UMA PARÁBOLA DE COMUNHÃO
O beato João XXIII referia-se a Taizé como uma pequena primavera. O papa João Paulo II disse que Taizé é uma fonte onde o caminhante bebe a água viva prometida pelo Cristo. Mas, o que é Taizé? Qual o seu segredo?
Roger era um jovem europeu de 25 anos, no ano de 1940. O continente estava em
guerra. Ele vivia no seu país de origem, a Suíça, que não estava envolvida no
conflito. Pois, ele deixou seu país e foi ajudar aos necessitados na França. Aí,
inicia-se o que é hoje a comunidade monástica de Taizé, uma fraternidade
ecumênica de irmãos consagrados.
Irmão Roger comenta que as raízes de seu projeto estão em uma de suas avós. Ela
vivia no nordeste da França durante a Primeira Guerra Mundial. Os seus três
filhos lutavam no conflito e, como era viúva, permaneceu só. Mesmo sob o fogo
dos bombardeios, ela ficou em casa para poder receber os que fugiam: anciãos,
crianças, mulheres, grávidas. Só partiu no último instante, quando todos tiveram
que fugir.
Esse episódio a fez ansiar por uma Europa reconciliada. Ela não se conformava
que cristãos divididos se matassem, por isso desejava que esses se
reconciliassem para tentar impedir uma nova guerra. Como era de origem
evangélica, deu um passo de reconciliação indo ao encontro da Igreja Católica.
Essas duas aspirações de sua avó marcaram a vida do jovem Roger: arriscar-se por
causa dos mais maltratados e se reconciliar com a fé católica.
Quando era mais novo, o jovem ficou imobilizado durante vários anos de vida por
causa de uma tuberculose pulmonar. Educado nos preceitos cristãos de confissão
evangélica, durante a longa enfermidade, amadureceu um desejo de criar uma
comunidade onde a simplicidade e a bondade do coração seriam vividas como
realidades essenciais do Evangelho.
No momento em que começou a Segunda Guerra Mundial, teve a certeza de que, tal
como sua avó tinha feito, deveria também ajudar aqueles que sofriam com a
provação da guerra. Por isso, foi para a França. À procura de uma casa para o
seu monastério chegou até Taizé, uma pequena aldeia da região francesa da
Borgonha, a poucos quilômetros da linha de demarcação que cortou a França em
dois. Olhando a casa que estava à venda, uma mulher idosa, a quem ele contou
sobre seu projeto, disse-lhe: “Fique aqui, estamos tão isolados”. Foi para ele
como a voz de Deus, instruindo-o sobre a missão.
Casa de irmãos
Nessa casa que adquiriu, irmão Roger começou a esconder refugiados políticos que
fugiam da ocupação nazista alemã, principalmente judeus. Os meios materiais eram
pobres e escassos. Sem água corrente, buscavam água potável no poço da aldeia e
a comida era sopa feita de farinha de trigo comprada a preço baixo num moinho
vizinho.
Irmão Roger já vivenciava sua consagração e rezava sozinho três vezes ao dia num
oratório. Fazia assim por respeito àqueles que acolhia. Em 1942, a França foi
ocupada e a polícia do nazismo ocupou a casa. Felizmente, irmão Roger conseguiu
fugir para a Suíça. Retornou em 1944, acompanhado dos primeiros irmãos que
haviam se reunido a ele. Começaram a trabalhar com órfãos e prisioneiros da
guerra. Aos poucos, alguns jovens vieram juntar-se aos primeiros irmãos e, na
Páscoa de 1949, todos se comprometeram a uma vida de celibato, partilha
comunitária e de grande simplicidade. No começo, os irmãos eram de origem
evangélica, mas o sonho da avó do irmão Roger passou a se concretizar no
monastério do neto: jovens católicos quiseram se unir e se consagrar na
fraternidade.
Hoje, a Comunidade de Taizé reúne uma centena de irmãos católicos e de diversas
origens evangélicas, vindos de mais de 25 países. Ela é um sinal de
reconciliação entre cristãos divididos, entre povos separados. Busca ser um
lugar de comunhão e reconciliação entre os homens, sinal de confiança e paz
entre os povos.
A comunidade não aceita para si nenhum donativo, nenhum presente, nem as
heranças pessoais. Tudo é repassado aos pobres. A comunidade vive unicamente do
trabalho feito pelos irmãos.
