MULHERES E PODER*
As securas do poderA mulher, o balde e o
poder
Uma história que sempre me impressiona nesta discussão de poderes e acessos e
não acessos é o texto de Jo. 4, da samaritana que encontra Jesus e juntos
estabelecem um diálogo teológico profundo.
Este texto aponta para diversas rupturas em questões de poder. Uma ruptura que
quero destacar aqui é a que Jesus entra em território da mulher, se aproxima de
um poço, que é outro espaço das mulheres. Naqueles dias, e ainda hoje, as
mulheres são responsáveis em providenciar a água. Cisternas, poços e fontes de
água representam para as mulheres a extensão do mundo privado para dentro do
mundo público. As mulheres conhecem este espaço e as regras que orientam o seu
uso (Gn 21,19; 24,11-17). É este espaço que Jesus adentra. É um espaço da
mulher, da samaritana. É sua terra. Por isso, ele pede água. É ela quem tem o
instrumental de acesso à água: o balde. Por isso, ela estranha quando ele lhe
oferece água. “Senhor, tu não tens com o que tirar, e o poço é fundo, onde,
pois, tens a água viva?” (v.11). Esta fala demonstra um saber, um conhecimento
em assuntos de poços e como se tira água. O instrumental está nas mãos dela, e
ela faz questão de interrogar aquele homem que lhe quer oferecer algo que ela
tem como conseguir.
É este movimento que quero destacar para discutir relações de poder. O poder não
se dá, não se concede, não se permite. O poder vem das relações e vem de dentro.
O poder está nas mãos da samaritana, quando ela questiona e discute sobre o seu
saber com Jesus. O poder está com Jesus quando ele a questiona perguntando por
outras águas que saciam outras sedes. Jesus não dá poder a ela. Ambos
estabelecem relações nas quais o poder circula e se movimenta. Esta é uma
perspectiva que é poderosa, pois estabelece relações que pressupõem sujeitos
ativos e participantes na trama social.
Encharcando-se de poder
Esta perspectiva de abordagem do texto da samaritana que encontra Jesus no poço
permite a discussão da temática do poder a partir de elementos que conformam a
realidade cotidiana das pessoas. Esta é a perspectiva da Teologia Feminista que
se constrói a partir da premissa de tomar as experiências cotidianas como lugar
de reflexão teológica. Perguntas pelos novos paradigmas como o cotidiano, a
experiência, a subjetividade, são tópicos que ensaiam uma outra proposta de
construção do saber e do poder. Apontam para caminhos metodológicos que
redefinem o poder como uma dinâmica que permeia as relações pessoais e sociais.
Esta é uma postura que concebe o poder não unicamente a partir de suas ações
coercitivas e negativas, mas resgata os seus elementos positivos e produtivos.
“O poder não apenas nega, impede, coíbe, mas também “faz”, produz, incita,”****,
conforme as palavras de Guacira Lopes Louro. Essa forma de exercer o poder é
explicitar que temos acesso a mecanismos de poder. Implica não assumir a posição
de vítimas. Como mulheres estamos inseridas nas tramas de poder que conformam a
sociedade e as instituições que nela se estruturam. O que passa é que muitas
vezes, como sujeitos sociais marginalizados, as mulheres não têm acesso ao poder
de mando, de definir conceituações e de exercer autoridade.
Entender que o poder é dinâmico e se mistura nas nossas relações ajuda no
processo de tornar as mulheres sujeitos de suas ações. Tornar-se sujeito implica
assumir as responsabilidades e nomear a sua existência. É o que se tem definido
de processo de empoderamento das mulheres. Nesta dinamicidade não se pode
afirmar que, uma vez conquistado, o poder está com as mulheres. Assumir espaços
de poder e de significação de poder requer um exercício cotidiano de avaliação,
de reflexão e de abertura. Esta postura impede que haja cristalizações nos
espaços de poder.
Os papéis e as construções de gênero são produzidos nas e pelas relações de
poder. Aquilo que as sociedades, através de suas convenções culturais,
constroem, para definir os entendimentos acerca do que se entende por feminino e
masculino, insere-se nas dinâmicas de distribuição de poder. Na sociedade
patriarcal, androcêntrica (centrada num modelo hegemônico e idealizado de
homem), as concepções em torno do masculino são a regra que normatiza e delimita
os gêneros. A norma é definida pela masculinidade hegemônica. Tudo o que não se
encaixa nesta máxima é a exceção, é o outro, é feminino, e, portanto, inferior,
marginalizado e excluído.
Contudo, na dinâmica de entender o poder como força que se constitui nestas
relações, esta posição de ser outro que as mulheres ocupam não está destituída
de mecanismos de poder. Em outras palavras, ter um espaço delimitado, que
normalmente é o doméstico, não quer dizer que as mulheres não possam transformar
as situações de não-poder aparente, nos moldes da oficialidade, em situações de
poder. É um poder que se conforma na resistência, nas entrelinhas e nas margens,
mas é poder. Se não, não poderíamos analisar as resistências das mulheres como
força que as mantém vivas.
O que estou propondo é que os mecanismos de análise tradicional que normalmente
são usados para “medir” o poder sejam desmantelados. Se seguimos no esquema
tradicional de ver quem ocupa os espaços, normalmente imbuídos de poder,
constatamos que são os homens, ou algumas mulheres, que recebem a permissão
patriarcal de acessar o poder. Já temos, contudo, ensaios de poder de forma
diferenciada. Um poder que foi conquistado pela organização, pela pressão, pela
resistência, muitas vezes silenciosa de tantas mulheres, muitas anônimas. É esta
situação de poder que quero destacar. É o poder que se dinamiza, pois assume
formas e jeitos diferenciados. Não unicamente porque é exercido por mulheres,
pois isto reforçaria uma visão ingênua e essencialista de que as mulheres são
mais sensíveis e democráticas. Mas porque a história de resistência, que se
inscreve nos corpos das mulheres, imprime uma marca de exercício de poder que se
molda na luta, nos espaços pequenos, nas brechas e fendas, às margens.
Esta é a idéia de poder que se localiza não unicamente no poço, a partir da
história da samaritana, mas que se localiza no balde, na caneca, na concha, pois
é o instrumento que se usa para tirar a água. O instrumental colocado a serviço
e socializado permite o acesso ao poço a mais pessoas. O saber socializado, de
como se usa o instrumental, colabora no processo de apropriação e democratização
dos espaços de poder.
Elaine Neuenfeldt**
*Texto publicado no Boletim Por Trás da Palavra, n. 146, jan.-fev./2004.
**Elaine Neuenfeldt é coordenadora da Dimensão de Gênero do CEBI e diretora
adjunta da mesma organização. Pastora Luterana, é titular da cadeira de Teologia
Feminista na EST – Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo-RS.
***MAASSEN,Monika. Poder/Domínio. In. GÖSSMANN, Elisabeth, et alli (Org.).
Dicionário de Teologia Feminista. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 396.
****LOPES LOURO, Guacira. Gênero, sexualidade e educação. Uma perspectiva
pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 40.