A moral tem implicações
políticas e econômicas. Na Idade Média, a Igreja condenava os juros. Hoje, se
tal censura perdurasse, nenhum católico poderia ser banqueiro ou agiota. Mas,
por ironia do destino, o próprio Vaticano possui o Banco do Espírito Santo...
A ética protestante sempre recomendou a seus fiéis afinco no trabalho e modéstia
nos gastos, incentivando a poupança. Alguns autores acreditam que tal ética foi
decisiva para enriquecer países de forte tradição protestante, como a Alemanha,
a Suíça e os EUA.
No capitalismo, a moral predominante na sociedade é ambígua e contraditória,
pois o valor maior para o sistema é a acumulação do capital. Assim, na "moral"
desse sistema a propriedade privada é um valor acima da existência humana.
Para a doutrina da Igreja, se
um homem tem fome ele tem o direito de fazer uso da propriedade alheia. "Maior e
mais divino é o bem do povo que o bem particular", lembra São Tomás de Aquino
(De Regimine Principum - Sobre o governo dos príncipes - 1, I Cap. 9).
A lógica do capital destrói os valores morais e corrói a ética. O mesmo
comerciante que chama a polícia para o garoto que lhe furtou a lata de
sardinhas, aumenta os preços de modo exorbitante e sonega o fisco.
Foi feita uma pesquisa nos EUA para saber em que fase da vida uma pessoa consome mais. Verificou-se que é quando ela casa. Um casamento sempre desencadeia consumo, desde as alianças à nova casa, passando pela roupa dos convidados aos presentes. Resultado, "façamos com que as pessoas se casem várias vezes". Não é de estranhar que as novelas considerem caretice a fidelidade e incentivem tanto a rotatividade conjugal.
Na política burguesa, a luta
pelo poder faz com que o fim justifique os meios. Porém, a história demonstra
que o meio utilizado influi no caráter do fim a ser obtido.
Muito se discute, ao longo dos tempos, sobre a ligação entre moral e política.
Há quem defenda que a política deve ser autônoma ou independente em relação à
moral. Tal proposta é atribuída ao famoso politicólogo italiano Maquiavel
(1469-1527). Daí por que se chama de maquiavélica toda atitude política que
ignora os preceitos morais. De fato, foi Maquiavel quem sugeriu aos poderosos o
princípio de que 'o fim justifica os meios', em seu famoso livro, O Príncipe.
O grande desafio da política
libertadora é basear-se na ética. Não se pode construir o homem e a mulher novos
usando métodos velhos. Quando se lança mão de mentiras, de difamações, de
trambiques, para ganhar o que se deseja, de fato se está perpetuando a velha
sociedade opressora em nome de ideais libertários. Isso é o que o Evangelho
chama de colocar vinho novo em odres velhos.
A ética enraíza-se no coração humano. Não é só uma questão de comportamento
político. Ela só adquire força quando se encarna na vivência pessoal. O opressor
age movido por interesses; o libertador, por princípios. Assim, jamais um
militante da justiça pode aceitar desviar verbas, fraudar processos eleitorais,
mentir para o povo ou fazer uso do que é coletivo para benefício pessoal.
"Aquele que é fiel nas pequenas coisas - adverte Jesus - é também fiel nas
grandes, e aquele que é injusto no pouco, também o é no muito" (Lucas 16,
10-12).
Frei Betto