Casa dos pobres
Uma
das perguntas para aquele que quer se consagrar na fraternidade é se a pessoa
quer, percebendo sempre o Cristo em seus irmãos, velar por eles nos bons e nos
maus dias, no sofrimento e na alegria. Essa máxima não deve ser vivida só entre
os irmãos da comunidade, mas se estender aos mais carentes.
Na década de 50, os irmãos passaram a ampliar seu trabalho e se deslocaram para
lugares desfavorecidos do mundo. Resolveram criar comunidades em lugares onde
pudessem, como testemunhas de paz, estar ao lado dos que sofrem. Em pequenas
fraternidades, eles vivem em bairros degradados na Ásia, África e América
Latina.
Procuram partilhar as condições de vida dos que o rodeiam, esforçando-se por
serem uma presença de amor junto dos mais pobres, dos meninos de rua, dos
prisioneiros, dos moribundos, dos que estão interiormente feridos pelo abandono
dos seus ou da sociedade.
Os irmãos são presença afetiva e de transformação das condições de vida dessas
populações carentes. No Brasil, a Comunidade Taizé de Alagoinhas (BA) trabalha
com as crianças, os jovens e os idosos no bairro em que moram.
Casa de oração
Os
irmãos mantêm o costume diário de três momentos de oração. Elas são feitas na
Igreja da Reconciliação que existe em todas as comunidades. Ao chamado dos
sinos, os irmãos da comunidade, com vestes brancas, vêm ajoelhar-se, rodeados
pelos jovens e peregrinos de passagem. A oração é simples: cantos, um salmo, uma
leitura bíblica, silêncio, intercessão.
No desejo de acolher a todos, a comunidade procura tornar a oração o mais
acessível possível. Uma forte característica de Taizé são os cantos que ajudam e
levam para a oração. Breves textos bíblicos e frases da antiga tradição cristã
foram musicados de forma simples e são repetidos várias vezes.
Essa forma de canto não termina e ainda fica soando ao ouvinte quando esse está
só. Torna-se uma prece subjacente aos gestos, às conversas, ao trabalho, à vida
cotidiana. Os cantos de Taizé já se espalharam no mundo todo e já foram
traduzidos para diversas línguas. Até crianças participam com tranqüilidade e de
forma efetiva das orações e cantos em Taizé.
Casa de acolhida
Uma
das características mais marcantes de Taizé deve ser a acolhida. E os jovens
logo começaram a perceber esse dom ao visitarem Taizé. A comunidade-mãe, já pelo
ano de 1957, passou a acolher um grande número de jovens de diversos países. De
Portugal, Suécia, Escócia, Polônia, Alemanha vinham jovens para passarem uma
semana e experimentarem o silêncio, buscarem as fontes da fé, vivenciarem a
comunhão.
O número cresceu tanto que foi necessária a ajuda de outras congregações. Em
1966, as Irmãs de Santo André, uma congregação religiosa católica fundada há
mais de sete séculos, passaram a ter uma casa numa aldeia vizinha a Taizé para
acolher os jovens. Mais tarde, vieram as Irmãs Ursulinas para também ajudarem no
acolhimento.
Dessas visitas surgiram os encontros intercontinentais de jovens. Eles acontecem
desde o início da primavera até o fim do outono europeu. Constituem uma semana
de oração e partilha, de contato com a Bíblia, com os irmãos da fraternidade e
com outros jovens de diversos países. Todos os dias, os irmãos fazem introduções
bíblicas que serão refletidas durante o dia. Os jovens têm tarefas práticas de
meditação, solidariedade e comunhão. Alguns participam em silêncio da semana
para aprofundarem o sentido de suas vidas.
Nas semanas do verão, é comum ter mais de 5 mil jovens de dezenas de países
diferentes participando do encontro. Eles se juntam numa aventura comum em busca
das fontes da fé e conseqüentemente das fontes da realização humana plena.
Também já ocorrem encontros com adultos e com famílias.
Cada um é convidado, depois da sua passagem por Taizé, a viver na sua casa o que
descobriu, com maior consciência da vida interior que o habita, bem como das
suas relações com tantos outros, empenhados na mesma procura do que é essencial.
