TABACO & TABAGISMO
Um panorama histórico, científico e cultural de um dos hábitos mais difundidos
do planeta
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O consumo de tabaco é um hábito fortemente
arraigado ao cotidiano de mais de um terço dos habitantes da Terra.
Originário das Américas, foi introduzido na Europa após os Grandes
Descobrimentos luso-espanhóis, cultuado durante os séculos XVIII e
XIX e rechaçado a partir do século XX. É considerado atualmente
maior fator causal das mortes passíveis de prevenção. Ciência & cultura O tabaco (Nicotiana tabacum) é uma planta da família das solanáceas (figura 2). A planta contém nicotina, um estimulante do sistema nervoso central. O tabaco é originário das Américas e conhecido há cerca de oito mil anos por praticamente todas as culturas que habitavam o continente antes dos Grandes Descobrimentos. A partir desse marco, o tabaco se difundiu rapidamente por todos os continentes. Com o início da colonização européia, tornou-se a moeda corrente no tráfico de escravos, espalhando-se rápida e definitivamente pela África. O continente asiático, especialmente Japão, China e Índia, viu o tabaco ser introduzido pelos europeus ao longo do século XVI. A partir de 1600, a planta já fazia parte do cotidiano de diversos povos daquele continente. |
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A Ciência e o
tabaco: século XVI |
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FIG. 5
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A Ciência e o
tabaco: século XVII |
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FIG
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Apesar disso, o tabaco tornou-se paulatinamente ao longo do século XVIII uma planta de consumo profano, visando ao prazer e à diversão. Logo se converteu em um grande investimento comercial. Nos Estados Unidos, as plantações da Carolina do Norte viraram referência mundial para todos aqueles que se interessavam para produção e comercialização do produto (figura 8). Avanços tecnológicos para o cultivo da planta foram desenvolvidos com sucesso, principalmente nos Estados Unidos (figura 9). A vocação comercial da planta apareceu associada ao glamour, à sensualidade e a inofensividade.
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ciência e o tabaco: século XVIII As primeiras publicações européias relacionando o tabaco ao câncer de lábio, boca e mucosa nasal apareceram nesse século. A Inglaterra e a Alemanha foram os países que mais estudaram o assunto. |
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O tabaco se tornou um
hábito definitivo dentro da cultura ocidental durante o século XIX.
A produção de cigarros se industrializou: fábricas apareceram na
Inglaterra e França entre 1840 - 1860. A produção atingiu larga
escala e barateou o produto. Novos aparatos, como a caixa de
fósforos (1833) e a máquina de enrolar cigarros (1881),
popularizaram e atribuíram conveniência ao consumo.
A Ciência e o tabaco: século
XIX |
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Os Estados Unidos e a Inglaterra chegaram ao século XX com o domínio de 80% do mercado mundial de tabaco. Em 1903 a produção anual atingiu 3 bilhões de cigarros e 13 bilhões em 1912. O primeiro cigarro 'moderno' foi introduzido pela RJ Reynolds em 1913, com o nome de Camel (figura 12). |
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A Ciência e o tabaco: primeira metade do século XX Por mais que se soubesse dos malefícios causados pelo cigarro, através de relatos de casos e da propaganda antitabagista movida pelos proibicionistas desde o final do século XIX, a Ciência pouco se interessou pelo tabagismo na primeira metade do século XX. Para se ter uma idéia, os primeiros estudos epidemiológicos acerca do tabagismo só aparecerão a partir de 1950. Continuando sua expansão, o cigarro conquistou novos adeptos em todas as áreas. Hollywood rendeu-se ao charme do hábito. E o hábito virou charme. Mas a II Guerra acabou. As tropas voltaram para a casa e a vida continuou. Os governos quiseram imprimir a seus povos uma rotina de restrições para a reconstrução das nações. Mas a população já passara décadas temendo e vivendo a Grande Guerra. A juventude transviada de James Dean adotou o cigarro como símbolo de rebeldia, mesmo que sem causa. Os beatnicks, poetas e escritores do pós-guerra, apaixonados pelo Bebop e pela aventura nas estradas da América, tinham no cigarro um símbolo de liberdade. Seus herdeiros mais radicais, os hippies, mantiveram esse costume. |
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FIG. 18 |
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A ciência e o tabaco:
do pós-guerra aos anos 70
O tabaco foi utilizado extensivamente pelas tropas aliadas
durante a II Guerra. O hábito arraigado começou a ser melhor estudado nos países
europeus e nos EUA. Levantamentos epidemiológicos na Inglaterra e nos EUA foram
realizados em 1950. Nos anos 60, a relação entre câncer de pulmão e tabagismo
foi definitivamente estabelecida. A partir de 1962, o Governo Britânico decretou
que os produtos derivados do tabaco deveriam ter avisos sobre os riscos
potenciais. Os EUA tomaram atitude semelhante em 1964. Foram duas décadas de
constatações. O combate frontal ao hábito, no entanto, esperaria até meados dos
anos 80.

