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Os primeiros batismos foram feitos no dia de Pentecostes. Pedro declara aos ouvintes: "Convertei-vos: receba cada um de vós o batismo no nome de Jesus Cristo para o perdão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo" (At 2, 38) E diz o texto que os que acolheram sua palavra receberam o batismo. E houve cerca de três mil pessoas que, nesse dia, se juntaram a eles (2,41). Foram realmente os primeiros ou aconteceram outros batismos antes desse dia? Lemos em Jo 1, 33 que Jesus batizava no Espírito Santo. Uma antiga tradição conservada por Nicéforos (sec XIII) o escritor grego dos 23 volumes da História Eclesiástica no seu volume II avaliada por Clemente de Alexandria (150 - 215) na sua Stromata (= miscelânea), afirma que Jesus batizou Pedro e que este batizou André. Tiago e João e estes últimos os outros discípulos. De fato S. Agostinho, afirmando que o batismo é a porta dos outros sacramentos tem como certo que, antes de receberem a Eucaristia na última ceia, os apóstolos estavam batizados por Jesus. Seria um contra-senso que Jesus batizasse na Judéia (Jo 3,22) e não o fizesse a seus discípulos mais diretos como eram os apóstolos. João disse que eram propriamente os discípulos de Jesus que batizavam (4,2). Uma coisa deve ficar clara: o batismo de João era diferente do batismo de Jesus e seus discípulos, porque o daquele era em água e o destes em fogo e no Espírito Santo. Tal aconteceu com Cornélio e seus familiares, que ,ouvindo as palavras de Pedro, receberam o Espírito Santo assim como os judeus presentes já batizados o tinham recebido; por isso Pedro mandou batizar os gentios, familiares de Cornélio, em nome de Jesus Cristo (At. 10, 48). Do mesmo modo Paulo em Éfeso batizou em nome do Senhor Jesus alguns discípulos de João, o Batista, por este batizados e que nem tinham ouvido falar do Espírito Santo (At. 19, 5). Que deduzimos de tudo isso? A primeira conclusão é que o batismo verdadeiro é o de Jesus, feito por ele ou em seu nome, como conseqüência da fé nele depositada. A Segunda é que o batismo de Jesus não foi iniciado no dia de Pentecostes mas tinha sido oferecido por ele e seus discípulos no início de sua vida chamada pública, iniciada após as tentações do deserto que se seguiram a seu batismo por João. A terceira que a fórmula do batismo nos primeiros tempos podia variar um pouco desde o nome de Jesus até a fórmula trinitária adotada hoje em dia. E da qual vamos falar.
FÓRMULA TRINITÁRIA BATISMO PRIMITIVO: PRIMEIROS ESCRITOS
A DIDAQUE
S. CLEMENTE ROMANO O BATISMO NOS PADRES APOSTÓLICOS
SÃO IGNÁCIO DE ANTIOQUIA Vemos nestas palavras que a fé na verdadeira doutrina em Jesus, "de Maria e de Deus"(aos efésios) é fundamental para que o sofrimento não seja considerado como algo alheio à vida de um cristão já que Cristo padeceu realmente. A outra doutrina válida desde os tempos apostólicos, já que Ignácio conheceu os apóstolos, é a da Eucaristia tal e qual as duas igrejas de Roma e de Constantinopla proclamam. A terceira certidão é sobre a hierarquia eclesiástica, já nesse tempo tão antigo, dividida em bispo, presbíteros e diáconos. Ignácio a si mesmo se denomina diácono, servidor ou escravo de sua igreja. Mas vejamos mais sobre este último ponto. Na carta a Esmirna escreve: "Sem contar com o bispo não é lícito nem o batismo, nem celebrar a Eucaristia, senão aquilo que ele aprovar isso será também o agradável a Deus, com o fim de que o que fizerdes seja seguro e válido. Que ninguém sem contar com o bispo, faça coisa alguma que pertença à Igreja". Ignácio também deseja que convenha que os que se casam "celebrem seu enlace com conhecimento do bispo, para que o casamento seja conforme ao Senhor e não só por desejo". Uma última questão é a idéia que Ignácio tem sobre a primazia da Igreja de Roma. Da carta aos romanos podemos oferecer estas passagens: Ela é a "que preside na capital do território dos romanos" mas também a "que preside a caridade". Da qual diz Ignácio que a ela "não dá mandatos como Pedro e Paulo. Eles foram apóstolos ; eu não sou mais que um condenado à morte". Destas palavras deduzimos uma coisa clara: Pedro e Paulo foram bispos de Roma, nela estiveram e governaram como tais por serem apóstolos. E uma coisa não tão clara para uns e sim evidente para outros: A igreja de Roma tem uma preeminência, ou preside. A questão é sobre que. Na tradução temos usado duas palavras de difícil interpretação: Topos que em grego clássico significa lugar e Ágape que é invenção do NT e que é traduzido por amor ou caridade. Que significa presidir no lugar do território dos romanos? A opção dos tradutores é usar capital. A outra interpretação é ágape. É que ela em Ignácio está no lugar de igreja. Um exemplo: "Os saúda a caridade dos irmãos em Troas". Por isso há autores que traduzem: "Preside a vida de amor, própria dos cristãos" O significado é que essa ágape é a vida cristã que se manifesta na assembléia, na celebração da Eucaristia, chamada de ágape e portanto representa a verdadeira Igreja. A passagem é discutível; mas ao mesmo tempo vemos que há uma autoridade na Igreja de Roma que Ignácio não prevê nas outras igrejas às quais escreve. O BATISMO DE SANGUE
