EVANGELHO DE MARCOS
Capítulo primeiro
1 - Quando foi escrito o
Evangelho
Em torno do ano 70. As comunidades estavam espalhadas pelo Império Romano.
Foi escrito para as Comunidades da Itália ou da Síria.
2 - Dificuldades da época:
a) Perseguições:
- havia muito medo. Em 64, na época de Nero, os cristãos tinham sofrido a
primeira grande perseguição. Muitos morreram ou desanimaram.
b) Rebelião dos judeus da palestina contra os romanos:
- entre os anos de 67 e 70, os Judeus da Palestina se rebelaram contra a invasão
romana. Jerusalém estava cercada pelos exércitos romanos e o Templo seria
profanado. Muitos cristãos viviam numa tensão: deviam ou não entrar na luta?
c) Quem é Jesus e como entender sua Cruz?
- os judeus não cristãos diziam que Jesus não podia ser o Messias porque um
condenado à cruz é um maldito (Dt 21,23). A cruz é loucura (1Cor 1,23). Estas
questões levaram algumas pessoas a terem idéias diferentes sobre Jesus. Quem é
Jesus? (4,41) O que quer dizer: Messias e Filho de Deus? (14,61).
d) Problemas de Liderança:
- A maior parte dos primeiros apóstolos e discípulos já tinha morrido.
Uma nova geração de líderes estava assumindo. Isto causava tensões, ciúmes e
brigas: quem é o maior? (9,34.37: 10,41).
e) Como ser discípulo de Jesus?
- A pergunta fundamental é esta: em meio a tantos problemas, como ser discípulo
e discípula de Jesus? Como garantir a fidelidade?
A mensagem de Marcos
Marcos dá um grande destaque aos discípulos:
A primeira coisa que Jesus faz , é chamar os discípulos: (1,16-20), e a última,
é também chamar seus discípulos (16,7.15). Ele os levava sempre consigo, em toda
parte. Dizia: “Eles são meus irmãos, minhas irmãs, minha mãe” (3,34). Em casa,
Jesus explicava tudo a eles (4,11.34).
Apesar de tudo isso, Marcos aponta as falhas dos discípulos:
- não compreendem as parábolas (4,13; 7,18)
- não têm fé em Jesus (4,40)
- não entendem a multiplicação dos pães (6,52; 8,20-21)
- não sabem quem é Jesus, apesar de conviver com ele (4,41)
- já não conseguem mais expulsar os demônios (9,18)
- brigam pelo poder (9,34; 10,35-36.41)
- querem ser donos de Jesus (9,38)
- levam um susto quando Jesus fala da cruz (8,32; 9,32; 10,32-40)
- Querem desviar Jesus do caminho do Pai (8,32)
- Afastam as crianças (10,13)
- Judas resolve traí-lo (14,10.44)
- Pedro chega a negá-lo (14,71-72)
- na hora que Jesus mais precisava, dormem (14,37.40)
- no fim, todos fogem (14,50)
Marcos insiste em apresentar os
defeitos do discípulos não para criticar mas, para colocar à frente das
comunidades, um espelho.
Vendo os defeitos dos primeiro discípulos, todos deviam tomar consciência dos
seus defeitos e, era uma oportunidade de conversão.
Outro motivo, era para que não desanimassem diante dos seus defeitos e das
muitas dificuldades (8,15).
O caminho de Jesus
Marcos começa o Evangelho dizendo: “Princípio da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho
de Deus!” (1,1) e termina dizendo: “Verdadeiramente, este homem era o “Filho de
Deus” (15,39). Marcos quer ajudar as comunidades primitivas a entender melhor o
sentido e o alcance da sua fé em Jesus, o Filho de Deus.
As etapas desta caminhada:
1- Mc 1,1-15 - Introdução e apresentação
2- Mc 1,16-6,13 - O entusiasmo no início da caminhada com Jesus
3- Mc 1, 35-8,21 - O mistério da pessoa de Jesus aparece.
Nos discípulos surge a crise.
4- Mc 8,22-13,37 - A cegueira causada pela luz escura da Cruz
é combatida pela instrução de Jesus.
5- Mc 14,1-16,8 - O fracasso final é apelo para recomeçar
tudo de novo.
6- Mc 16,9-20 - Conclusão e resumo.
Explicitando:
1 - O entusiasmo começa com o chamamento dos discípulos ~a beira do lago (1,16)
e termina com o envio para a missão (6,13).
2 - O desencontro e a crise aparecem já desde o início, durante a fase do
entusiasmo (1,35-38) e chega quase a uma ruptura (8,14-21).
