I João:
Quem ama nasceu de Deus
e Conhece a Deus
(parte II)
4. Segunda parte (2,29-4,6): Viver
como filhos de Deus
4.1. Introdução (2,29-3,2): Somos filhos de Deus
Vocês sabem que Jesus é justo; reconheçam, pois, que todo aquele que pratica a
justiça nasceu de Deus.Vejam que prova de amor o Pai nos deu: sermos chamados
filhos de Deus. E nós de fato o somos! Se o mundo não nos reconhece, é porque
também não reconheceu a Deus. Amados, desde agora já somos filhos de Deus,
embora ainda não se tenha tornado claro o que vamos ser. Sabemos que quando
Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é.
A introdução da
segunda parte da carta apresenta um novo tema: a justiça, a partir do qual o
autor retomará os temas anteriores. Esse dado fez com que alguns estudiosos
afirmassem que a partir daqui teríamos uma outra carta, juntada posteriormente
num único texto.
Essa breve introdução desenvolve vários temas, e o mais importante deles parece
ser o da filiação divina, ou seja, o fato de sermos chamados filhos de Deus.
Esse seria um desdobramento de João 1,12, que diz: A Palavra "deu o poder de se
tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam, isto é, àqueles que
acreditam no seu nome". Temos portanto um único Pai e somos filhos no Filho. Do
Filho se diz que é justo. Em que consiste sua justiça? Parece que a carta
resgata um dos conceitos mais antigos de justiça, ou seja, o restabelecimento de
um equilíbrio perdido. Em outras palavras, a justiça de Jesus consiste em amar
e, como conseqüência desse amor, doar-se totalmente sem reservas (ver João
13,1). Ser filhos de Deus à semelhança de Jesus, o justo, é caminhar na justiça,
ou seja, no amor. Esse caminho não é claro nem está totalmente definido. Apenas
seu fim é salientado: seremos semelhantes a Jesus. Para nos tornarmos filhos no
Filho, a carta sugere, retomando os temas da primeira parte, três passos: romper
com o pecado, amar e discernir quando uma profecia é autêntica ou não.
4.2. Primeiro passo (3,3-10): Romper com o pecado
Todo aquele que deposita essa esperança em Jesus se purifica, para ser puro como
Jesus é puro. Todo aquele que comete pecado comete também violação da lei,
porque o pecado é violação da lei. Mas vocês sabem que Jesus se manifestou para
tirar os pecados, e que nele não existe pecado. Todo aquele que nele permanece
não peca. Todo aquele que peca não o viu nem o conheceu.
Filhinhos, que ninguém desencaminhe vocês. Quem pratica a justiça é justo, assim
como Jesus é justo. Quem comete o pecado pertence ao Diabo, porque o Diabo é
pecador desde o princípio. Foi para isto que o Filho de Deus se manifestou: para
destruir as obras do Diabo. Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado,
porque leva dentro de si a semente de Deus: não pode pecar, porque nasceu de
Deus. Desse modo, torna-se claro quais são os filhos de Deus e quais são os
filhos do Diabo: todo aquele que não pratica a justiça, isto é, que não ama ao
seu irmão, não é de Deus.
O texto estabelece
um nítido contraste entre a justiça e o pecado, ou seja, entre o amor e o ódio;
entre ser filhos de Deus e ser filhos do Diabo. Os filhos de Deus orientam-se
por Jesus, o justo, que ama e dá a vida; os filhos do Diabo, ao invés,
orientam-se pelo Diabo e não amam, sendo incapazes de dar a vida.
A primeira vista, parece haver contradição com o que foi dito a respeito do
mesmo tema em 1,8-2,2. Lá se afirmava que "se dizemos que não temos pecado
enganamos a nós mesmos... se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que
Deus é mentiroso". Essas eram sem dúvida afirmações dos Anticristos, que
sustentavam estar em comunhão com Deus sem estar em comunhão com as pessoas, ou
seja, sem amar concretamente. O texto que nos interessa diz que quem nasceu de
Deus e tem como ponto de referência Jesus, o justo, não pode pecar, ou seja, não
pode deixar de amar, porque a semente do amor é parte constitutiva do seu ser
filho de Deus. Pois pecado é ausência de justiça, isto é, ausência de amor. O
amor está na origem de nossa filiação divina. Quem é filho de Deus ama, ou seja,
não peca. Quem é filho do Diabo peca, ou seja, não ama.
