Três  visitas  ao  Brasil

No Morro do Vidigal, no Rio, o papa tirou seu anel de ouro do dedo e o deu de presente aos moradores da favela, no primeiro contato com a população mais pobre do Brasil

Das 104 viagens fora da Itália que João Paulo II fez em 26 anos de pontificado, três tiveram como destino o Brasil. Nas duas primeiras, em 1980 e 1991, o papa percorreu o País de Norte a Sul, para visitar 23 cidades, todas capitais de Estados, com exceção apenas de Aparecida (SP), onde consagrou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, dando-lhe o título e os privilégios de basílica. A terceira viagem, em outubro de 1997, restringiu-se ao Rio, sede do 2.º Encontro Mundial do Papa com as Famílias. Rio, Brasília e Salvador foram as três únicas cidades brasileiras que entraram duas vezes no roteiro.

Karol Wojtyla, que havia assumido o governo da Igreja em outubro de 1978, era um homem de porte atlético e jovial quando se ajoelhou para beijar a terra no aeroporto de Brasília, em 30 de junho de 1980. Era um polonês de 60 anos que falava português com bastante desembaraço, capaz de interromper seus discursos com improvisos jocosos que levavam as multidões ao delírio.

Recebido pelo general João Batista Figueiredo, o último general-presidente do regime militar, passou por cima do protocolo diplomático para dar o seu recado aos governantes e fiéis do maior país católico do mundo. Celebrou uma missa campal na Esplanada dos Ministérios e saudou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como “o corpo episcopal mais numeroso do mundo”.

A CNBB, então sob a presidência de dom Ivo Lorscheiter, de Santa Maria (RS), recebeu apoio e solidariedade do papa, mas também ouviu reprimendas. Na reunião de Brasília, João Paulo II recomendou cautela contra excessos da Teologia da Libertação e advertiu para os riscos de manipulação política do evangelho.

Era só o começo de uma peregrinação que, nos 12 dias seguintes, lotaria praças e estádios, de Porto Alegre a Manaus, onde quer que João Paulo II aparecesse.

De Brasília, ele voou para Belo Horizonte e Rio, dois pontos altos da programação. “Oh, que belo horizonte!”, exclamou o polonês poliglota no alto das Mangabeiras, interrompendo a homilia para contemplar o pôr-do-sol na Capital de Minas.

“A bênção, João de Deus”, cantaram mais de 400 mil cariocas no Aterro do Flamengo, no Rio, lançando um comovente refrão que ecoaria País afora. No Morro do Vidigal, o papa tirou seu anel de ouro do dedo e o deu de presente aos moradores da favela, no primeiro contato com a população mais pobre do Brasil. Mostrado ao vivo pela televisão, o gesto comoveu.

São Paulo, a etapa seguinte, marcou a programação com imagens contrastantes. Após a apoteose do Campo de Marte, que atraiu 1 milhão de pessoas para uma alegre celebração oficial, o cardeal dom.Paulo Evaristo Arns apresentou a João Paulo II um de seus amigos e colaboradores, o jurista Dalmo Dallari, professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e presidente da Comissão Justiça e Paz, que havia sido seqüestrado e espancado, na véspera, por agressores não-identificados.

Dallari, que chegou de maca numa ambulância, responsabilizou o governo estadual por cumplicidade no atentado. Uma reunião com operários no Morumbi aumentou o constrangimento. Ao receber um grupo de trabalhadores no estádio, entre os quais se destacava Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical do ABC, o papa abraçou um metalúrgico que havia sido torturado pela ditadura.

Nesse clima de denúncias, ele defendeu a liberdade sindical no discurso que fez no Morumbi e insistiu no respeito aos direitos humanos, encampando a luta do episcopado contra o autoritarismo.

João Paulo II voou depois para Porto Alegre e, na volta, parou em Curitiba, onde cantou em polonês com uma delegação de imigrantes de seu país natal. Em Salvador, conheceu a miséria da Favela de Alagados e abençoou uma mãe-de-santo, apresentada pelo cardeal dom. Avelar Brandão Vilela, arcebispo-primaz do Brasil e um dos mais expressivos representantes da ala “progressista” da CNBB. No Recife, dom. Helder Câmara recebeu Karol Wojtyla como “irmão dos pobres” e lhe mostrou um mapa da cidade com 63 favelas ameaçadas de remoção.