JESUS
PEDRO E PAULO
MARTÍRIO DE S. IGNÁCIO BATISMO DE SANGUE: SÃO POLICARPO (+ 155)
VIDA Por esta igreja de Esmirna passa Ignácio de Antioquia no caminho para Roma e seu martírio. A ela escreve com carinho e recorda o bispo como digno de Deus, e dá graças a Deus por ter visto o rosto de Policarpo do qual oxalá me fosse dado gozar sempre em Deus, a quem chama felicíssimo. Entre os ouvintes de Policarpo há um jovem que grava em sua memória palavras e gestos que recordará em suas cartas, especialmente na que dirige a Florino, o presbítero romano, grande amigo seu. Sobre a heresia gnóstica, Ireneu adverte a seu amigo, dizendo: "Estas doutrinas não as transmitiram os anciãos anteriores a nós que conviveram com os apóstolos. Porque eu te vi quando ainda era um menino, na Ásia interior junto a Policarpo, desempenhando brilhante papel na corte imperial, e tratando ao mesmo tempo de ganhar também a estima de Policarpo. Do acontecido então me lembro melhor do que me lembro de coisas de ontem...de sorte que posso dizer até o lugar em que o bem-aventurado Policarpo se assentava para dirigir sua palavra, como entrava em matéria e como terminava suas instruções, seu gênero de vida, a forma de seu corpo, as homilias que dirigia a multidão, como contava seu trato com João e com os outros que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras dele de que era o que ele tinha ouvido deles sobre o Senhor, já sobre seus milagres, já sobre sua doutrina. Tudo isto como quem o tinha recebido dos quais foram testemunhas da vida do Verbo, Policarpo o relatava de acordo com as Escrituras....todas estas coisas arquivando-as em meu coração, as sigo ruminando pela graça de Deus". Segundo Ireneu, Policarpo, como discípulo direto dos Apóstolos, transmitia o mesmo que a Igreja transmite, que é o único verdadeiro. Testemunha da verdade muito mais digno de fé e mais firme que Valentino e Marcião (gnósticos) e os outros extraviados em suas opiniões. Que forma mais clara de dizer que a tradição vale muito mais do que a erudição e a ilustração de mentes esclarecidas. Por isso Policarpo opôs a pura tradição evangélica, proclamando que não existe outra verdade senão aquela que os Apóstolos entregaram à Igreja e esta guarda fielmente e transmite em seu ensinamento. Parece uma apostilha de Paulo: "Ao homem amigo de sua opinião, afasta-o de teu trato; depois de uma ou duas admoestações, sabendo que esse tal anda extraviado e se encontra em pecado, condenando-se por sua própria sentença" (Tit. 3,10 - 11) VIDA Da sua vida temos dois admiráveis exemplos narrados pelos hagiógrafos. O primeiro é sua viagem a Roma para resolver o espinhoso assunto da Páscoa. O segundo é o seu encontro com Marcion em Roma. Asiáticos e ocidentais diferiam na data da celebração da páscoa, recordação da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Os orientais fixaram o dia como sendo o 14 do mês judaico de Nissan. Os ocidentais variavam o dia segundo os anos, mas sempre coincidindo com o Domingo. É a controvérsia chamada dos quatordecimanos. No ano 170 o papa Victor quer forçar as igrejas da Ásia a aceitar o uso romano ameaçando-as com a separação da comunhão católica. Ireneu intervém para relatar ao papa Victor, em carta conservada por Eusébio, o historiador, a entrevista entre Policarpo e Aniceto. Ireneu cita os papas Aniceto, Pio, Higinio , Telesforo e Sixto. e diz textualmente: "Nem eles guardaram esse uso nem o permitiram aos seus, senão que os mesmos presbíteros predecessores teus, que não o guardavam, enviaram a Eucaristia aos procedentes das igrejas que o guardavam. E assim estando o bem-aventurado Policarpo em Roma, sob o pontificado de Aniceto (154), e tendo alguns pontos miúdos de diferença entre si, imediatamente ficaram em paz, não fazendo questão de honra esse capítulo da observância pascal, porque Aniceto não pode persuadir Policarpo a que não observasse o 14 de Nissan , já que este alegava ter sempre observado a páscoa nesse dia juntamente com João, discípulo do Senhor, e os outros apóstolos com os quais tinha conversado; nem por outra parte Policarpo conseguiu persuadir Aniceto a observá-lo, pois este dizia dever seu manter o costume recebido dos presbíteros anteriores a ele. Estando assim as coisas, mantiveram não obstante a comunhão entre si e na reunião litúrgica Aniceto cedeu seu lugar a Policarpo na consagração da Eucaristia, evidentemente por deferência e separaram-se em paz, mantendo a concórdia entre os observantes e os não observantes" (Os observantes para Eusébio eram os do 14 de Nissan). O segundo episódio é sobre os judeo-gnósticos e suas especulações que se difundiam nas igrejas orientais da Ásia Menor. A Segunda epístola de S. João está precisamente dirigida a combater essas doutrinas, iniciadas por Cerinto e propagadas com a ajuda de não escasso dinheiro por Marcion. Encontraram-se ambos Marcion e Policarpo em Roma e Marcion pede a Policarpo que o reconheça como cristão. Policarpo lhe responde: "Sim te conheço, te conheço que és o primogênito de Satanás".
