CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2008

 

1. A Campanha da Fraternidade tem refletido, desde que aconteceu pela primeira vez, em 1964, sobre a vida em todas as suas dimensões. O motivo para tal encontra-se no fato de que a Campanha acontece durante o tempo da Quaresma, tempo de conversão e mudança de vida. Para que a conversão aconteça, se faz necessária uma profunda revisão de vida e uma renovada adesão a Deus.

2. Embora todas as campanhas nos proponham assumir a vida sob vários aspectos, duas delas nos colocaram como tema a vida: a Campanha da Fraternidade de 1974, que teve como tema “Reconstruir a vida” e a Campanha da Fraternidade de 1984, com o tema: “Fraternidade e vida”. Se levarmos em consideração os lemas da Campanha da Fraternidade, veremos que a palavra vida é utilizada muitas vezes, principalmente nos últimos anos. As Campanhas que apresentam a palavra vida em seus lemas são as de 1984: “Para que todos tenham vida”, 1998: “A serviço da vida e da esperança”, 2001: “Vida sim, drogas não”, 2003: “Vida, dignidade e esperança”, 2004: “Água, fonte de vida” e 2007 – “Vida e missão neste chão”.

3. A Campanha da Fraternidade de 2008 continua esta reflexão. Através do Tema: “Fraternidade e defesa da vida” e do lema: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30, 19), expressa a sua preocupação com a vida humana, ameaçada nos dias de hoje desde o seu início por causa do aborto, até a sua consumação por causa da eutanásia, e busca, através do método VER – JULGAR – AGIR, olhar a realidade de hoje, iluminar esta realidade mostrando o Deus Vivo que nos dá a vida e as decorrências éticas desta verdade para propor caminhos de conversão e de transformação da sociedade para que a pessoa humana seja sempre valorizada em sua plenitude, conforme a sua natureza e a vontade de Deus, e a vida seja um dos principais fundamentos da hierarquia de valores que marca o nosso existir e determina o nosso agir.

No espírito do Documento de Aparecida

4. O Concílio Vaticano II já condenava como infame “tudo quanto se opõe à vida,... toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas e outras semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo em que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador”.

5. Trinta anos depois, na encíclica Evangelium vitae, João Paulo II constatou que as ameaças à vida pareciam estar aumentando. Com o avanço da mentalidade individualista e utilitarista, e com o desenvolvimento da ciência e da técnica, novas ameaças – como o aborto e a eutanásia – passaram não só a ser praticadas, mas vão deixando de ser consideradas ilícitas, sendo até mesmo amparadas pelo Estado. “O resultado de tudo isto – concluía o papa – é dramático: se é muitíssimo grave e preocupante o fenômeno da eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou encaminhadas para o seu ocaso, não o é menos o fato de à própria consciência, ofuscada por tão vastos condicionalismos, lhe custar cada vez mais a perceber a distinção entre o bem e o mal, precisamente naquilo que toca o fundamental valor da vida humana”.

6. Ainda que todas as ameaças à vida devam ser permanentemente combatidas, a expressão “defesa da vida” vem sendo utilizada para designar a luta contra essas ameaças específicas, que parecem turvar a própria percepção do valor da vida humana, do bem e do mal, do certo e do errado. Não enfrentá-las implicaria em perder a capacidade de reconhecer aqueles valores fundamentais que nos movem na luta contra todas as demais formas de agressão à vida e à pessoa humana, tais como as decorrentes da pobreza, da violência, da guerra, etc.

7. Reafirmando o caminho da Igreja na defesa da vida e da pessoa humana, o Documento Final da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe, ou Documento de Aparecida, lembra que nossa fé não pode ser reduzida a normas e proibições, à repetição mecânica de princípios doutrinais ou ao moralismo. Nossa maior ameaça, diz o documento, “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja na qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”. A todos nos toca “recomeçar a partir de Cristo”, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.

8. O Documento de Aparecida nos lembra que também hoje somos chamados a escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (cf. Dt 30, 15). “Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé. São caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o ser humano e contra o bem dos povos latino-americanos. Os caminhos de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida eterna, são aqueles abertos pela fé que conduzem à ‘plenitude de vida que Cristo nos trouxe: com esta vida divina, também se desenvolve em plenitude a existência humana, em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural’. Essa é a vida que Deus nos participa por seu amor gratuito, porque ‘é o amor que dá a vida’. Estes caminhos frutificam nos dons de verdade e de amor que nos foram dados em Cristo, na comunhão dos discípulos e missionários do Senhor, para que América Latina e Caribe sejam efetivamente um continente no qual a fé, a esperança e o amor renovem a vida das pessoas e transformem as culturas dos povos” .

