Católicos na Política em vista
das
próximas eleições de outubro de 2004
Diante do panorama mundial e brasileiro, marcado por muitos episódios de corrupção, violência e impunidade, não podemos lamentar saudosamente a perda de pontos de referência éticos na sociedade atual. A nossa ação como Igreja é, sobretudo, uma ação educativa em vista da promoção humana, que, por sua vez, é um aspecto essencial da própria evangelização. Por isso antes da ação política, é urgente desenvolver, segundo a indicação da CNBB, nos vicariatos e nas regiões da nossa arquidiocese, núcleos de Pastoral da Educação.
É necessário que cada um se envolva num movimento educativo, que recrie o tecido quotidiano da convivência social, subtraída progressivamente à lógica do mercado e a seus critérios, caracterizados pelo cálculo e pelo intercâmbio de equivalentes. Movimentos educativos, que constituem uma companhia guiada ao destino, capazes de gerar espaços de gratuidade e de vida fraterna, de reconhecimento da grande Presença - que é caminho, verdade e vida - existem e podem renovar o gosto pela convivência, a paixão pelo homem, um amor à verdade maior do que o próprio interesse particular e, podendo, plasmar relações humanas e sociais no horizonte de uma idéia.
Nesta perspectiva, é essencial a presença e a ação dos cristãos, e particularmente dos cristãos leigos na vida política e nas próximas eleições.
Foi realizado, em dezembro de 2003, um encontro promovido pela Pastoral dos Políticos católicos que reunia 10 pessoas por vicariato mais 10 pessoas ligadas a movimentos eclesiais, que estavam vivamente interessadas no problema político e que tinham intenção de apresentar-se como candidatas nas próximas eleições municipais. Este encontro traçou as linhas mestras que norteiam a nossa atividade nesta circunstância.
O candidato católico deve ter como ponto de referência da sua ação política e social a Doutrina Social da Igreja nos seus elementos fundamentais, a saber:
Neste ano de 2004, continuaram as reuniões da Pastoral de políticos católicos, e chegamos a realizar, no início de maio, um encontro entre os políticos que participam desta Pastoral e os Vigários Episcopais. Foi um encontro muito proveitoso, e se decidiu realizar, quanto antes, encontros nos vários vicariatos com aqueles católicos que querem se apresentar às próximas eleições ou que estão diretamente interessados na vida política.
Além de ter a Doutrina Social da Igreja como ponto de referência, foram indicados outros pontos essenciais para a escolha de um bom candidato, como segue:
apareça só nas eleições.
Nestes encontros vicariais, deve-se tentar também, o quanto isso for possível, uma seleção dos candidatos, para evitar a pulverização. Assim se poderia chegar a um “voto vicarial” segundo o qual os candidatos não são indicados diretamente pela autoridade eclesiástica, como acontece em algumas novas agregações religiosas, mas definidos por meio de um consenso com base no conhecimento e na aprovação dos párocos e dos fiéis. Este é o aspecto mais delicado da questão que manifesta a nossa fraqueza e, ao mesmo tempo, a força da Igreja, que é o respeito do Pluralismo. Em casos particularmente graves, como aconteceu na Itália, na Alemanha e na França, a Igreja interveio diretamente, indicando partidos e candidatos. A orientação da Igreja no Brasil, e particularmente na Arquidiocese do Rio de Janeiro, não é essa, ou parece que ainda não seja essa.
De qualquer forma, é claro que o voto deve ser dado a candidatos católicos, ou que defendem os princípios da Doutrina Social da Igreja, e que sejam ligados às nossas comunidades. Desejaríamos chegar, como afirma Dom Eusébio, a uma indicação muito clara de que “católico vota em católico”. O nosso povo deve ser educado a ser sempre mais protagonista da ação política, e não apenas em tempo de eleições. É muito importante que seja alertado a não dar o seu voto a candidatos que se auto-proclamam “bispos” e que, de forma enganosa, roubam o consenso dos mais simples com fala mansa e com um habilíssimo jogo de marketing.
Uma ajuda na formação do nosso laicato será a implantação de uma Escola de Formação Política, mas este será o trabalho de outro padre ou bispo auxiliar junto com a Pastoral dos Políticos.
Todo o nosso compromisso político em vista das próximos eleições depende do fato de que o cristão não pode testemunhar o anúncio com a fácil afirmação de sua fé apenas no mundo fechado das sacristias e dos encontros internos das Igreja. A religiosidade autêntica que Jesus trouxe à história humana, e que a Igreja católica continua propondo, incide profundamente na realidade e nos problemas concretos da humanidade e da nossa cidade.
O trabalho político, ao qual todos, padres e leigos, somos chamados, cada um segundo uma sua especifica modalidade, é uma forma de mostrar a incidência do evangelho na vida concreta em vista da construção do bem comum. É também uma proposta de esperança real nesta sociedade desnorteada e ferida; a esperança que se baseia no Evangelho e que diz respeito à vida toda.
Dom Filippo Santoro, Bispo de Petrópolis