CERINTO (c 60-80) De João tomou Policarpo a convicção de que não podemos modificar o sentido da palavra do Senhor, "palavra que nos foi dada desde o início", de modo a pregar uma doutrina falsa. As igrejas da Ásia transmitiam o relato, e Policarpo gostava de repetir o mesmo dizendo como João saiu precipitadamente dos banhos de Éfeso, sem tocar a água ao saber que estava também ali Cerinto, que negava a divindade do Senhor: "Fujamos -disse o Apóstolo- não seja que desabe o edifício que alberga dentro Cerinto, o inimigo da verdade".(continua) POLICARPO E SEU TEMPO MARCION (85 - 150) temos visto como a segunda heresia cristã teve origem ao querer explicar pela ciência humana os mistérios divinos da criação e redenção, especialmente quando referidos ao Cristo. Se Cerinto foi o início desta confusão, Marcion contribuiu com seu dinheiro e influência para a sua propagação na Ásia e Roma. Os gnósticos, como são conhecidos com nome comum estes hereges, afirmavam que sua doutrina vinha de uma revelação esotérica dos próprios Apóstolos, e ao qual são Ireneu (c 140) responde: A quem os Apóstolos revelariam esses mistérios escondidos aos outros discípulos, a não ser aos bispos aos quais eles confiaram suas igrejas? Por isso é importante saber quem eram esses bispos sucessores dos Apóstolos. Por falta de tempo e espaço - diz Ireneu - basta uma amostra: a da Igreja de Roma. Por causa de sua posição de cabeça (potior principalitas) todos os fiéis de qualquer lugar a ela devem se unir. E desta Igreja Ireneu passa a duas outras: a de Esmirna onde Policarpo ainda retém na memória as palavras dos Apóstolos e a de Éfeso em que João presidia perto do ano 100 até os tempos de Trajano (98 - 107) Será o próprio Ireneu quem nos descreve o encontro em Roma de Policarpo com Marcion, como temos narrado em outro lugar. Típico de Marcion é em primeiro lugar a sua tendência de misturar idéias cristãs com pensamentos exóticos da filosofia do seu tempo e das religiões orientais. Depois é a de pensar livremente, independente da hierarquia eclesiástica querendo reformar as igrejas de sua época, pelo qual tem sido estudado de modo especial pelos reformadores protestantes como Adolfo Harnack. Pela rejeição do cânon bíblico também se assemelha ao pensamento reformador do século XVI. Marcion não é gnóstico no sentido estrito da palavra. Os gnósticos eram pagãos que entre outras doutrinas admitiam certo verniz de cristianismo. Marcion é cristão em sua origem. Sua doutrina é de uma simplicidade extraordinária; por isso alcança a compreensão de grandes multidões. Era filho de um bispo de Sínope, no Ponto Euxino (mar Negro atual). Daí que Tertuliano o apelidasse do Lobo do Ponto. Porém, por ter seduzido uma jovem, foi afastado da igreja pelo próprio pai, segundo conta são Hipólito. Tornou-se rico com o comércio e a navegação, pois era armador de barcos. Nos anos 130 - 140 foi a Roma e para ter influência dentro da comunidade doou 230 mil sextércios(60 mil denários), que mais tarde lhe foram devolvidos ao conhecer sua heresia. Em 144 fundou uma comunidade separada, com bispos e presbíteros próprios. Segundo Tertuliano, no fim de sua vida tratou de se reconciliar com a Igreja. Impuseram-lhe a obrigação de reparar os danos causados, mas a morte impediu que o fizesse.
DOUTRINA SÃO POLICARPO: CARTA AOS DE FILIPOS
OCASIÃO
CONTEÚDO
COMENTÁRIO SÃO POLICARPO MARTÍRIO Sabemos como Policarpo esteve em Roma visitando o Papa Aniceto por ocasião da diferença de data da Páscoa entre orientais e ocidentais. De volta dessa visita sofreu um martírio que Ireneu classifica de ilustre e gloriosíssimo. Dele temos um testemunho plenamente histórico na carta que os de Esmirna, a sede de Policarpo, dirige a Filomélio, remota comunidade na Frígia. Onze cristãos de Filadélfia foram conduzidos a Esmirna para sofrer, nesta última cidade, o martírio. Era imperador na época Antonino Pio (86 - 161) benévolo aos cristãos. Estes porém, estavam sempre expostos à ira do populacho, sob o rescrito de Trajano ao que magistrados indecisos nem sempre se atreviam opor-se. Entre os cristãos de Filadélfia destacou por seu valor Germânico, que fez o que o grande Ignácio de Antioquia queria fazer com as feras: atiçá-las, para que acabassem cedo o seu ofício e assim sair deste mudo de iniqüidade. Diante dessa cena no anfiteatro as turbas gritaram: Moram os ateus! "Buscai Policarpo! O procônsul Quinto Estácio Quadrado cedeu à pressão da chusma e deu ordem para que se fizessem as diligências necessárias para deter o bispo de Esmirna. Como um dos filadélfios por nome Quinto, se denunciasse a si mesmo e depois diante das feras, por temor, apostatasse, os cristãos seguiram o conselho do Senhor de fugir e esconder-se. Por isso Policarpo fugiu para uma vila no campo. Ali Policarpo passava o tempo orando por todas as igrejas espalhadas por toda a terra. Policarpo teve uma visão três dias antes do martírio: o seu travesseiro estava rodeado pelo fogo. Policarpo comentou com os que o acompanhavam: tenho que ser queimado vivo.
TRAIÇÃO DE UM ESCRAVO
BETSAIDA S. POLICARPO - MARTÍRIO Ao tempo em que Policarpo entrava no estádio, uma voz veio do céu dizendo: Tende bom ânimo, Policarpo, e comporta-te varonilmente. O cronista diz que ninguém viu a pessoa que disse isso; mas a voz foi ouvida pelos cristãos que estavam presentes. Levantou-se um grande tumulto entre os assistentes ao conhecer que era Policarpo o preso. Levado à presença do procônsul este tratou de persuadi-lo a renegar a fé, dizendo: "Tem consideração de tua idade...Jura pelo gênio de César. Muda teu modo de pensar. Grita: morram os ateus!" (os cristãos eram ateus porque não aceitavam os deuses romanos) Policarpo olhou para as turbas que enchiam o estádio, tendendo sua mão e dando um suspiro, elevando os olhos ao céu disse: "Sim, morram os ateus!" "Jura e serás livre. Amaldiçoa o teu Cristo" - Replica o procônsul. Então Policarpo responde: "Oitenta e seis anos há que