FIG. 20: O cigarro, a juventude transviada, os Beats e o Hippies. Bons companheiros.
![]() FIG. 21 O Rei Roberto não se conformou com o anúncio que dizia É Proibido Fumar (1964). |
O período do pós-guerra
aos anos 70 mostrou algumas peculiaridades. A crescente preocupação
científica com os danos causados pelo cigarro se contrapuseram ao
ambiente liberal do pós-guerra. Tanto que o hábito era pouco
criticado e amplamente aceito. Fumar em locais fechados, tais como
ônibus, cinemas e lojas era absolutamente normal. Não se questionava
as incompatibilidades entre o hábito de fumar e o estilo de vida que
muitos levavam. Não incomodava ao grande público as associações
pouco prováveis na prática, tais como o fumo e a prática de esporte. |
A ciência e o tabaco:
anos 70
Os anos setenta foram o ápice da revolução sexual e
libertária, onde o consumo de drogas (entre elas o cigarro) era visto como uma
modo de contestar o sistema político vigente (autoritário em boa parte do mundo,
inclusive no Brasil). Paralelamente a Medicina continuou a demonstrar
associações entre o tabagismo e doenças clínicas, entre elas o enfisema e
diferentes tipos de câncer. O conceito de sustância prejudicial à saúde crescia
entre as pessoas. Um sinal de reação mercadológica a esse movimento
conscientizador foi o aparecimento de apresentações menos concentradas. Assim,
dizia um anúncio no final da década: "menos nicotina e alcatrão, sem cortar seu
prazer de fumar".
Honestamente, eu nunca encontrei
ninguém em lugar algum que me desse a mínima evidência médica, tampouco que me
indicasse o cigarro como causa absoluta de doença. Eu acredito no que digo. Eu
estou sentado aqui falando com vocês com a consciência absolutamente limpa".
Gerald H. Long, Presidente da RJR
Tobacco Company. Washington Times, 19 de maio de 1986
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Os anos oitenta foram marcados pelo combate ao fumo e seu modo de comercialização. A indústria do cigarro foi intensamente investigada nesse período. Ela negou qualquer conhecimento das propriedades indutoras de dependência da nicotina. Por outro lado, evidências apontavam não só para o conhecimento destas, como também para esforços industriais no sentido de potencializa-las. Em 1983, Rose Cippolone ganhou uma das primeiras indenizações da indústria tabagista, no valor de US$ 400 mil dólares. O motivo fora um câncer de pulmão contraído e em parte relacionado aos seus anos de tabagismo. |
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A ciência
e o tabaco: anos 80 |
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![]() FIG. 24 A França proibiu no final dos anos 80 a veiculação de anúncios comerciais sobre cigarros. Durante a temporada de Fórmula 1 nesse país, a MacLaren, que durante muitos anos foi patrocinada pela marca de cigarro Marlboro, retirava seu patrocinador e o substituía pelo nome da equipe. |
![]() FIG. 25: A crescente constatação de que o consumo de tabaco causa diversos males à saúde (em especial pulmonares) tornou esse hábito um dos principais alvos dos profissionais da saúde. |
Os anos 90 trarão mais contribuições ao entendimento do tabagismo. A análise das pessoas acerca do tabagismo amadureceu. As considerações médicas são hoje aceitas com mais facilidade. Anteriormente, chegaram ser tomadas como repressoras ou restritivas. Isso refletia um pouco o ranço autoritário por que passou o mundo ocidental, tensionado pelas atitudes libertárias se lhe contrapuseram na Segunda metade do século XX.
A ciência e o tabaco:
anos 90
Acontecimentos importantes nos anos 90 foram a
internacionalização das lutas de combate ao fumo e o aparecimento de técnicas
psicoterápicas e farmacológicas de tratamento ao tabagismo. Um exemplo de
internacionalização é a Convenção Quadro, um tratado internacional que visa à
uniformização das estratégias de controle e combate ao fumo.
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Convenção quadro Para estabelecer padrões de controle do tabagismo em todo o mundo, a Assembléia Mundial da Saúde (AMS), órgão diretor supremo da OMS, adotou a Resolução 52.18, em 24 de maio de 1999. Essa Resolução foi a base para acelerar as negociações entre os 191 países membros visando ao estabelecimento de uma Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Framework Convention on Tobacco Control) |
Objetivo
O objetivo principal da Convenção-Quadro é reduzir o tabagismo em escala mundial, protegendo a população das doenças relacionadas ao fumo, bem como a exposição à fumaça provocada pelos produtos derivados de tabaco.
Principais pontos:
* Obrigações gerais para
desenvolver programas abrangentes e multissetoriais para o controle do tabaco
nos países.
