1. História da celebração
O Cristianismo nasceu embebido pela vida, morte e ressurreição de Jesus, chamado
Cristo e subsiste pelo cultivo da memória deste homem. E como todo ser humano, o
ápice da vida do filho de Deus foi sentir em sua carne a frieza da morte. Sem
dúvida, ao doar amorosamente sua vida na cruz, Jesus viveu em sua própria carne
a experiência da morte. Ele morreu realmente. Mas a Graça de Deus, confirmando a
mensagem e o testemunho de vida de Jesus, o ressuscitou dos mortos e garantiu
assim, a todos os fiéis que nele depositam suas esperanças, a possibilidade de
transcender também a fase finita da vida e alcançar a plenitude da personalidade
e potencialidades humanas, na realidade de fé que chamamos de Vida Eterna.
Desde a mais tenra idade o Cristianismo celebrou os fiéis que morreram unidos à
sua comunidade de fé. Os mártires eram venerados nos locais de seu martírio e as
primeiras construções genuinamente cristãs foram monumentos em homenagem a estes
heróis da fé. Além disso, as perseguições imperiais obrigavam os cristãos a
refugiarem em catacumbas para celebração dos exercícios litúrgicos. E as
catacumbas nada mais eram que os primevos cemitérios cristãos.
Os mais antigos sacramentários romanos atestam o uso de missas pelos defuntos. O
costume de rezar pelos mortos em celebrações específicas parece ter surgido pelo
fato de que não era possível realizar exéquias dos cristãos no momento da morte,
tamanho o medo da perseguição pagã. Assim, dias depois do fato, geralmente uma
semana ou mesmo trinta dias, a comunidade reunia-se para as devidas homenagens
ao falecido e aos familiares.
Nos mosteiros irlandeses, no século VII, já encontramos rolos com os nomes de
monges falecidos, que circulavam entre as comunidades, numa rústica forma de
comunicação orante entre os religiosos. Para estes falecidos era sempre dedicado
algum ofício religioso solene. Dessa tradição surgiram as necrologias, lista de
nomes lidas nos ofícios e os obtuários, lembrando serviços fundados ou obras de
misericórdia dos defuntos em suas datas. Passou-se claramente das menções
globais aos nomes individuais.
Nos séculos IX e X, no auge do período carolíngio, já é possível encontrar o
costume de anotar nomes de falecidos para oferecimento de missas, mas ainda
mantém-se a vinculação com o nome de vivos, que faziam suas ofertas generosas
para a comunidade cristã. Os ·libri memoriales· (Livros Memoriais) carolingianos
continham de 15.000 a 40.000 nomes a serem lembrados. Durante as Eucaristias
chegava-se a enumerar de 40 a 50 nomes por dia!
Mas foi em Cluny, o renomado Mosteiro francês, que começou a surgir uma
explicação da oração pelos mortos. À Igreja Peregrina nos caminhos da história
unia-se a Igreja Triunfante (os santos e santas) e à igreja Padecente (aqueles
que mesmo mortos ainda não tinham alcançado a plenitude da Ressurreição). Esta
união entre santos e pecadores, chamada de comunhão dos santos, já fazia parte
da tradição cristã e foi teologicamente elaborada pelo mestre da escolástica,
Santo Tomás de Aquino, nos seguintes termos:
Assim como no corpo natural a atividade de um membro se subordina ao bem estar
de todo o corpo, também no corpo espiritual que é a Igreja, acontece o mesmo. E
porque todos os fiéis são um só corpo, o bem de um comunica-se ao outro.
Tudo indica que foi no século X que, a partir do mosteiro do Cluny, instituiu-se
a comemoração dos mortos para o dia 2 de novembro, em íntimo contato com a festa
de todos os santos. A Festa dos Mortos será rapidamente celebrada em todo mundo
cristão. Trata-se hoje de um dos feriados mais universais do nosso planeta.
2. Sentido da celebração de finados
No dia de Finados, não festejamos a morte. Seria uma ignorância e uma
contradição. Celebramos sim, nossa fé na ressurreição e a esperança do encontro
na morada que Jesus nos preparou, no seio amoroso de Deus. A comemoração dos
fiéis defuntos é uma oportunidade ímpar para agradecer a Deus pela existência
daqueles que nos precederam e, de certa forma, participaram da construção de
nossa própria história.
O gesto mais comum em finados é a visita ao cemitério, a participação na
Eucaristia e as devoções próprias de cada cultura, como acender velas, oferecer
flores e enfeitar os túmulos dos falecidos. Em todos estes gestos
antropologicamente enraizados no ser humano transparece a consciência que temos
de nossa finitude e da necessidade absoluta de apego ao Divino para a manutenção
da esperança em glorificação da existência.