o sirvo e nenhum dano tenho dele recebido. Como posso amaldiçoar o meu Rei que me salvou?" Insiste o procônsul: "Jura pelo gênio do César". Responde Policarpo: "Se tens como questão de honra obrigar-me a jurar pelo gênio, como tu dizes, do César, e finges ignorar quem eu sou, ouve com toda claridade: sou cristão. E se tens interesse em saber que coisa é o cristianismo dá-me um dia de trégua e escuta-me." Responde o procônsul: "Convence o povo." E Policarpo: "A ti te considero digno de escutar minha explicação pois nós professamos uma doutrina que nos manda tributar honra devida aos magistrados e autoridades por Deus estabelecidas, enquanto não exista detrimento de nossa consciência; mas a esse populacho não o considero digno de ouvir minha defesa". Disse o procônsul: "Tenho feras que vou lançar contra ti se não mudas de opinião". E Policarpo: "Podes trazê-las; pois uma mudança do bem para o mal nós não podemos admitir. O lógico é mudar do mal para o bem". "Farei que te consumas pelo fogo, já que menosprezas as feras, se não mudas de opinião". E Policarpo; "Ameaças-me com um fogo que arde só um momento e logo está apagado. Parece que não conheces o fogo do juízo vindouro e do eterno suplício que está reservado aos ímpios. Mas por que demorar? Traz o que quiseres". Enquanto Policarpo dizia estas coisas, todos o viam cheio de fortaleza e alegria e seu semblante irradiava tal graça que não só não se notava decaimento pelas ameaças a ele dirigidas, mas foi o procônsul quem estava fora de si; este deu ordem a seu pregoeiro que de pé, no meio do estádio, disse por três vezes este pregão: Policarpo confessou que é cristão. Apenas ouvido este pregão os gentios, e com eles a turba de judeus de Esmirna, com raiva incontida e a grande gritos, começaram a vociferar: "Esse é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que tem induzido a muitos a não sacrificar e adorar os mesmos". E pediam à vozes ao exilarca Filipe que soltasse um leão contra Policarpo. Mas o exilarca respondeu que não tinha faculdade para isso, pois já tinha acabado o combate das feras. Então todos gritaram para que Policarpo fosse queimado vivo, porque devia se cumprir o sinal em que viu sua almofada envolta em chamas de modo que Policarpo predisse profeticamente : Devo ser queimado vivo. (continua)
SÃO POLICARPO - MARTÍRIO Como todos ouvissem: "Policarpo seja queimado vivo", correram aos banhos e às oficinas dos prateiros para colher lenha e arbustos e principalmente os judeus. Preparada a pira deste modo, Policarpo desatou o cinto, desvestiu o manto e preparava-se também a descalçar as sandálias, coisa que ele não acostumava fazer por causa das dificuldades de sua idade, de modo que usavam fazê-lo os fiéis varões por quererem beijar seu santo corpo. Quiseram pregá-lo ao poste de ferro conforme o costume e a lei. Então Policarrpo suplicou: "Permiti-me que fique como estou, porque quem me deu o querer me dará também o poder e fará tolerável também à minha vontade o fogo ardente". Assim pois não foi pregado ao ferro, mas ligadas as mãos à espalda, como consagrado ao altar, traspassou o martírio presente. Então olhando os astros e o céu disse: "Senhor Deus, Onipotente! Pão de teu amado e louvado Filho, Jesus Cristo, por quem temos recebido teu conhecimento, Deus dos anjos e das potestades, de toda criação e de toda raça dos justos que vivem na tua presença! Eu te abençôo, porque me fizeste digno desta hora a fim de tomar parte, contado entre teus mártires, no cálice de Cristo para ressurreição de eterna vida em alma e corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Seja eu com eles recebido hoje em tua presença em sacrifício pingue e aceitável, conforme de antemão mo preparaste e mo revelaste e agora o tendes cumprido. Tu o inefável e verdadeiro Deus! Portanto eu te louvo por todas as coisas, te abençôo e te glorifico por mediação do eterno e sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja a glória a ti com o Espírito Santo, agora e nos séculos por vir. Amém". Apenas teve enviado ao céu seu amém e concluída a súplica, os ministros da pira prendem fogo à lenha. E naquele ponto, levantando-se um grande fogareiro, viu-se, por aqueles a quem foi dado vê-lo um prodígio: O fogo, formando uma espécie de abóbada como a vela de um navio enchida pelo vento, que rodeava por todas as partes o corpo do mártir que estava no meio das chamas, não como carne que se assa mas como pão que se coze, ou como ouro e prata que se purificam no forno. E na verdade nós percebemos um perfume tão intenso como se se levantasse uma nuvem de incenso ou de qualquer outro aroma precioso. Como vissem os sem lei que o corpo de Policarpo não podia ser consumido pelo fogo deram ordem ao confector (rematador) para dar-lhe o golpe de graça afundando um punhal no peito. Cumprida a ordem brotou tal quantidade de sangue que apagou o fogo da pira e a turma de pagãos ficou estupefata de que houvesse tal diferença entre a morte dos infiéis e a dos escolhidos. Ao número destes escolhidos pertence Policarpo, varão sobre toda ponderação admirável, mestre em nossos mesmos tempos, com espírito de apóstolo e profeta, bispo enfim da Igreja Católica de Esmirna. E é assim que toda palavra saída de sua boca teve cumprimento ou o terá com certeza. Os judeus pediram ao procônsul para retirar o cadáver; não seja - diziam eles- que os cristãos, abandonando o crucificado, comecem a render culto a Policarpo. Mas os cristãos responderam: adoramos a Cristo como Filho de Deus; mas aos mártires lhes tributamos com toda justiça a homenagem de nosso afeto como a discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor insuperável que mostraram a seu rei e mestre. O centurião, ao ver a porfia entre judeus e cristãos, mandou queimar o cadáver ao uso pagão. Assim os cristãos puderam recolher os ossos, mais preciosos que pedras de valor e mais estimados que ouro puro, os quais depositaram em lugar conveniente.
