FESTA LITÚRGICA DE FINADOS
02 de novembro
Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não
existirá.
Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, porque tudo isso
já passou· (Ap 21,4).
Por
que então a liturgia cristã interessou-se pelos mortos
também fora da missa? Por que a Igreja dedicou um dia
exclusivo à lembrança dos finados? Você acha válido rezar
pelos falecidos? Como você se prepara para viver o momento
de sua morte? Por que o ser humano preocupa-se tanto em
marcar com sinais exteriores a morte de pessoas queridas?
1. História da Celebração
O Cristianismo nasceu embebido
pela vida, morte e ressurreição de Jesus, chamado Cristo e
subsiste pelo cultivo da memória deste homem. E como todo
ser humano, o ápice da vida do filho de Deus foi sentir em
sua carne a frieza da morte. Sem dúvida, ao doar
amorosamente sua vida na cruz, Jesus viveu em sua própria
carne a experiência da morte. Ele morreu realmente. Mas a
Graça de Deus, confirmando a mensagem e o testemunho de vida
de Jesus, o ressuscitou dos mortos e garantiu assim, a todos
os fiéis que nele depositam suas esperanças, a possibilidade
de transcender também a fase finita da vida e alcançar a
plenitude da personalidade e potencialidades humanas, na
realidade de fé que chamamos de Vida Eterna.
Desde a mais tenra idade o Cristianismo celebrou os fiéis
que morreram unidos à sua comunidade de fé. Os mártires
eram venerados nos locais de seu martírio e as primeiras
construções genuinamente cristãs foram monumentos em
homenagem a estes heróis da fé. Além disso, as perseguições
imperiais obrigavam os cristãos a refugiarem em catacumbas
para celebração dos exercícios litúrgicos. E as catacumbas
nada mais eram que os primeiros cemitérios cristãos.
Os mais antigos sacramentários romanos atestam o uso de
missas pelos defuntos. O costume de rezar pelos mortos em
celebrações específicas parece ter surgido pelo fato de que
não era possível realizar exéquias dos cristãos no momento
da morte, tamanho o medo da perseguição pagã. Assim, dias
depois do fato, geralmente uma semana ou mesmo trinta dias,
a comunidade reunia-se para as devidas homenagens ao
falecido e aos familiares.
Nos mosteiros irlandeses, no século VII, já encontramos
rolos com os nomes de monges falecidos, que circulavam entre
as comunidades, numa rústica forma de comunicação orante
entre os religiosos. Para estes falecidos era sempre
dedicado algum ofício religioso solene. Dessa tradição
surgiram as necrologias, lista de nomes lidas nos ofícios e
os obtuários, lembrando serviços fundados ou obras de
misericórdia dos defuntos em suas datas. Passou-se
claramente das menções globais aos nomes individuais.
Nos séculos IX e X, no auge do período carolíngio, já é
possível encontrar o costume de anotar nomes de falecidos
para oferecimento de missas, mas ainda mantém-se a
vinculação com o nome de vivos, que faziam suas ofertas
generosas para a comunidade cristã. Os ·libri memoriales·
(Livros Memoriais) carolingianos continham de 15.000 a
40.000 nomes a serem lembrados. Durante as Eucaristias
chegava-se a enumerar de 40 a 50 nomes por dia!
Mas foi em Cluny, o renomado Mosteiro francês, que começou a
surgir uma explicação da oração pelos mortos. À Igreja
Peregrina nos caminhos da história unia-se a Igreja
Triunfante (os santos e santas) e à igreja Padecente
(aqueles que mesmo mortos ainda não tinham alcançado a
plenitude da Ressurreição). Esta união entre santos e
pecadores, chamada de comunhão dos santos, já fazia parte da
tradição cristã e foi teologicamente elaborada pelo mestre
da escolástica, Santo Tomás de Aquino, nos seguintes
termos:
Assim como no corpo natural a atividade de um membro se
subordina ao bem estar de todo o corpo, também no corpo
espiritual que é a Igreja, acontece o mesmo. E porque todos
os fiéis são um só corpo, o bem de um comunica-se ao outro.
Tudo indica que foi no século X que, a partir do mosteiro do
Cluny, instituiu-se a comemoração dos mortos para o dia 2 de
novembro, em íntimo contato com a festa de todos os santos.
A Festa dos Mortos será rapidamente celebrada em todo mundo
cristão. Trata-se hoje de um dos feriados mais universais do
nosso planeta.
2. Sentido da celebração
de Finados
No dia de Finados, não
festejamos a morte. Seria uma ignorância e uma contradição.
Celebramos sim, nossa fé na ressurreição e a esperança do
encontro na morada que Jesus nos preparou, no seio amoroso
de Deus. A comemoração dos fiéis defuntos é uma oportunidade
ímpar para agradecer a Deus pela existência daqueles que nos
precederam e, de certa forma, participaram da construção de
nossa própria história.
O gesto mais comum em Finados é a visita ao cemitério, a
participação na Eucaristia e as devoções próprias de cada
cultura, como acender velas, oferecer flores e enfeitar os
túmulos dos falecidos. Em todos estes gestos
antropologicamente enraizados no ser humano transparece a
consciência que temos de nossa finitude e da necessidade
absoluta de apego ao Divino para a manutenção da esperança
em glorificação da existência.