9. Mas por que será que muitas vezes escolhemos o caminho da morte?

§ Em primeiro lugar, escolhemos o caminho da morte porque não nos abrimos integralmente para a realidade. Reduzimos o real apenas a seus aspectos mais imediatos, que podem ser explicados pela ciência e dominados pela técnica. Eliminamos a pergunta sobre o sentido das coisas e dos acontecimentos, deixando sem resposta as perguntas sobre o amar e o sofrer, o bem e o mal. Passamos a acreditar que a ciência e a técnica podem solucionar os problemas, sem a necessidade do compromisso ético.

§ Essa limitação de nossa razão nos impede de compreender o que é verdadeiramente o amor. Nós o reduzimos à simples realização de nosso desejo de posse do outro, sem perceber que a realização plena do amor acontece quando nos doamos ao outro, como nos lembra Bento XVI na encíclica Deus caritas est.

§ Por fim, essa razão limitada e esse amor desnorteado não são capazes de perceber a sacralidade da vida humana e a dignidade da pessoa. A vida cotidiana se amesquinha, as pessoas passam a ser usadas e instrumentalizadas, permitindo toda a sorte de ataques àqueles que são mais fracos e indefesos.

10. O Documento de Aparecida nos mostra que o encontro com Cristo pode ser o ponto de partida para a negação desses caminhos de morte e a escolha do caminho da vida. “A vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana ‘em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural’. Para isso, faz falta entrar em um processo de mudança que transfigure os vários aspectos da própria vida. Só assim será possível perceber que Jesus Cristo é nosso salvador em todos os sentidos da palavra. Só assim manifestaremos que a vida em Cristo cura, fortalece e humaniza. Porque ‘Ele é o Vivente, que caminha a nossa lado, manifestando-nos o sentido dos acontecimentos, da dor e da morte, da alegria e da festa’. A vida em Cristo inclui a alegria de comer juntos, o entusiasmo por progredir, a paixão por trabalhar e por aprender, a alegria de servir a quem necessite de nós, o contato com a natureza, o entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer de uma sexualidade vivida segundo o Evangelho e todas as coisas com as quais o Pai nos presenteia como sinais de seu amor sincero. Podemos encontrar o Senhor em meio às alegrias de nossa limitada existência e, dessa forma, brota uma gratidão sincera.”

11. O encontro com Cristo é o ponto de onde partimos para reconhecer plenamente a sacralidade da vida e a dignidade da pessoa humana, mas esse reconhecimento não é exclusivo às pessoas de fé. Todo ser humano traz, em seu coração, o desejo de ter essa sacralidade e essa dignidade reconhecidas. “Bendizemos ao Pai porque, mesmo entre dificuldades e incertezas, todo homem aberto sinceramente à verdade e ao bem comum, pode chegar a descobrir na lei natural escrita em seu coração (cf. Rm 2,14-15), o valor sagrado da vida humana desde seu início até seu fim natural e afirmar o direito de cada ser humano de ver respeitado totalmente este seu bem primário. ‘A convivência humana e a própria comunidade política’ se fundamenta no reconhecimento desse direito”.

12. Assim, com esperança e alegria renovadas, nos lançamos mais uma vez à defesa da vida, cientes que essa é uma luta pessoal e social contra uma cultura de morte que se infiltra no coração das pessoas e contra as estruturas injustas que objetivamente trazem a morte a nós brasileiros e a nossos irmãos latino-americanos.

Objetivo Geral

13. Levar a Igreja e a sociedade a defender e promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos, na busca de sua plenificação, a partir da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias, e do compromisso ético do amor fraterno.

Objetivos Específicos

14. Para que o objetivo geral possa ser atingido, a CF 2008 terá os seguintes objetivos específicos:

§ Desenvolver uma concepção de pessoa (antropológica integral) capaz de fundamentar adequadamente, sem reducionismos, as ações em defesa da vida humana.

§ Fortalecer a família como espaço primeiro da defesa da vida, através da maternidade e da paternidade responsáveis, do acolhimento aos idosos, doentes e sofredores.

§ Fomentar a cultura da vida, através da educação, para o desenvolvimento pleno da afetividade, a co-responsabilidade entre homem e mulher, e a solidariedade entre todos.

§ Trabalhar em unidade com pessoas de diversas posições culturais e diferentes religiões na busca da promoção da vida.

§ Desenvolver nas pessoas a consciência crítica diante das estruturas que geram a morte e promovem a manipulação e comercialização da vida humana;

§ Propor e apoiar políticas públicas que garantam a promoção e defesa da vida.

§ Crescer na fé, vivida como amor a Deus e amor aos irmãos, respeitando a sacralidade de cada pessoa, imagem e semelhança de Deus e habitação da Trindade, valorizando todos os elementos de defesa da vida presentes em todas as religiões.

Texto base da CF 2008 - Introdução