* Disposições específicas, tais como:
O que foi feito até hoje
Em 1999, foi criado um Grupo de Trabalho para considerar a base técnica para a Convenção e seus protocolos. O grupo concluiu que as medidas necessárias para o controle do tabaco deveriam se concentrar principalmente nas estratégias para a redução da demanda. Na segunda fase, foi estabelecido um Órgão de Negociação Intergovernamental (ONI) para organizar as propostas com vistas à formulação do texto para a Convenção-Quadro e de seus protocolos correspondentes. Até o momento aconteceram 4 reuniões do ONI, estando previstas para se encerrarem em fevereiro de 2003 com a 6a sessão. A adoção da Convenção-Quadro para o Controle do Tabagismo está prevista para o mês de maio de 2003, com base na continuidade das discussões entre os países membros da OMS que ocorrerão até lá.
A participação do Brasil
No Brasil, foi criada uma Comissão Nacional que tem o objetivo de analisar os dados e informações nacionais referentes aos diferentes temas abordados nas negociações da Convenção-Quadro e subsidiar o Presidente da República nas decisões e posicionamentos do Brasil durante essas negociações. O Brasil tem se destacado nas reuniões por já dispor de um programa efetivo de controle do tabagismo, assumindo posições firmes de acordo com a legislação brasileira para o assunto. Em novembro de 2001, o Governo Brasileiro promoveu o 1º Seminário Latino Americano sobre a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco visando alcançar uma posição consensual sobre o assunto entre os países da América Latina, que foi apresentada na 3a reunião do ONI. O Presidente do ONI é o atual Chefe da Missão Permanente do Brasil na Suiça, Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, em substituição ao ex-presidente do Órgão, o então embaixador brasileiro naquele país, Celso Amorim. Integram a Comissão Nacional os representantes dos Ministérios da Saúde, das Relações Exteriores, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, da Justiça, do Trabalho e Emprego, da Educação e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
As vantagens
A viabilização de uma Convenção-Quadro permitirá que exista um veículo coordenador de políticas públicas de saúde, capaz de criar uma rede de cooperação, permitindo que os países tenham um sistema regulador da indústria do tabaco, no que se refere às suas estratégias nacionais e internacionais de ampliação de mercados consumidores. Para este fim, torna-se necessário que as articulações regionais prossigam, fortalecendo as alianças, para que o texto final da Convenção-Quadro tenha como meta e objetivos principais a proteção da saúde pública. Extraído do site http://www.inca.gov.br/tabagismo/dianacional
Abordagens medicamentosas e psicoterápicas para o tratamento do tabagismo
As abordagens medicamentosas são fruto do melhor atendimento acerca da neurobiologia da dependência química. Parte do sistema de neurotransmissão de dopamina, denominado sistema de recompensa do sistema nervoso central, está relacionado à busca do prazer e da recompensa. Reações de prazer estimulam a liberação de dopamina. Essa atua nos receptores de dopamina e confere bem-estar e memória ao evento. Cria-se, assim, o desejo de repetir o evento oportunamente. O consumo de substâncias psicoativas altera esse funcionamento. O uso prolongado, reduz os níveis de dopamina no cérebro, causando entre outras coisas, sintomas depressivos e de fissura pela droga.
![]() FIG. 27: Atlas epidemiológico do consumo de tabaco no mundo. China, Estados Unidos, Japão, Russia e Indonésia são os cinco maiores fumantes do planeta. O consumo diário é superior a 15 bilhões de cigarros. O consumo anual brasileiro é de 500 - 1500 cigarros ano por pessoa. |
Para lidar com esse
déficit são utilizados antidepressivos (bupropiona) capazes de
aumentar os níveis de dopamina no cérebro. Isso melhora os sintomas
depressivos e de fissura. Outra alternativa é a terapia de
substituição da nicotina, por meio de adesivos ou chicletes de
nicotina, com redução gradual posterior. Ambas abordagens podem ser
administradas concomitantemente. Há contra-indicações precisas e
efeitos indesejáveis, que tornam o acompanhamento médico necessário.
Essa abordagem apresenta maior eficácia quando associada a
intervenções psicoterápicas específicas. A motivação do indivíduo
para a mudança, através de abordagens reflexivas, empáticas e livres
confronto são utilizadas inicialmente. Com a obtenção da
abstinência, começa o planejamento para prevenção da recaída e o
treinamento de habilidades. A combinação de farmacoterapia e psicoterapia se mostrou eficaz em mais de 70% dos casos. |
![]() FIG. 28 Molécula de bupropiona |
Conclusões
O tabagismo é a principal causa de morte evitável em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas (entre as quais 200 milhões de mulheres), sejam fumantes. Mais de 15 bilhões de cigarros são consumidos diarimente mundo afora. Nos últimos cem anos, o consumo mundial pulou de 50 bilhões de cigarros por ano para 5,5 trilhões de cilindros. Cerca de 47% de toda a população masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento os fumantes constituem 48% da população masculina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o hábito de fumar.

FIG. 29: Atlas epidemiológico do
consumo de tabaco no mundo. China, Estados Unidos, Japão, Russia e
Indonésia são os cinco maiores fumantes do planeta. O consumo diário é superior
a 15 bilhões de cigarros.
O consumo anual brasileiro é de 500 - 1500 cigarros ano por pessoa.
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