MARTÍRIO DAS SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE A Marco Aurélio, o imperador filósofo, sucede o reinado de Cômodo (180 - 192) o filho degradado e insano, que quis ser coroado pelo senado, vestido como gladiador. Morreu estrangulado por um campeão de luta por instigação dos optimates. Os três meses de reinado de Pertinax, terminaram por sua vez ao ser também assassinado pela guarda pretoriana. Traz a vergonha de um Império leiloado e comprado por Dídio Juliano ao preço de 7500 denários a cada pretoriano, apareceu o reinado de Séptimo Severo, o general de origem humilde, que transformou o império numa caserna militar em que a lei foi substituída por ordens autoritárias. Não faltaram as matanças de seus inimigos, até 30 senadores, pois afirmava: "Quem quiser salvar a unidade do Império não deve por certo tempo poupar o sangue, a fim de poder pelo resto de sua vida, mostrar-se amigo dos homens". Infelizmente não teve herdeiros à sua altura. Por isso comentava-se que ou não devia ter nascido, ou não devia ter morrido. Essa sua obstinação de salvar o império acabou, pelo que diz respeito aos cristãos, num edito entre os anos 200 - 202 contra os mesmos. Estava casado com a filha de um sacerdote do Sol de origem síria, Julia Domna. Era esta partidária de um sincretismo que se concretizava em torno ao culto do Sol Invictus. Naturalmente o cristianismo era refratário a essa teoria assim como o judaísmo. Ela, sem dúvida, foi a promotora do edito. Assim o narra Esparciano, escritor da História Augusta: "Proibiu Séptimo Severo se tornar judeus sob grave castigo; o mesmo também decretou sobre os cristãos". Se o decreto de Nero determinava ut Christiani non sint (que não existam cristãos), o decreto de Séptimo será ne christiani fiant ( que as gentes não se tornem cristãs). Com o edito de Trajano os cristãos não eram perseguidos e só podiam sê-lo caso fossem denunciados de antemão. Agora era um passo mais: não se podia batizar e tornar-se cristão, e diante disso eram as autoridades cristãs as que entravam sob o peso da lei. É neste contexto que devemos narrar o martírio das santas Perpétua e Felicidade e seus companheiros no norte da África, precisamente a pátria do imperador reinante. As atas deste martírio são autênticas e um dos documentos mais admiráveis e puros que nos legou a antiguidade cristã. O mais singular deste documento é que parte do mesmo foi escrito pelos próprios protagonistas Perpétua e Sáturo, os quais no próprio cárcere relatam notas sobre as circunstâncias de sua prisão, o processo e as visões com que são confortados até mesmo a véspera de sua morte. Nesses tempos o falso profeta Montano e seu séquito de mulheres inspiradas no Espírito, comovia a Igreja do Oriente ao Ocidente, da Frígia às Gálias de Roma a Cartago. Em Roma, o papa Zeferino condenava o montanismo no ano 200 e em Cartago o ardente Tertuliano terminará adotando a nova seita do Paráclito. Isso não impede que Perpétua se comunique com o Senhor e que os mártires sejam favorecidos com comunicações divinas. Também Cipriano, de cujo montanismo ninguém suspeita, é um carismático e visionário. Também Blandina, a doce escrava dos mártires de Lion, nada sente ao ser cornada por um touro bravo, porque está em íntima conversa com Cristo. A mística não é propriedade dos iludidos, mas uma realidade dos místicos de todos os tempos.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE Chegamos às atas do martírio. O prólogo é montanista pois nele justifica-se escrever os novos documentos e revelações, que devem ser comparadas com as antigas e até se antepor às mesmas. Imediatamente nos diz que em Thuburba Minus, atual Teburba, perto de Cartago dois jovens escravos, Revocato e Felicidade, outros varões não especificados, Saturnino e Secúndulo e a nobre matrona Víbia Perpétua de vinte e dois anos, com um filho de peito, foram postos em prisão preventiva ou "custodia libera", que podia cumprir-se na própria casa, pela aplicação estrita do direito romano de Séptimo Severo, pois todos os detentos eram catecúmenos e não cristãos velhos. O catequista não se encontrava entre eles quando foram arrestados. Seu nome era Sáturo. Não sabemos se era sacerdote ou diácono. Ele não quis abandonar o pequeno rebanho e espontaneamente se uniu aos arrestados. Trataremos de resumir, sempre buscando as frases mais importantes, como trigo alimentar, e deixando a palha da redação, sem outra importância, a não ser servir de aglutinação do texto. Deus cumpre sempre o que promete, para testemunho contra os que não crêem e em benefício dos que crêem. O recopilador, continua: reproduzo o que ela, Perpétua, escreveu: "Como meu pai desejara ardentemente fazer-me apostatar disse-lhe: Vês esse utensílio aí no chão, uma orca (= vaso do feitio de uma âncora)? Acaso pode ter ele outro nome? Pois também eu não posso me chamar com outro nome: a não ser cristã. O pai, único na família que não era cristão, me maltratou com palavra e até fisicamente; logo se ausentou. No espaço de poucos dias fui batizada e o Espírito me disse que não devia pedir outra graça a não ser a paciência de sofrer em minha carne. Mais alguns dias e me encerraram num cárcere de verdade. Senti pavor pois jamais tinha experimentado trevas semelhantes. Que dia aquele tão terrível! O calor era sufocante pelo espaço pequeno e grande número de prisioneiros(estamos no norte da África na primeira quinzena do mês de maio). Os soldados nos tratavam brutalmente e eu também estava angustiada pelo meu filho. Então Tércio e Pompônio, diáconos abençoados, que nos assistiam, lograram a preço de ouro, que se nos permitisse sair umas horas a respirar em um lugar melhor do que o porão do xadrez. Saindo pois do fundo da masmorra, foi nos permitido respirar ar fresco por umas horas e eu consegui dar o peito a meu filho, meio morto de inanição. Cheia de angústia por ele falava a minha mãe, animava a meu irmão e lhes recomendava meu filho. Afligia-me vê-los sofrer por se afligirem por minha causa. Durante muitos dias me senti angustiada em semelhantes aflições. Por fim consegui que a criança ficasse comigo e desta forma me senti com novas força e aliviada pelo trabalho e solicitude com o filho. E subitamente o xadrez se transformou num palácio; de modo que preferia morar lá, antes de qualquer outro lugar. Então me disse meu irmão: "Senhora irmã, tens subido a uma alta dignidade, tão alta que podes pedir uma visão para que te manifeste se tua prisão pode terminar em martírio ou em liberdade". E eu que tinha consciência de falar familiarmente com o Senhor de quem tão grandes benefícios tinha recebido lhe prometi confiadamente: Amanhã te darei a resposta".
