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Padre Leopoldo Mandic,
ministro da misericórdia
Seu confessionário foi uma espécie de porto para as almas... Padre Leopoldo estava sempre ali, doze, treze, quinze horas por dia... Da sua amabilidade, humildade e confiança na infinita misericórdia de Deus e na ação da sua graça através dos sacramentos, são testemunhas todos os que o conheceram. Sua cela para as confissões em Pádua encontra-se exatamente como era. Ele mesmo profetizara sobre os bombardeios de 1942: “Infelizmente, o nosso convento será duramente atingido... Mas esta cela não. Aqui, o Patrão Deus dispensou muita misericórdia às almas... deve continuar como monumento da sua bondade”. Nascido em 1866, na Dalmácia, Adeodato Mandic era de nobre estirpe bosniana. Mudou seu nome para Frei Leopoldo ao entrar no seminário dos Frades Capuchinhos. Foi ordenado sacerdote aos 24 anos, e desde então empregou toda a sua vida atendendo ao sacramento da penitência. Media apenas 1,38 metros de estatura, tinha constituição muito frágil, era vacilante e trêmulo ao caminhar... E ainda tinha problemas com a língua, pois falava sem as sílabas finais, e esta limitação era mais perceptível quando rezava ou tanto que em público não podia dizer nem mesmo um “oremus”. O que não é pouco para uma ordem de pregadores, como a dos Capuchinhos! “Muitas vezes”, lembrou um confrade num processo, “ele mesmo se surpreendia, pois vinham confessar-se com ele professores universitários, homens importantes, pessoas muito qualificadas”... Em Pádua, ao anoitecer de um dia de Páscoa, um jovem sacerdote encontrou padre Leopoldo que quase não conseguia ficar em pé pelo cansaço das muitas horas passadas no confessionário. Com um tom de filial compaixão disse-lhe: “Padre, como o senhor deve estar cansado...”; “e como deve estar contente...”, continuou ele com suavidade. “Agradecemos ao Senhor e pedimos-lhe perdão, porque dignou-se permitir que a nossa miséria tivesse contato com os tesouros da sua graça”. Na frente da portinhola do seu confessionário, todos os dias, um numeroso grupo de pessoas de todas as classes sociais ficava ali aguardando-o. analfabetos e rudes camponeses, profissionais liberais, sacerdotes e religiosos, magnatas da indústria e professores, todos esperavam em silêncio a sua vez, e padre. Leopoldo acolhia todos sempre com a mesma dedicação, a mesma discrição delicada, especialmente os que se reaproximavam da confissão depois de muito tempo. Certa vez, um senhor que há muitos anos não se confessava estava tão nervoso e confuso que, ao entrar no confessionário, ao invés de ficar ajoelhado, sentou-se na cadeira do padre; padre Leopoldo não disse nada e ficou ajoelhado no lugar do penitente, ouvindo assim a sua confissão. Sua delicadeza era atenta em não humilhar inutilmente, compreensivo com a fragilidade humana: “Não tenha medo, veja, também eu, embora frade e sacerdote, sou tão mísero” disse a uma outra pessoa. “Se o Patrão Deus não me tomasse pelas rédeas, faria pior do que os outros”... Muitas vezes repetia aos penitentes: “A misericórdia de Deus é superior a toda expectativa”, “Deus prefere o defeito que leva à humilhação do que a irresponsabilidade orgulhosa”. Crendo firmemente na eficácia da graça que o próprio Senhor comunica por meio dos sacramentos, padre Leopoldo em apenas um ponto foi sempre irremovível: a brevidade da confissão. Algumas vezes, é claro, nos dias de pouco movimento, detinha-se com uma pessoa, talvez por meia hora... Mas a confissão, como tal, era sempre breve. E os penitentes testemunham esta sua brevidade e simplicidade de palavras. Um Bispo de Pádua escreve: “A confissão com o Pe. Leopoldo era ordinariamente muito breve. Ele ouvia, perdoava, não muitas palavras, muitas vezes também em dialeto quando se dirigia a pessoas não instruídas, algum lema, um olhar ao