A CATEQUESE DA
BELEZA
O ícone (do grego eikon = imagem, retrato, semelhança), quadros pintados sobre a madeira com a utilização de matérias naturais, ricos de teologia e de catequese bíblica, têm sua origem milenar no mundo grego e russo. A gênese desta verdadeira arte sacra remonta os séculos 4 e 5, no primitivo cristianismo de Bizâncio, na cidade de Constantinopla (hoje Istambul, capital da Turquia). Sua historia foi marcada por perseguições e martírios de monges pintores ou defensores das imagens, por parte do movimento iconoclasta (726 a 842), mas obteve seu triunfo na devoção do povo que nela encontrou os reflexos do sagrado.
Trata-se da
típica arte sacra da Igreja Ortodoxa porque é canônica, isto é, existem regras
fixas para reproduzir um ícone, como jejum, orações, conhecimento da Escritura,
da Tradição, do Magistério, etc.
O ícone é uma
imagem , mas nem toda imagem é um ícone. Este é muito mais que uma livre
representação de um ministério, deixada por conta da imaginação do artista; não
se trata daquele espiritual fruto da sensibilidade, das divagações subjetivas e
dos insípidos gostos pouco claros; não é um retrato no sentido moderno,
secularizado e pouco transcendente. Ao contrario, sua linguagem é simples e visa
somente à glorificação do ministério. De fato, o ícone é: celebração do
ministério de nossa salvação – Encarnação, Morte, e Ressurreição – por isso,
instrução dos fiéis.
A iconografia cristã, por sua natureza, é semelhante a uma escola de oração e purificação interior, que tem por objetivo favorecer um encontro sempre mais claro e sincero com Jesus e sua Igreja.
A técnica da
pintura bizantina é somente o terreno onde se cultiva e se desenvolve o
ministério de tal encontro. A missão do iconógrafo é aquela de tornar visível e
tangível a “Verdadeira Beleza”, escondida no ministério silencioso das
escrituras. Nesse caminho, ele não está só, mas em companhia com uma inteira
tradição de santos que o procedem e o ajudam no longo caminho de sua existência.
Segundo a igreja oriental, o iconógrafo é chamado a tornar sagrado tanto o
conteúdo quanto a forma de sua pintura, por isso a obra que sai de suas mãos
deve encontrar analogia nas Escrituras e na Tradição dos Santos Padres. Ou como
disse o VII Concílio Ecumênico: “A ele cabe somente o aspecto técnico, porque
toda a elaboração do ícone provém dos Santos Padres”.
O dia do iconógrafo começa cedo: logo que levanta, faz misericórdia e a sabedoria de Deus, ora fazendo uma medição da Escritura, ora contemplando um ícone de Cristo ou da Virgem Maria. Antes de começar o sagrado trabalho de pintura, ele faz uma das orações próprias do iconógrafo, das quais a mais famosa é:
“Oh Divino Mestre, Ardoroso artífice de toda a criação. Ilumina o olhar do teu servo, guarda o teu coração, rege e governa a sua mão para que dignamente e com perfeição, possa representar a tua santa imagem. Para a Glória, a Alegria e a Beleza da Tua Santa Igreja”.
Ele deve ser responsável e fiel ao reproduzir um modelo ou criá-lo, conforme a Escritura, a Tradição e a Doutrina da Igreja. Como o sacerdote no Santo Oficio, assim também é o pintor de ícone ao transformar a divina Liturgia, por meio de cores, sobre a tábua. Em sua vida diária, deverá cultivar os valores mais altos, tais como a humildade e a caridade, procurando viver em paz e corretamente, evitando as conversas frívolas e as vaidades mundanas. Deverá jejuar e orar antes e durante o trabalho, seguindo as normas da Igreja, pois somente se sua fé for muito forte e a sua mente sempre vigilante na oração é que a sua obra poderá transmitir uma mensagem àqueles que a observarão.
Que tenha um bom diretor espiritual e um padre confessor para não cair no pecado da soberba, ao levar muito alto a mente e o coração a Deus. Que siga a técnica pictória dos grandes mestres iconógrafos (emulsão a ovo, terras, minerais, etc) da qual já foi comprovada a estabilidade, beleza e resistência ao longo dos séculos.
Ele nunca
deverá esquecer que, com seu ícone, serve o Senhor, comunicando e cantando sul
gloria.
Para individuar
o Belo é preciso ir além do olhar, atingir a perfeita harmonia e, em última
análise, suscitar a oração.
Dentro dessa
linha, recordo a carta de João Paulo II aos artistas: “Este mundo no qual
vivemos precisa da beleza, para não cair no desespero. A beleza com a verdade,
dá alegria ao coração dos homens e é fruto precioso que resiste ao desgaste do
tempo, que une as gerações e as faz comunicar na admiração. (...) Nobre mistério
aquele dos artistas, quando as suas obras são capazes de refletir, em qualquer
modo, a infinita beleza de Deus e endereçar a Ele as mentes dos homens”.
Infelizmente,
nossa época está marcada por uma forte poluição visual, que não somente ilude,
mas também confunde a mente e o coração do homem. A Beleza é o nome divino junto
com a Verdade, mesmo se esquecida. Os valores: beleza, bondade e verdade vivem
somente se em comum acordo. O Bem se separando da Verdade e da Beleza, é somente
um sentimento indefinido, um impulso privado de força; a Verdade abstrata é uma
palavra vazia e a Beleza sem o Bem e a Verdade é somente um ídolo.
Quando o grande
escritor russo Dostoiévski afirmou que somente a “beleza poderá salvar o mundo”,
sem dúvida, disse a verdade, porque ela tem sua raiz na glória de Deus. A
mensagem transmitida pelo ícone é sempre será atual, porque diz respeito ao
homem e o divino, por isso sua singela beleza é do Originário e, ao mesmo tempo,
antecipação do Definitivo.
“A grandeza e a
beleza das criaturas levam, por analogia, à contemplação de seu Autor” (Sb
13,5), “pois foi a própria fonte de beleza que as criou” (Sb 13,3).
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