E preciso notar que nos textos joaninos, sobretudo no Evangelho e nesta carta,
as palavras "pecado" e "pecados" não têm sempre o mesmo sentido. Geralmente
"pecado', no singular, refere-se a uma rejeição consciente e aberta de Jesus e
daquilo que ele representa, ou seja, a vida. Quando há essa rejeição radical, o
pecado permanece (veja João 9,41). "Pecados", em vez, não seriam o resultado
dessa rejeição, mas o resultado de limites ou contingências humanas. Nesse
sentido, todos cometem pecados por serem limitados, apesar da opção fundamental
por Jesus e seu projeto. E preciso, em cada caso, descobrir a partir do contexto
qual o sentido de pecado presente no texto. É esse discernimento que Jesus pede
aos discípulos em João 20,23: "Os pecados daqueles que você perdoarem serão
perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem não serão perdoados".
Afirma-se que Jesus se manifestou para destruir as obras do Diabo. Os que
nasceram de Deus, levando dentro de si sua semente transformadora, através do
amor continuam a obra de Jesus, agindo contra o ódio e a injustiça, que são
obras características do Diabo.
A carta não esconde que estamos num terreno escorregadio e que há o risco de
pessoas serem desencaminhadas (3,7a). Diante disso, insiste que quem pratica a
justiça é justo, e nos dá pelo avesso uma bela definição de justiça: praticar a
justiça é amar o irmão e, conseqüentemente, ser filhos de Deus (ver 3,10). O que
o autor pretende neste trecho, portanto, é convidar as comunidades a realizar o
primeiro passo para ser filhos de Deus, rompendo com o pecado.
4.3. Segundo passo (3,11-24): Amar
Porque esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns
aos outros. Não como Cairn: pertencendo ao Maligno, ele matou o seu próprio
irmão. E por que o matou? Porque as obras de Cairn eram más, e as do seu irmão
eram justas. Não estranhem, irmãos, se o mundo odeia vocês. Nós sabemos que
passamos da morte para a vida, porque amamos aos irmãos. Quem não ama permanece
na morte. Todo aquele que odeia o seu irmão é assassino, e vocês sabem que
nenhum assassino tem dentro de si a vida eterna.
Compreendemos o que é o amor, porque Jesus deu a sua vida por nós; portanto, nós
também devemos dar a vida pelos irmãos. Se alguém possui os bens deste mundo e,
vendo o seu irmão em necessidade, fecha-lhe o coração, como pode o amor de Deus
permanecer nele? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com
obras e de verdade. Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade; e
diante de Deus poderemos tranqüilizar nossa consciência; e isso, mesmo que a
nossa consciência nos condene, porque Deus é maior do que a nossa consciência, e
ele conhece todas as coisas.
Amados, quando a consciência não nos condena, sentimos confiança para nos
dirigirmos a Deus, e recebemos tudo o que lhe pedimos, porque cumprimos os seus
mandamentos e fazemos o que agrada a ele. E o seu mandamento é este: que
tenhamos fé no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros,
conforme ele nos mandou. Quem cumpre os mandamentos dele está com Deus, e Deus
está com ele. Assim, graças ao Espírito que ele nos deu, reconhecemos que Deus
está conosco.
O segundo passo é
amar. Retoma-se e aprofunda-se aqui o que foi exposto em 2,3-11. Estão presentes
o segundo e o terceiro níveis de conflitos de que falamos anteriormente. Cita-se
o primeiro fratricídio de que temos conhecimento na Bíblia: Caim mata Abel,
cometendo o maior crime contra a fraternidade. A tradição rabínica daquele tempo
afirmava que o Diabo havia sugerido a Caim que matasse seu irmão. Esse mesmo
pensamento encontra-se no Evangelho de João, quando Jesus acusa as autoridades
dos judeus de serem filhas do Diabo, ou seja, assassinas (ver João 8,44). O
Diabo aparece, portanto, como homicida desde o começo. Retorna o tema do "mundo"
enquanto realidade hostil à vida e ao projeto de Deus, e que odeia os cristãos
(3,13).
A carta contesta a opinião dos Anticristos, segundo a qual eles passariam da
morte para a vida sem o julgamento, mesmo não amando os irmãos. O autor
esclarece que "passamos da morte para a vida porque amamos aos irmãos". O amor
aos irmãos, portanto, é aquilo que nos tranqüiliza a consciência diante de Deus
no julgamento final (3,19).
O critério para saber se o amor é autêntico ou não é sempre a prática de Jesus.
No Evangelho de João ele afirmou: "Não existe amor maior do que dar a vida pelos
amigos" (15,13). Amor autêntico, portanto, é aquele que dá a vida. Por isso, a
falta de solidariedade com os necessitados é sinal de ausência de amor e de
Deus. O amor, pois, toca também as relações econômicas entre as pessoas.