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE Escreve Perpétua: Após ter respondido ao meu irmão que eu lhe diria certamente o final de meu destino, naquela noite tive um sono: vi uma escada de bronze de maravilhosa grandeza que subia até o céu; mas era muito estreita de modo que só se podia subir de um em um. Nos lados da escada estavam pregados toda classe de instrumentos de ferro: espadas, lanças, arpões, punhais, estiletes; de modo que se alguém subia descuidadamente ou sem olhar para o alto, ficava atravessado e suas carnes prendidas entre os ferros. Embaixo da escada estava um dragão tendido de enorme grandeza, cujo ofício era organizar armadilhas aos que intentavam subir e espantá-los para que não o fizessem. Ora, Sáturo (o mestre na fé) tinha subido antes de mim. Quando chegou ao alto da escada voltou-se e me disse: "Perpétua te espero; mas, cuidado, não te morda esse dragão". E eu lhe respondi: "Não me fará dano em nome de Jesus Cristo". O dragão, como se me temesse, foi sacando pouco a pouco a cabeça embaixo da escada e eu, como se fosse o primeiro escalão, pisei sua cabeça. Subi e vi um jardim de imensa extensão e sentado no meio um homem de cabeça branca, vestido de pastor, de porte alto, que estava ordenhando as ovelhas. Muitos milhares, vestidos de branco o rodeavam. O pastor levantou a cabeça, olhou-me e disse: "Sejas bem-vinda filha". Do queijo que tinha nas mãos deu-me um bocado e eu o recebi com as mãos juntas e o comi. Todos os circunstantes disseram: Amém. E ao som desta voz despertei-me mastigando ainda uma coisa doce. Imediatamente contei ao meu irmão a visão e ambos compreendemos que me esperava o martírio. E desde esse momento começamos a não ter já esperança neste mundo. Daí a poucos dias correu o rumor de que íamos ser interrogados. Veio também da cidade meu pai, aflito de pena, e se aproximou de mim com a intenção de me derrubar e me disse: "Compadece-te minha filha de minhas canas; compadece-te de teu pai se é que mereço ser chamado por ti de pai. Se com estas mãos te levei até essa flor de tua idade, se te preferi a todos teus irmãos, não me entregues ao opróbrio dos homens. Olha teus irmãos, olha tua mãe e a tua tia materna. Olha teu filho que não poderá sobreviver. Depõe o ânimo; não nos aniquiles a todos, pois nenhum de nós poderá falar livremente se a ti te suceder alguma coisa". Assim falava como pai, levado de sua piedade, ao mesmo tempo que beijava minhas mãos e se jogava a meus pés e me chamava entre lágrimas, não já sua filha, mas sua senhora. E eu estava angustiada de dor por ele, pois era o único de toda minha família que não poderia se alegrar com meu martírio.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE Num momento em que estávamos comendo, de repente fomos levados, interrompida a comida, para sermos interrogados em praça pública. Congregou-se uma multidão. Subimos ao estrado. Interrogados os meus companheiros todos confessariam sua fé. Chegou meu turno. Súbito apareceu meu pai com o menino nos braços e me disse; "Compadece-te do filho tão pequenino". O procurador que tinha recebido jus gladii (poder de vida ou morte) no lugar do procônsul Minucio Timiniano acrescentou: "Tem consideração com as canas de teu pai. Tem piedade da tenra idade de teu filho. Sacrifica à saúde dos imperadores". Eu respondi: "Não sacrifico". Hilariano: "Logo és cristã?". "Sim, sou cristã". Como meu pai se mantivesse firme em seu intento de salvar-me Hilariano deu ordem para que o tirassem dali e até bateram nele. Eu senti os golpes em meu pai como se fossem dados a mim. Assim me senti afligida por sua infortunada velhice. Então Hilariano pronunciou a sentença contra todos nós, condenando-nos às feras. Como a criança estivesse acostumada a tomar o peito e permanecer comigo no xadrez, sem perder um momento enviei o diácono Pompônio para pedi-la a meu pai. Mas meu pai não quis entregá-la. Então, por quere-lo Deus, nem o menino desejou mais o leite, nem eu senti mais a comichão. Assim pedi ao Senhor que não fosse mais atormentada pela angústia do filho e pela dor de meus peitos. Passados alguns dias, e estando todos em oração, me veio à boca o nome de Dinócrates. Era um meu irmão que tinha morrido aos sete anos de um câncer no rosto. Nunca tinha pensado mais nisso e então me dei conta de que eu era digna e tinha possibilidade e obrigação de rogar por ele. Assim comecei a rezar por ele. Naquela mesma noite tive uma visão. Vi Dinócraters que saia dum lugar tenebroso onde havia também outros muitos, sufocado de calor, as vestes sujas e a cor pálida. Tinha no rosto a ferida que ocasionou sua morte. Entre ele e eu existia uma grande distância de modo que era impossível aproximar-nos. Além disso no lugar existia um poço rodeado de um muro de modo que o menino não podia alcançar a água do mesmo. Dinócrates esforçava-se para poder beber. Eu sentia pena porque aquele poço estava cheio de água até a borda e, não obstante pela altura do muro, meu irmão não podia beber. Então me despertei e senti certamente que meu irmão achava-se penalizado. Mas eu tinha certeza de que podia ajudá-lo e por isso não cessava de orar por ele todos os dias até que fomos trasladados até o cárcere castrense, pois em espetáculo castrense tínhamos que afrontar as feras.. Celebrava-se então o natalício do César Geta. Eu fiz oração por meu irmão dia e noite a fim de que por minha intercessão fosse perdoado. No dia em que permanecemos no cepo tive a seguinte visão: Vi o lugar que tinha visto antes e Dinócrates limpo de corpo, bem vestido e refrigerado; e onde antes estava a ferida, vi uma cicatriz e o poço sem o muro alto e só até o umbigo do menino. Este sacava água sem cessar. Sobre o brocal do poço havia uma copa de ouro cheia de água e Dinócrates bebia continuamente dela. A copa nunca se esvaziava. Saciada a sede, retirou-se para brincar como os meninos costumam fazê-lo. Então despertei e compreendi que meu irmão tinha saído da pena. É a primeira vez que na Igreja aparece um purgatório e a crença na eficácia da oração pelos defuntos.
