução moral. Sua oposição ao aborto, por exemplo, mostra que, para ele, não se trata de desconsiderar as dificuldades e efeitos perniciosos, para tantos, de uma gestação indesejada, mas, sim, que não há como a sabedoria pragmática "humanista" substituir-se à verdade fundante e constituinte, do ponto de vista religioso, que afirma a sacralidade da vida, uma vez concebida. Considerações pragmáticas mundanas (econômicas, psicológicas, sociais etc) pouco valor podem ter aí, pois se trata do fundamento da religião, e ele, para existir e ter efeitos sociológicos integrais, precisa ser levado muito a sério. O que pode significar a conveniência conjuntural de alguém, por mais grave que essa possa ser, em face dos fundamentos do universo? Que se entenda bem a posição do Papa João Paulo II: ele acredita, ao adotar as tais posições "conservadoras", estar salvando a humanidade dela mesma, de sua pouca têmpera, de seu distanciamento do ascetismo que salva e seu mergulho nos braços do conforto e da conveniência que diminuem a existência humana aos olhos de Deus. "Deus escreve certo por linhas tortas" é uma idéia a ser levada adiante com seriedade mortal, custe o que custar. 

É esta a oferta de sentido que afirmou a posição da Igreja ao longo dos milênios. Esse o núcleo de sua sabedoria. Hoje, inconscientes da variedade histórica e crendo piamente que nossa época apresenta a única forma razoável de viver, a saber, a vida em busca do conforto material, achamos o Papa "esquisito", "conservador", "atrasado", "anacrônico", e queremos "aposentá-lo" por falta de "produtividade" e de "poder" sobre a Igreja. A régua da economia, da política e da moralidade contemporâneas já emitiu seus veredictos definitivos: o Papa "tá por fora".

Mas o horizonte histórico que produziu a sabedoria de que o Papa "já era" tem, nos melhores casos, duzentos anos ? é o horizonte da arrogância imperial do capitalismo. João Paulo II pensa, e age, a partir de um horizonte de dois mil anos. Vendo as coisas assim, dá até dó daqueles que julgam, com tanta certeza quanto falta de consciência histórica, que, nas mãos desse Papa, a Igreja Católica "perdeu o bonde da história". Ao contrário, do ponto de vista histórico-sociológico, são quase trinta anos de renovação da oferta de sentido propriamente religioso, e de resistência à voracidade ditatorial dos costumes "modernos", que não configuram, por mais espantoso que isso possa parecer ao nosso ingênuo e presunçoso senso comum, a única forma de possível de existir-se humanamente. Por que, perguntaria João Paulo II, a Igreja precisaria chancelar, por exemplo, o aborto, num mundo que já o permite juridicamente? Por que, se, de acordo com a revelação das Escrituras, trata-se de um erro moral? Por ser confortável? Prático? Pois então que se o pratique em nome disso, do conforto e da conveniência. Mas não em nome do Deus que tem sustentado sociologicamente, com as possibilidades de sentido implicadas em sua dogmática, a vida do Catolicismo através dos milênios. Não. Para tal Deus, não é de estranhar que suas diretrizes soem "inconvenientes". Ele não é mesmo deste mundo. E há muita gente, um pedaço grande da humanidade, que descobriu isso ao longo dos últimos dois mil anos, e achou o mundo de lá, o Dele, bem melhor do que o mundo das conveniências do aqui e do agora... Quem ainda não descobriu que dinheiro não traz felicidade?

Eurico A. G. Cursino dos Santos
 professor adjunto para Sociologia da Religião da Universidade de Brasília


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