Inútil querer amar apenas com palavras e com a língua, porque o amor verdadeiro
se traduz em obras concretas. Ao falar do amor ao próximo necessitado (3,17), a
carta retoma um dado importante do Evangelho de João, ou seja, o tema dos pobres
enquanto sacramento da presença de Jesus em nosso meio. Basta recordar o que
Jesus diz: "No meio de vocês sempre haverá pobres; enquanto eu não estarei
sempre com vocês" (João 12,8). Essa expressão, evidentemente, não foi escrita
para tranqüilizar a consciência, como se Jesus tivesse afirmado ser impossível
erradicar a pobreza. É, pelo contrário, um tremendo desafio: servir a Jesus
servindo aos pobres, pois eles são o sacramento de sua presença em nosso meio. A
carta entendeu isso muito bem, e confirma o que o Evangelho de João havia
sublinhado: esquecer-se dos pobres, não servindo-os, é prova de que não sabemos
amar e de que não amamos a Deus.
Esse trecho termina apontando para os temas da próxima parte, concentrando-os
num único mandamento: a fé no nome de Jesus Cristo e o amor de uns para com os
outros (3,23). Quem ama quase nunca o faz de modo perfeito. Nem por isso pode
deixar de amar, para não sufocar a semente que está na origem de sua filiação
divina. Nosso amor, portanto, expressa-se também a partir de nossas limitações e
condicionamentos. Se amamos apesar de nossas limitações, podemos tranqüilizar
nossa consciência diante de Deus, mas se deixamos de amar não conseguiremos
tranqüilizá-la. Deus, que logo em seguida será definido como sendo o amor (4,8),
compreenderá nosso amor limitado, pois é maior do que nossa consciência e
conhecedor de todas as coisas.
4.4. Terceiro passo (4,1-6): Os Anticristos pertencem ao mundo
Amados, não dêem crédito a todos os que se dizem inspirados; antes, examinem os
espíritos, para saber se vêm de Deus, pois no mundo já apareceram muitos falsos
profetas. Para saber se alguém é inspirado por Deus, sigam esta norma: fala da
parte de Deus todo aquele que reconhece que Jesus Cristo se encarnou. Todo
aquele que não reconhece a Jesus não fala da parte de Deus. Esse tal é o
espírito do Anticristo; vocês ouviram dizer que ele vinha, mas ele já está no
mundo.
Filhinhos, vocês são de Deus e já venceram os Anticristos, pois aquele que está
com vocês é maior do que aquele que está com o mundo. Eles pertencem ao mundo;
por isso falam a linguagem do mundo e o mundo os ouve. Nós, porém, somos de
Deus. Por isso, quem conhece a Deus nos ouve; e quem não é de Deus não nos ouve.
Com isso podemos distinguir o espírito da Verdade do espírito do erro.
O terceiro passo
para tornar-se filho de Deus refere-se ao discernimento. Estão presentes aqui o
primeiro e o quarto níveis de conflitos de que falamos anteriormente, e
retomam-se o terceiro e o quarto passos da primeira parte (2,12-28). O apelo ao
discernimento é aqui algo importante, pois nas comunidades todos se julgavam
ungidos pelo Espírito e se consideravam profetas, ou seja, em grau de dizer como
deveria ser a caminhada das comunidades para serem fiéis ao projeto de Deus.
Acontece que tanto os seguidores do Ancião quanto os Anticristos julgavam-se
profetas, ou seja, movidos pelo Espírito. Retorna, assim, uma grave e antiga
questão: qual a diferença entre o verdadeiro e o falso profeta? Em outras
palavras: como distinguir um do outro? 0 autor da carta pede que os fiéis não
dêem crédito a todos os que se dizem inspirados, mas que examinem os espíritos
para saber se a profecia é verdadeira ou não. E estabelece alguns critérios. A
pessoa inspirada por Deus reconhece a encarnação de Jesus Cristo; aquela que
nega a encarnação não é inspirada: é, como vimos, o Anticristo (2,22). Mais
ainda: para saber se um profeta é verdadeiro ou não, basta considerar a serviço
de quem ele está. Se presta serviço ao "mundo", a ele pertence e o "mundo" o
ouve, trata-se de falsa profecia; se presta serviço ao Reino, à vida, trata-se
de verdadeiro profeta.
Ao mesmo tempo em que convida ao discernimento, o autor afirma o fato de as
comunidades terem já vencido os Anticristos (4,4), ou seja, terem já conseguido
identificar aqueles que não falavam e não agiam da parte de Deus. 0 convite,
portanto, é para que as comunidades continuem o processo de discernimento e
assim não sejam desencaminhadas.
Continuando a pensar...
1. Quais as conseqüências desta afirmação: "Somos chamados filhos de Deus, e de
fato nós o somos"?
2. O que entendemos por pecado?
3. Quais são hoje as obras do Diabo que devem ser destruídas?
4. Se o amor é a raiz da religião cristã, por que ainda há tantas desigualdades
sociais?
5. Justiça não é legalismo, justiça é amor. Comentar.
6. O que entendemos por profecia?
7. A serviço de quem estão os falsos profetas de hoje?
José Bortolini e Paulo Bazaglia, em “Como ler as Cartas de João”, Editora Paulus