Acendemos velas para lembrar que essa luz segue iluminando-nos, em nossos
corações. Veneramos seus exemplos e imitamos sua fé (Hb. 13,7). Enfeitamos as
sepulturas com flores, símbolo da ressurreição. Nossos mortos são plantados como
sementes, regadas com nossas lágrimas, e florescem ressuscitados no jardim do
Senhor.
Além disso, ao recordar a vida de um ente querido, nós próprios deparamo-nos com
a realidade da morte em nossa vida e pesamos nossos comportamentos pessoais e
sociais. A presença da limitação e fraqueza da vida permite-nos ser mais
humildes na consideração da validade de nossa vida. Não há como ficar insensível
diante da finitude da carne humana!
3. Sentido teológico de finados: a certeza da Ressurreição
Nossa fé cristã é a fé no Ressuscitado. Esta certeza de fé elimina de nós toda e
qualquer idéia de renascimento ou reencarnação. Somos únicos desde a concepção,
durante a vida e após a morte. A razão de nossa fé na Ressurreição é a
experiência radical de Jesus. Ele foi Ressuscitado pelo Pai (At. 2, 22 ss.),
numa atitude amorosa que confirmou toda a obra realizada pelo homem de Nazaré em
favor dos mais oprimidos e marginalizados.
O fundamento teológico para a nossa compreensão de fé em torno da vida que
começa na morte está na Ressurreição de Jesus Cristo. É São Paulo que diz: "Se
Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé, e nós ainda estaríamos em
nossos pecados" (1Cor. 15, 17).
Nós cremos na ressurreição como um momento de transcendência de nossa realidade
finita para uma realidade infinita ao lado de Deus. Na Ressurreição nossa vida é
transformada. Assim como acontece com a semente que, ao ser lançada na terra,
morre e desta morte nasce a nova vida, cremos que também nós vamos ressuscitar e
assumir uma nova vida. Nós cremos que a nossa vida terrestre é uma preparação
para a verdadeira e definitiva vida. Temos uma única oportunidade de viver no
mundo e nos preparar para a eternidade.
O próprio Jesus viveu apenas uma única vida humana, iniciada no momento de sua
concepção no seio virginal de Maria e consumada na cruz, quando exausto e sem
forças, Jesus entrega sua vida nas mãos do Pai (Jo. 19,30). Mas como já
dissemos, Deus não permitiu ao Cristo permanecer preso nas cadeias da morte, mas
o fez receber vida nova, ressuscitando-o e reafirmando assim o valor da vida
justa sobre os poderes nefastos de uma sociedade marcada pela cultura de morte.
Mas Ele ressuscitou. O corpo físico de Jesus foi transformado em um corpo
glorioso, que não ocupa mais espaço, não envelhece mais com o tempo e não morre
mais. Este Cristo vivo e ressuscitado está na Eucaristia, está nos sacrários de
nossas igrejas e está também na comunidade cristã, já que Ele disse: "Onde dois
ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei presente" (Mt. 18,20) ou
então: "Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos"
(Mt. 28, 20). Nada pode nos separar do amor de Cristo.
Já teologia de oração pelos mortos alicerça-se na noção tradicional de
purgatório, momento de expiação dos erros passados e de contemplação da face
gloriosa de Deus. A teologia atual não aboliu, com se pensa, a noção de
purgatório. Obviamente, a idéia de um fogo devorador que aflige atemporalmente
os homens e mulheres que falecem afastados de Deus recebe hoje um tratamento
mais aceitável. O purgatório seria a própria percepção de não realização da
missão confiada por Deus a cada um de nós. Ao deparar-nos com a imensa distância
entre o ideal sonhado por Deus e o real vivido, o ser humano sofre por ter sido
tão leniente. Imediatamente, entretanto, contempla a glória de Deus e nela
mergulha. Rezar pelos mortos significa ajudá-los a tomar consciência de que
estão afastados do ideal de Deus.
4. Celebrando o dia de finados
As celebrações litúrgicas do dia de hoje são comedidas e cercadas de um clima de
saudade e tristeza. São comuns as missas rezadas nos cemitérios, onde um ou
outro grupo pastoral pode estar presente para acolher as pessoas mais
sensibilizadas.
Nas igrejas e capelas reze-se pelos fiéis defuntos que participaram da história
da comunidade, mas evite-se enumerar nomes ou dar destaques a algum falecido.
Mantenha a sobriedade dos cantos e respeite-se o silêncio com marca da
celebração.
Entretanto, evite-se o clima de luto nas celebrações. Vale a pena recordar que o
celebração de Finados marca a esperança cristã na Ressurreição e deve ser
iluminada por aquela alegria que marca a fé cristã.
Para os celebrantes, atenção nas homilias. O mistério da Ressurreição deve ser o
centro da reflexão, aproveitando para refletir bem as palavras do Evangelho e
esclarecendo o real sentido da morte para o cristão, numa catequese que
contemple toda a eliminação de idéias estranhas tão espalhadas pela mentalidade
do povo católico brasileiro.
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