Acendemos velas para lembrar que essa luz segue
iluminando-nos, em nossos corações. Veneramos seus exemplos
e imitamos sua fé (Hb 13,7). Enfeitamos as sepulturas com
flores, símbolo da ressurreição. Nossos mortos são plantados
como sementes, regadas com nossas lágrimas, e florescem
ressuscitados no jardim do Senhor.
Além disso, ao recordar a vida de um ente querido, nós
próprios deparamo-nos com a realidade da morte em nossa vida
e pesamos nossos comportamentos pessoais e sociais. A
presença da limitação e fraqueza da vida permite-nos ser
mais humildes na consideração da validade de nossa vida. Não
há como ficar insensível diante da finitude da carne humana!
3. Sentido Teológico de Finados: a
certeza da Ressurreição
Nossa fé cristã é a fé no
Ressuscitado. Esta certeza de fé elimina de nós toda e
qualquer idéia de renascimento ou reencarnação. Somos únicos
desde a concepção, durante a vida e após a morte. A razão de
nossa fé na Ressurreição é a experiência radical de Jesus.
Ele foi Ressuscitado pelo Pai (At 2, 22s), numa atitude
amorosa que confirmou toda a obra realizada pelo homem de
Nazaré em favor dos mais oprimidos e marginalizados.
O fundamento teológico para a nossa compreensão de fé em
torno da vida que começa na morte está na Ressurreição de
Jesus Cristo. É São Paulo que diz: "Se Cristo não tivesse
ressuscitado, vã seria a nossa fé, e nós ainda estaríamos em
nossos pecados" (1Cor 15, 17).
Nós cremos na ressurreição como um momento de transcendência
de nossa realidade finita para uma realidade infinita ao
lado de Deus. Na Ressurreição nossa vida é transformada.
Assim como acontece com a semente que, ao ser lançada na
terra, morre e desta morte nasce a nova vida, cremos que
também nós vamos ressuscitar e assumir uma nova vida. Nós
cremos que a nossa vida terrestre é uma preparação para a
verdadeira e definitiva vida. Temos uma única oportunidade
de viver no mundo e nos preparar para a eternidade.
O próprio Jesus viveu apenas uma única vida humana, iniciada
no momento de sua concepção no seio virginal de Maria e
consumada na cruz, quando exausto e sem forças, Jesus
entrega sua vida nas mãos do Pai (Jo 19,30). Mas como já
dissemos, Deus não permitiu ao Cristo permanecer preso nas
cadeias da morte, mas o fez receber vida nova,
ressuscitando-o e reafirmando assim o valor da vida justa
sobre os poderes nefastos de uma sociedade marcada pela
cultura de morte.
Mas Ele ressuscitou. O corpo físico de Jesus foi
transformado em um corpo glorioso, que não ocupa mais
espaço, não envelhece mais com o tempo e não morre mais.
Este Cristo vivo e ressuscitado está na Eucaristia, está nos
sacrários de nossas igrejas e está também na comunidade
cristã, já que Ele disse: "Onde dois ou mais estiverem
reunidos em meu nome, eu estarei presente" (Mt 18,20) ou
então: "Eis que eu estou convosco todos os dias até a
consumação dos séculos" (Mt 28, 20). Nada pode nos separar
do amor de Cristo.
Já teologia de oração pelos mortos alicerça-se na noção
tradicional de purgatório, momento de expiação dos erros
passados e de contemplação da face gloriosa de Deus. A
teologia atual não aboliu, com se pensa, a noção de
purgatório. Obviamente, a idéia de um fogo devorador que
aflige atemporalmente os homens e mulheres que falecem
afastados de Deus recebe hoje um tratamento mais aceitável.
O purgatório seria a própria percepção de não realização da
missão confiada por Deus a cada um de nós. Ao deparar-nos
com a imensa distância entre o ideal sonhado por Deus e o
real vivido, o ser humano sofre por ter sido tão leniente.
Imediatamente, entretanto, contempla a glória de Deus e nela
mergulha. Rezar pelos mortos significa ajudá-los a tomar
consciência de que estão afastados do ideal de Deus.
4. Celebrando o dia de Finados
As celebrações litúrgicas
do dia de hoje são comedidas e cercadas de um clima de
saudade e tristeza. São comuns as missas rezadas nos
cemitérios, onde um ou outro grupo pastoral pode estar
presente para acolher as pessoas mais sensibilizadas.
Nas igrejas e capelas reze-se pelos fiéis defuntos que
participaram da história da comunidade, mas evite-se
enumerar nomes ou dar destaques a algum falecido. Mantenha a
sobriedade dos cantos e respeite-se o silêncio com marca da
celebração.
Entretanto, evite-se o clima de luto nas celebrações. Vale a
pena recordar que o celebração de Finados marca a esperança
cristã na Ressurreição e deve ser iluminada por aquela
alegria que marca a fé cristã.
Para os celebrantes, atenção nas homilias. O Mistério da
Ressurreição deve ser o centro da reflexão, aproveitando
para refletir bem as palavras do Evangelho e esclarecendo o
real sentido da morte para o cristão, numa catequese que
contemple toda a eliminação de idéias estranhas tão
espalhadas pela mentalidade do povo católico brasileiro.
Padre Evaldo César de Souza, C.Ss.R.