Flagelados

No vôo para Belém, onde visitou uma colônia de hansenianos, João Paulo II fez uma escala em Teresina para um encontro com flagelados da seca. “Meu Deus, o povo passa fome. Gostaria de espalhar a chuva”, comoveu-se. Antes de despedir-se dos brasileiros em Manaus, com uma procissão no Rio Negro, o papa foi a Fortaleza, cidade que registrou o único incidente grave da viagem - a morte de três mulheres, quando uma multidão de 30 mil pessoas tentou invadir o estádio Castelão para assistir a uma celebração.

“A primeira visita do papa ao Brasil reforçou a posição profética da Igreja na sociedade”, escreveu frei Clodovis Boff (irmão do teólogo Leonardo Boff, o ex-frade franciscano que deixou o sacerdócio e a vida religiosa após ter sido condenado ao silêncio pelo Vaticano), num artigo publicado em 1997, poucos meses antes de João Paulo II voltar ao Rio para o Encontro Mundial do Papa com as Famílias.

A segunda viagem, que incluiu dez cidades, de 12 a 21 de outubro de 1991, ocorreu num “contexto restaurador”, conforme frei Clodovis observou no mesmo trabalho. “Posição profética”, porque o papa denunciou injustiças sociais gritantes na realidade do País, e “contexto restaurador”, porque ele voltou a insistir na defesa de valores tradicionais, como o celibato dos padres e a autoridade de Roma. O vigoroso e brincalhão Karol Wojtyla da primeira visita não era mais o mesmo.

Estava 11 anos mais velho e carregava seqüelas do atentado sofrido em maio de 1981, quando levou um tiro na Praça São Pedro. Apesar disso, enfrentou uma árdua programação entre o desembarque em Natal e a despedida em Salvador, com escalas em outras oito capitais. A imprensa estranhou que João Paulo II não atraísse multidões tão grandes quanto as da primeira viagem, mas admitiu que ele ainda era capaz de encher praças e estádios. Se Brasília não levou 800 mil, mas “apenas” 300 mil pessoas, à Esplanada dos Ministérios, os números não eram desprezíveis. O papa continuava tendo audiência para sua pregação, com ampla cobertura internacional. Decidido a aproveitar esse público em sua 53.ª viagem apostólica, ele levantou questões morais de alcance mundial e voltou a temas urgentes no campo social.

Depois de abrir um congresso eucarístico em Natal, João Paulo II defendeu a reforma agrária em São Luís e condenou, falando para seminaristas em Brasília, uma Teologia da Libertação “que pretende reinterpretar o depósito da fé com base em ideologias de cunho materialista”. Em Goiânia, foi aclamado por 150 mil pessoas no estádio Serra Dourada, ao lembrar a tragédia das vítimas de césio, quatro anos antes, num bairro pobre da cidade.

Em Cuiabá, onde o enfoque foi a ecologia, o papa recebeu representantes de 37 nações indígenas, que lhe ofereceram um cocar e uma borduna, depois de reclamarem da demora na demarcação de suas terras. A programação voltou-se, nas etapas seguintes, para assuntos religiosos. João Paulo II ressaltou, em Campo Grande, o papel que os leigos cristãos devem desempenhar na família e na sociedade.

Em Florianópolis, atraiu 60 mil fiéis para a cerimônia de beatificação de Madre Paulina do Coração de Jesus Agonizante, freira nascida na Itália, mas educada em Santa Catarina, que ele mesmo canonizaria em maio de 2002. Em sua passagem por Vitória, João Paulo II enfrentou chuva e pisou na lama para conhecer de perto a pobreza da favela Nova Palestina, à qual fez uma doação de US$ 100 mil para a construção de um centro pastoral.