crucifixo, algumas vezes um suspiro. Sabia que em via ordinária as confissões longas são negativas para a dor, e são, muitas vezes, satisfação de amor-próprio, portanto sobre a modalidade da confissão detinha-se no que era indicado no catecismo da doutrina cristã”. Numa carta endereçada a um sacerdote, padre Leopoldo escreve: “Perdoe-me, padre... mas veja, nós, no confessionário, não devemos fazer demonstrações de cultura, não devemos falar de coisas superiores à capacidade de cada alma, nem devemos nos prolongar em explicações, senão, com a nossa imprudência, arruinamos o que o Senhor está operando. É Deus, somente Deus que opera nas almas! Nós devemos desaparecer, nos limitar a ajudar esta divina intervenção nas misteriosas vias da sua salvação e santificação”. Nas penitências, o pequeno frade era magnânimo e dizia aos que reclamavam porque as dava fáceis: “Oh, é verdade... e depois precisa que eu satisfaça... mas é sempre melhor o purgatório do que o inferno. Se os que vêm até nós para se confessar e recebem de nós pouca penitência terminam por ir ao purgatório, se recebessem uma grande penitência, não correriam o risco de desistirem e terminarem indo ao inferno?” E assim, ordinariamente dava por penitência três Ave-Marias e três Glória Patri. Um homem amado e amável Todos o conheciam pela sua bondade... Tanto que quando em 1923 os superiores o transferiram a Fiume, para o povo de Pádua foi um dia de luto municipal. Mas pediram tanto, que os superiores tiveram de trazê-lo de volta. Também os jovens clérigos gostavam muito dele. Em 1910 foi nomeado diretor dos clérigos do seminário maior dos Capuchinhos. Conta um confrade do imenso afeto que tinha pelos seminaristas e como mostrava-se paterno com eles. “No inverno, pensava naqueles jovens coitadinhos... Mais de uma vez, lembro que Pe. Leopoldo ia até o superior para que antecipasse o ofício das matinas para a noite precedente: ‘Superior, esta noite fará muito frio... Deixemo-los dormir... Que repousem... eu rezarei por eles’. E cuidava para que estivessem bem de saúde, que comessem bem, que não fossem repreendidos pelos superiores...” Repreendido por ser indulgente nas confissões, o padre Leopoldo apontou para o crucifixo e disse: “Ele nos deu o exemplo! Não fomos nós que morremos pelas almas, mas foi Ele quem derramou o seu sangue divino. Portanto, devemos tratar as almas como Ele nos ensinou com o seu exemplo. Por que devemos humilhar mais ainda as almas que vêm prostrar-se aos nossos pés? Já não estão bastante humilhadas? Por acaso, Jesus humilhou o publicano, a adúltera, a Madalena? E se o Senhor me repreendesse por excessiva indulgência, poderia lhe dizer: ‘Patrão bendito, o Senhor que me deu este mau exemplo, morrendo na cruz pelas almas, movido pela vossa divina caridade’”... Devotíssimo de Maria, quantas vezes foi encontrado antes do amanhecer ajoelhado no chão diante da imagem de Nossa Senhora! Para ela fazia gestos de ternura infantil e a beijava e a implorava com lágrimas nos olhos, como um menino. Nos últimos tempos, doente, com câncer no estômago, as orações à sua “Patroa celeste” foram ainda mais comoventes. Pedia orações para continuar no ministério sacerdotal: “Suplique ao seu coração de mãe que eu possa servir humildemente Cristo Senhor segundo a natureza do meu ministério até o fim... Tudo pela salvação das almas... Tudo para a glória de Deus!” No alvorecer do dia 30 de julho de 1943 quis celebrar a missa, mas pela sua fraqueza foi levado à cama. Sentindo que suas forças estavam abandonando-o, pediu aos confrades que rezassem a Salve Rainha. Nos versos finais levantou os olhos cheios de lágrimas... Dulcis Virgo Maria, oh doce Virgem Maria. Este foi o seu último suspiro. Na noite anterior tinha confessado 50 pessoas! A última à meia-noite. Quarenta anos depois, em 16 de outubro de 1983, foi elevado à honra dos altares. |