SANTAS PERPÉUA E FELICIDADE Depois de alguns dias, Pudente, segundo oficial com autoridade no cárcere, começou a ter grande consideração para com os cristãos por entender que existia uma digna virtude entre os presos de tal religião. E assim admitia muitos que vinham visitar-nos com o fim de aliviar nossa solidão. Quando se aproximou o dia do espetáculo veio meu pai, cheio de pena e começou a arrancar os cabelos da barba, a se jogar no chão, pegando sua face na terra, maldizendo sua sorte e sua ancianidade e dizer tais palavras que poderiam comover o mundo inteiro. Eu sentia na alma sua infortunada velhice. No dia anterior ao nosso combate tive a visão seguinte: O diácono Pompônio vinha às portas do xadrez e chamava com força. Eu sai e abri. Vinha revestido de uma túnica branca e de chinelos de variadas cores e me disse: "Perpétua, estamos esperando-te. Vem". E me tomou pela mão e começamos a andar por lugares ásperos e tortuosos. Por fim, com muito esforço, chegamos ao anfiteatro e Pompônio me levou ao centro da arena e me disse: "Não tenhas medo. Eu estarei junto de ti e combaterei ao teu lado". E foi-se. E eis que um gentio imenso clamava enfurecido. E como eu sabia que estava condenada às feras me maravilhava não ver nenhuma em volta. Porém ai estava um egípcio de terrível aspecto, acompanhado de seus ajudantes com ânimo de lutar contra mim. Mas também ao meu lado tinha uma série de jovens formosos, dispostos a defender-me. Logo me despiram e fiquei convertida em varão. E meus colegas me massagearam com azeite, como é costume fazê-lo com os lutadores e gladiadores do circo. O egípcio entretanto, se revoltava no pó do anfiteatro. Então saiu um homem de extraordinária estatura, tanto que sobrepujava a cima do anfiteatro, vestido de túnica com um manto de púrpura e um broche no meio do peito formado por duas fivelas de ouro e calçado com chinelos revestidos de ouro e prata. Portava uma vara ao estilo de um "lanista" ou adestrador de gladiadores e um ramo verde do qual pendiam maçãs de ouro. Pediu silêncio e disse: "Se este egípcio vencer a mulher, a matará com sua espada; mas se a mulher fosse a vencedora, ela receberá este ramo". E retirou-se. Aproximamo-nos um do outro e começou um combate de pugilato. Ele tratava de me agarrar pelos pés, mas eu lhe batia com meus talões. Então fui levantada no ar e comecei a feri-lo como quem não pisa a terra. Mas como entendi que o combate se prolongava, juntei as mãos de forma a entrelaçar os dedos e agarrei assim a testa dele e caiu no chão e pisei sua cabeça. O povo prorrompeu em gritos de vitória e meus partidários entoaram um hino de vitória. Eu me aproximei do lanista e ele me deu o ramo, me beijou e me disse: "Filha, a paz esteja contigo". Eu me dirigi exultante de alegria para a porta Sanavivaria ou dos vivos e naquele momento acordei. E entendi que meu combate não devia ser travado contra as feras mas contra o diabo; porém estava certa de que a vitória estava do meu lado. Tais foram os fatos acontecidos até o dia anterior ao combate. O que aconteceu no combate se alguém esteve presente que o escreva. Até aqui temos o relato de Perpétua que outros, como veremos, completaram.
SANTAS PEERPÉTUA E FELICIDADE Vamos expor um outro relato, o de Sáturo, escrito de sua própria mão. Sonhou que ele e os companheiros tinham sofrido já o martírio. Nesse instante -escreve- tínhamos saído da carne e quatro anjos nos transportavam em direção ao Oriente (era onde nascia a vida, porque era onde nascia o sol). Suas mãos não nos tocavam e ascendíamos como quem sobe uma colina. Passado o primeiro mundo (o da terra) vimos uma luz imensa e eu disse a Perpétua: "Isto é o que o Senhor nos prometia. Já temos cumprida a promessa. E entanto éramos conduzidos pelos quatro anjos, abriu-se diante de nós um grande espaço como um vergel, cheio de rosas e toda classe de flores. A altura das roseiras era como a de um cipreste e suas folhas caiam no chão continuamente. No vergel encontramos outros quatro anjos mais gloriosos que os que nos acompanhavam e quando nos viram gritaram: "São eles, são eles!" Os quatro anjos que nos conduziam nos deixaram no chão e atravessamos andando um largo caminho como de cem metros de comprimento. Ali encontramos Jocundo, Saturnino e Artásio, queimados vivos antes na mesma perseguição, junto com Quinto, morto no cárcere. Perguntamos onde estavam os outros e os anjos nos disseram: "Vinde primeiro e saudai o Senhor". Assim pois, chegamos a um lugar cujas paredes pareciam ser de pura luz, e antes de entrar os quatro anjos da porta nos vestiram de vestes brancas. Entramos e ouvimos uma voz uníssona que repetia: "Agios, Ágios, Agios" (= Santo, Santo, santo) sem interrupção. E vimos sentado num trono um ser que parecia um homem com cabelos brancos porém de aspecto juvenil. Mas não podíamos ver seus pés. Na sua destra e na sua esquerda estavam quatro anciãos e detrás estavam os demais anciãos em crescido número. Entrando, paramos atônitos diante do trono; porém os quatro anjos nos levantaram do chão e beijamos o Senhor, que nos acariciou o rosto com a mão. E os outros anciãos disseram : "Firmes!" E assim estivemos e os beijamos com o ósculo da paz. E os anciãos nos disseram: "Ide e brincai". E eu disse a Perpétua: "Já tens o que desejavas". E ela me respondeu: "Graças a Deus que fui alegre na carne; mas aqui me encontro mais alegre ainda". Saímos dali e encontramos o bispo Optato à direita e Aspásio, presbítero à esquerda, separados um do outro e tristes. E se lançaram aos nossos pés e nos suplicaram: "Ponde paz entre nós, pois tendes saído do mundo e nos deixastes desta forma separados". E lhes respondemos: "Não és tu nosso Pai e tu nosso sacerdote? Como é que vos humilhais prostrando-vos aos nossos pés? Comovemo-nos e nos abraçamos. Perpétua começou a falar com eles em grego e nos retiramos com eles ao vergel, embaixo de uma roseira. Mas enquanto falávamos com eles os anjos lhes disseram : "Deixai que gozem sem se preocupar; e se tendes entre vós distensões, perdoai-vos mutuamente. E disseram a Optato: "O que deves fazer é corrigir teu povo, pois se reúnem contigo como se saíssem do circo contendendo cada um por seu bando (o circo era onde as corridas de carros dividiam, como hoje o futebol, os partidários dos aurigas, separados pelas cores). E pareceu como se quisessem fechar as portas. E reconhecemos ali muitos irmãos, especialmente os mártires. Todos nos sentíamos confortados por uma fragrância indescritível que nos satisfazia. Então me despertei cheio de gozo. É interessante como aparece a intercessão dos santos mártires para, por seu intermédio, obter a paz dentro das distensões da Igreja.