Do Espírito Santo o papa voou para Maceió, onde reencontrou o presidente Fernando Collor, com quem já havia conversado em Brasília. O tema da homilia durante a missa celebrada na cidade foram as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores, especialmente os do Nordeste.

A maratona de dez dias de viagens, cerimônias e concentrações custou caro a Karol Wojtyla, então um homem de 71 anos com problemas de saúde e que já não tinha o mesmo vigor das primeiras viagens. Ele não disfarçava o cansaço, pois parecia cochilar durante as celebrações, embora ainda fosse capaz, vez ou outra, de interromper os discursos para improvisar uma brincadeira ou questionar os fiéis. Foi o que fez em Salvador, última escala da peregrinação, ao receber 2.500 crianças, na ladeira da Igreja do Senhor do Bonfim.

  “O papa deve chorar?”, perguntou João Paulo II no palanque, comovido com a canção Amigo, de Roberto Carlos. “Não”, respondeu a criançada em coro. “Mas o papa está chorando em seu coração”, insistiu João Paulo II, sem esconder as lágrimas que lhe molhavam o rosto de verdade.
Seis anos depois dessa segunda viagem, João Paulo II veio ao Rio, em outubro de 1997, para o 2.º Encontro Mundial do Papa com as Famílias.
Ao falar para 190 delegações de 76 países durante um congresso internacional de teologia no Riocentro, o papa condenou o aborto o divórcio e a infidelidade conjugal como três males da sociedade moderna. João Paulo II voltou ao tema no Maracanã, onde 115 mil pessoas participaram da Festa do Testemunho, no encerramento do Encontro Mundial do Papa com as Famílias.

Na missa da catedral, a emoção ficou por conta do encontro de João Paulo II com dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife. “Irmão dos pobres, meu irmão”, disse o papa, desviando-se da caminhada em direção ao altar para abraçar o amigo. Muito debilitado em seus 88 anos, dom Hélder beijou a mão do papa e recebeu dele um beijo na testa.

Domingo, último dia da visita, a missa foi no Aterro do Flamengo onde cerca de 2 milhões de pessoas rezaram e cantaram no mesmo cenário de 1980. Roberto Carlos subiu ao altar, para cantar seu maior sucesso, Nossa Senhora, e reprisou Jesus Cristo, a canção que de que o papa tanto gostara em sua primeira viagem ao Brasil. Foi a apoteose da segunda passagem de João Paulo II pelo Rio.

João Paulo II canonizou primeira santa brasileira

Nenhum papa fez tantos santos como João Paulo II na história da Igreja. Durante os 26 anos de seu pontificado, ele canonizou 482 e beatificou 1.338 pessoas de todos os continentes, entre os quais Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Embora tenha nascido na Itália, na aldeia de Vigolo Vattaro, em Trento, então sob domínio da Áustria, ela é venerada como a primeira santa do Brasil.

O então presidente Fernando Henrique Cardoso assistiu à cerimônia de canonização na Praça de São Pedro, no Vaticano, na manhã de 19 de maio de 2002.

João Paulo II, que havia beatificado Madre Paulina em Florianópolis, uma das escalas de sua segunda viagem ao Brasil, em 1991, beatificou também Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, em outubro de 1998. Paulista de Guaratinguetá, Frei Galvão era frade franciscano e viveu em São Paulo, onde construiu o Convento da Luz. Em março de 2000, João Paulo II proclamou beatos mais 30 brasileiros, os 30 mártires de Uruaçu, no Rio Grande do Norte, que foram assassinados por invasores holandeses em 1645, por terem se recusado a renegar a fé católica. No governo do papa Karol Wojtyla, a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos acelerou os processos de beatificação e de canonização, normalmente muito morosos.

Dois dos novos beatos que João Paulo II elevou aos altares foram os seus predecessores Pio IX e João XXIII, papas de destaque na história recente da Igreja. Entre os santos modernos, ele incluiu Padre Pio, frade capuchinho italiano que morreu em 1968 e o fundador do Opus Dei, monsenhor José Maria Escrivá de Balaguer, morto em 1975. Seus processos correram em tempo recorde, por empenho pessoal de João Paulo II.

José Maria Mayrink /Agência Estado


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