FRATERNIDADE E DEFESA DA VIDA HUMANA  

Apesar de todos os avanços da modernidade, a vida humana continua sendo ameaçada, submetida ao poder econômico e instrumentalizada em função do lucro. O grande objetivo da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano é promover a "vida em abundância para todas as criaturas". Com o tema: Fraternidade e defesa da vida e o lema: Escolhe, pois, a vida, a Campanha nos convida a uma revolução em favor da vida, combatendo com coragem tudo quanto se opõe a ela. Somos motivados a fazê-la crescer com sinais concretos e frutos que permaneçam para sempre.

O desafio da vida

O ser humano anseia amar, ser amado e ser feliz. Nessa busca, corre o risco de se deixar manipular por certos reducionismos, depositando a felicidade no acúmulo de bens e no êxito particular. Assim, a pessoa vale mais pelo que tem do que por aquilo que é. O outro passa a ser visto como um objeto para satisfazer os seus desejos e necessidades. É a lógica do mercado: utilizar até que sirva e depois descartar. Cresce também a tendência ao consumismo desenfreado, ao individualismo, hedonismo, desenvolvimentismo e dominação do outro. A dignidade humana acaba ganhando pouca importância. Há dificuldade de olhar para o outro como irmão, de cultivar o afeto e a solidariedade. Em suma, o ser humano está construindo uma cultura de destruição, competição e morte.

Através de seus documentos, a Igreja condena "tudo quanto se opõe à vida, toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa, como as condições de vida subumanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas essas coisas e outras semelhantes "são infames; ao mesmo tempo em que corrompem a civilização, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador" (Gaudium et Spes, 27).

Na parte do ver, o texto da Campanha da Fraternidade nos evoca a reflexão acerca da existência e confronto entre uma cultura da vida e uma cultura de morte. A cultura de morte afeta a vida humana desde antes do seu nascimento e se revela mesmo em certas causas que produzem a morte em grandes proporções. O texto retoma a questão da pobreza e exclusão social, geradas pelo sistema capitalista, que constituem sérias ameaças à vida em nossa sociedade. Também menciona outros problemas graves que precisam ser enfrentados e combatidos, como é o caso da violência, do crime organizado, do tráfico e consumo de drogas e as diversas formas de agressão ao meio ambiente.

Jesus e a vida

A vida, dom de Deus, é o maior bem a ser preservado e promovido. Para tanto, é preciso saber discernir entre os conhecimentos e práticas que conduzem à vida e aqueles que desviam deste caminho, colocando-se a serviço da morte. O encontro com Cristo nos convoca a escolher a vida. Trata-se de "examinar tudo e guardar o que for bom" (1Ts 5, 21). Vale recordar sempre: "Jesus veio para que todos tenham vida, e a tenham em abundância" (Jo 10, 10). Todo o seu viver e agir é um serviço à vida, principalmente dos mais pobres e excluídos.

Diante do individualismo, Ele convoca a viver e a caminhar juntos; diante da indiferença, propõe a acolhida e o amor fraterno; diante das diversas formas de discriminação, defende a dignidade inalienável de cada pessoa. Jesus mostra-se próximo e solidário, sobretudo com os mais enfraquecidos. Cura os doentes, consola os aflitos, liberta da surdez, da cegueira, da lepra, do demônio etc. Como na parábola do bom samaritano, nos ensina a sermos sensíveis às necessidades dos outros, a ter compaixão e defender a vida em primeiro lugar. Ante o subjetivismo hedonista, Jesus propõe entregar a vida a serviço dos outros (Jo 12, 25). Ao invés das relações humanas superficiais e utilitaristas, Ele indica o caminho da comunhão fraterna e a busca da vida em plenitude.

A Igreja insiste na importância de submeter a ciência - que caminha a passos largos - ao juízo ético, buscando sempre aquilo que é bom para o ser humano. Também trata da esterilidade conjugal, da gestação indesejada, da manipulação embrionária, da vida afetivo-sexual, do sofrimento, da doença e da morte, chamando atenção para as atitudes condizentes com a ética, a dignidade, o respeito à própria vida e a do outro, enfim, com o que está alinhado com o Plano de Deus. E afirma: "Se deixamos de lado esses critérios, além de cairmos na superficialidade, corremos o risco de nos tornarmos uma instituição filantrópica em nada diferente das demais" (Texto base, nº 248).

Sinais de vida

Para defender a vida é fundamental saber discernir o que gera vida e o que gera morte. Muito em sintonia com o documento da V Conferência de Aparecida, a CF/2008 nos convida a produzirmos frutos de vida. Ressalta o desafio de vivermos a solidariedade, numa postura de serviço, busca da justiça e transformação da sociedade. Reafirma a exigência de renovar o compromisso com a vida no seio das próprias comunidades cristãs. Na perspectiva de defesa da vida enquanto missão central da Igreja, o texto -base aponta grandes desafios. Entre eles: desenvolver uma educação afetivo-sexual integral; conscientizar para o valor da família; incentivar a reflexão ética nos ambientes acadêmicos, científicos e técnicos; ter uma postura crítica diante da mídia e atitude pró-ativa no sentido de promover uma comunicação comprometida com a verdade e a vida. A promoção da vida requer a luta pela garantia de políticas públicas; a salvaguarda da paz e da justiça social. Em última análise, a transformação das estruturas, visando uma vida digna para todos.

 Padre Dirceu Benincá - colaboração de José Tolfo, imc

Revista Missões - Janeiro 2008 - edição Nº01