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE Felicidade, a escrava, também teve sua correspondente graça da parte do Senhor. Estava no oitavo mês da sua gravidez e temendo não conseguir a palma do martírio por causa de sua prenhez, já que a lei romana impedia a execução das mulheres grávidas, achava-se sumida em grande tristeza. O mesmo acontecia com os colegas de martírio, pensando que deviam deixá-la sozinha como caminhante solitária pelo caminho da comum esperança. Juntando, pois, em um só os gemidos de todos, fizeram oração ao Senhor, três dias antes do espetáculo no anfiteatro. Terminada a oração, começou Felicidade a sentir as dores de parto. E como ela gritasse, se queixando da dor de um parto difícil, disse-lhe um dos oficiais da prisão: "Tu que assim te queixas agora, que farás quando fores atirada às feras que desprezaste, quando não quiseste adorar o César? E ela respondeu: "Agora sou eu que sofro a dor que padeço; mas no anfiteatro haverá um outro em mim que padecerá por mim; pois também eu padecerei por Ele". E assim deu à luz uma menina que uma das irmãs criou como filha. Ora: Já que o Espírito Santo permitiu e quis que se escrevesse todo o desenvolvimento do combate, por mui indignos que nos sintamos para descrever semelhante glória, vamos executar um "fidei comisso" da santa mulher Perpétua contentando-nos em acrescentar um documento, testemunha de seu constante e sublime ânimo. Como o tribuno os tratasse com demasiada dureza, pois temia que fugissem do cárcere por arte de ocultos e mágicos encantamentos, Perpétua o encarou e lhe disse: "Como é que não nos permites alívio algum, sendo como somos réus nobilíssimos, pois devemos lutar no natalício do César? Ou não é glória tua que nos presenteemos a ele com o melhor dos aspectos?". O tribuno sentiu medo e vergonha e assim deu ordens para que os tratassem mais humanamente de modo que autorizou a entrar no cárcere os irmãos dela e dos outros e que pudessem se consolar mutuamente, máxime que o vice-diretor do cárcere tinha abraçado a fé. Igualmente no dia anterior ao suplício, ao tomar aquela ceia que chamavam livre, que eles converteram num ágape, dirigiram-se ao povo com ousadia, ameaçando-lhes com o julgamento divino, e testemunhando a alegria do martírio. Sáturo, mofando-se da curiosidade dos concorrentes, condenados por motivos outros, dizia: "Não tendes o bastante com o dia de amanhã? Por que olhais com tanto prazer o que aborreceis? Hoje amigos, amanhã inimigos. Porém fixai os nossos rostos para que os possais reconhecer no último dia (o do julgamento final). Deste modo retiravam-se envergonhados e muitos abraçaram a fé.(continua)
SANTAS PERPÉTUA E
FELICIDADE Contra as mulheres preparou o tribuno uma vaca brava que até no sexo emulava a inteireza de ambas. Nuas e envoltas numa rede, foram levadas ao espetáculo. O povo sentiu vergonha ao contemplar uma jovem delicada e uma mulher mãe recente com os sinais da maternidade ainda visíveis. Por esta razão, foram retiradas para que vestissem uma túnica. A primeira a ser atacada foi Perpétua que, como se fosse uma boneca, foi lançada ao alto, caindo de costas; mas, apenas se incorporou, recolheu a túnica desgarrada e cobriu a coxa, acordando-se antes do pudor que da dor . E pedindo uma agulha recolheu os cabelos, pois não era decente que uma mártir sofresse com a cabeleira esparsa, para não dar aparência de luto no momento de sua glória (as mulheres soltavam os cabelos como sinal de luto). Assim composta, se levantou e como visse Felicidade tendida no chão acercou-se, deu-lhe a mão e a levantou. E ambas juntas se mantiveram de pé e vencida a dureza do povo foram levadas à porta Sanavivaria( dos gladiadores vencedores). Lá foi recebida por Rústico, catecúmeno e amigo e como se despertasse de um sonho, ante o estupor de todos disse: "Quando soltarão a vaca brava contra nós?" Havia estado em êxtase e não sabia o que tinha acontecido. Mas vendo as feridas do corpo admitiu os fatos. Chamou seu irmão, então catecúmeno, e lhe disse para permanecer firme na fé, para amar os cristãos. Sáturo por sua parte exortava o soldado Pudente dizendo: Certamente como predisse nenhuma fera me tocou. Mas verás como um leopardo de uma dentada vai acabar comigo. E quando o espetáculo estava para terminar, foi solto um leopardo que de uma só dentada banhou o corpo do mártir em sangue de modo que o povo gritou: Bom banho! Sem dúvida cortou a carótida; e ao expirar disse ao soldado Pudente: lembra-te da fé e que estas coisas não te perturbem, mas te confirmem na mesma. E molhando um anel no sangue o entregou ao soldado como herança. Exânime foi levado para ser rematado com os outros no lugar acostumado. Mas o povo quis vê-los morrer no anfiteatro pela espada que devia atravessar seus corpos. E eles espontaneamente se levantaram e entraram na arena. Antes beijaram-se com o ósculo da paz. Todos imóveis e em silêncio se deixaram traspassar pelo aço. Perpétua como sentisse que a espada não ia feri-la no lugar certo, com suas próprias mãos levou a ponta à garganta para que o gladiador a ferisse certeiramente. padre Ignácio, dos padres Escolápios |