Casa de Confiança
Em
1970, o irmão Roger lançou a idéia de um concílio de jovens para promover a
esperança entre a juventude. O primeiro aconteceu em 1974 e foi grande o seu
sucesso. A idéia foi amadurecendo e transformou-se em Jornadas de Confiança, que
geralmente ocorrem em alguns dias anteriores e posteriores à passagem de ano.
Num período em que a juventude experimenta o desânimo e se afasta da Igreja, as
Jornadas provocam nela a confiança de tomar parte ativa na reconciliação dos
cristãos e na construção da paz.
Essa peregrinação de confiança não organiza os jovens em um movimento em torno
de Taizé, mas os estimula a tornarem-se criadores de paz onde moram, portadores
de reconciliação na Igreja, no bairro, na paróquia e com todas as gerações.
Irmão Roger escreve uma carta para a Jornada de Confiança. Ela servirá como
meditação e aprofundamento para os jovens e para as comunidades Taizé durante o
ano que se inicia.
Nos encontros europeus, os jovens são acolhidos pelas paróquias em casas de
família e de encontros. A última ocorreu em Paris (França) e a Jornada de
Confiança 2003/04 acontecerá em Hamburgo (Alemanha). Nos países que têm
comunidades Taizé, também ocorrem as jornadas.
Taizé que ser com seus gestos e símbolos um sinal que fala e faz vislumbrar,
para além das dificuldades presentes, a esperança de um reflorescer da Igreja,
uma Igreja que seja terra de partilha, fermento de reconciliação e comunhão no
coração da humanidade. *
Taizé no Brasil
O
primeiro contato da Comunidade Taizé com bispos da América Latina foi no
Concílio Vaticano II. Um desses foi dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e
Recife (PE). A partir de 1967, os irmãos de Taizé começaram uma experiência de
convivência ecumênica com os monges beneditinos de Olinda.
Essa experiência durou até o final de 1971, quando os irmãos se mudaram para
Vitória (ES), a convite dos bispos dom Jaime Motta e dom Luís Fernandes.
Foram seis anos em Vitória participando do surgimento das Cebs (Comunidades
Eclesiais de Base) e dos primeiros encontros intereclesiais. Também organizaram
vários encontros regionais de juventude.
A pequena moradia em Vitória impedia a acolhida para a realização de encontros e
retiros, que é uma das características da Comunidade de Taizé. Dom José Cornelis,
primeiro bispo da Diocese de Alagoinhas (BA), sabendo que os irmãos estavam
procurando outro lugar, escreveu uma carta, convidando-os para abrir uma casa em
Alagoinhas. Em maio de 1978, os irmãos se instalaram nessa cidade.
Atualmente, são sete irmãos na fraternidade, sendo dois brasileiros. Vivem no
mesmo ritmo que Taizé da França. Têm um centro de encontros e criaram no bairro
carente em que vivem uma instituição, a Fundação do Caminho. Ela é uma entidade
filantrópica voltada para o desenvolvimento da população do bairro.
A Fundação já coordenou a construção de mais de 100 casas, mantém um abrigo de
idosos, uma creche, uma escola e cursos profissionalizantes. Está iniciando um
trabalho de resgate da identidade afro, já que a maioria da população é negra.
Desde 1997, os irmãos de Taizé de Alaigonhas vêm organizando Jornadas de
Confiança. A última foi em Aracaju (SE). Para o ano de 2004 estão marcadas duas
Jornadas: uma em El Alto (Bolívia) e a outra em Goiás (GO).
Contato: (75) 422-4748
Frases do Irmão Roger:
“O que fascina em Deus é a sua humilde presença. Ele jamais castiga, nem fere a dignidade humana. Não se impõe para ser obedecido.”
Unido ao Cristo, você sabe que luta e contemplação têm uma mesma e única fonte: se você reza, é por amor; se luta para devolver um rosto humano ao mais maltratado, é também por amor.”
“Você que deseja seguir Cristo, lembre-se de que, seguindo-o, você será irresistivelmente arrastado à partilha e a uma grande simplicidade de vida.”
“Tornar a terra habitável para todos, para os que estão perto e para os que estão longe, é uma das belas páginas de Evangelho a ser escrita por nossa vida.”
Diácono Reinaldo Braga
Artigo retirado
da Edição 88 - pág. 14