3 - O período de instrução perpassa mais de cinco capítulos. Instrução através
de palavras (8,22-10,52), através de ações (11,1-12,44) e por meio de um
discurso (13,1-37).
4 - O fracasso final, que acontece durante a paixão e morte na Cruz, torna-se
apelo para um novo começo (14,1-16,8).
Segundo capítulo
O início da caminhada: o
entusiasmo (1,16 a 6,13)
Nos primeiros seis capítulos Jesus anda por toda parte, quase não pára. Os
discípulos estão sempre com ele. Há um grande entusiasmo. Tudo começou com o
chamado à beira do lago (1,16-20).Largam os barcos e as redes. Levi largou a
coletoria de impostos, fonte de sua riqueza (2,13-14). O seguimento supõe
ruptura. Formaram uma comunidade itinerante (3,13-14.34). O entusiasmo foi
crescendo até receberem uma participação plena no mistério de Jesus (6,7-13).
Os discípulos acompanham Jesus.
Entram na Sinagoga (1,21), na casa dos pecadores (2,15), passeiam pelos campos
(2,23), andam ao longo do mar (3,7; 5,1), ficam a sós para conversar (4,10.34),
vão à Nazaré (6,1).
Participam na dureza da nova
caminhada
Não sobrava tempo para comer (3,20), sentem-se responsáveis pelo bem estar de
Jesus e cuidam dele (3,9; 5,31; 4,36). A convivência se torna íntima e familiar.
Jesus deu até apelidos alguns: João e Tiago, Filhos do Trovão e à Simão, pedra
ou Pedro (3,16-17). Jesus vai à casa deles (1,29-31), curou a sogra de Pedro.
Andando com Jesus, seguem uma
nova linha
A atitude libertadora de Jesus lhes dá uma nova visão de certas normas
religiosas. Percebem o que serve para a vida e o que não serve. Arrancam espigas
em dia de sábado (2,23-24), entram em casa de pecadores (2,15), comem sem lavar
as mãos (7,2), e já não insistem em fazer jejum (2,18). Por isso são criticados
e condenados pelos fariseus (2,16.18.24). Jesus os defende (2,19.25-27; 7,6-13).
Jesus distingue os discípulos das
outras pessoas
Eles formam a sua nova família (3,33-34). A eles ‘e dado conhecer os mistérios
do Reino (4,11), os de “fora” têm olhos e não enxerga,, têm ouvidos e não
escutam (4,12). Depois de certo tempo Jesus chama doze para estar com ele e a
eles dá uma missão (3,13-14; 6,7-13): anunciar a Boa Nova, expulsar os demônios
e devem ir dois a dois.
A raiz do entusiasmo
Este início é marcado pela presença maciça do povo e pela difusão da Boa Nova
(1,28.45; 2,2.12; 3,7-10), sobretudo entre os pobres e marginalizados:
possessos, doentes, leprosos, paralíticos, pecadores, publicanos (1,23. 30. 32.
40; 2,3.15...). Começa também um conflito com as autoridades; escribas e
fariseus (2,6-11.18.24; 3,6-21; 6,2-3).
Na raiz deste grande entusiasmo está a pessoa de Jesus que chama. O Reino de
Deus chegou (1,15).
Terceiro capítulo
A crise dos discípulos (1,36 a
8,21)
Os discípulos seguem a Jesus com entusiasmo, mas ainda não conhecem Jesus. Aos
poucos vão percebendo que em Jesus tem algo que não bate bem com aquilo que eles
pensavam e esperavam. O próprio João Batista estava em dúvidas: “ É o Senhor,
ou devemos esperar outro” (Mt 11,3).
Alguns desencontros:
- Um dia foram em busca de Jesus para levá-lo ao povo que o procurava: “Todos te
procuram” (1,37) e Jesus disse: “Vamos para outros lugares. Foi para isso que eu
vim”(1,38).
- Jesus contou a parábola do semeador e eles não entenderam e pediram
explicação. Jesus disse: “Vocês não compreenderam esta, como vão entender as
outras?” (4,1-13).
- “Prestem atenção no que vocês ouvem! Com a mesma medida que vocês medirem,
serão medidos...” (4,24-25).
- Na barca, em meio à tempestade: “Não te importa que perecemos?...Então vocês
não têm fé?...Quem é este que até o mar e o vento obedecem?” (4,38-41).
- Em meio a uma multidão, uma mulher doente há doze anos tocou em Jesus e ele
perguntou aos discípulos: quem me tocou e eles reagiram: como vamos saber, o
Senhor está vendo a multidão que o comprime e ainda pergunta? (5,24-31).
- Na multiplicação dos pães Jesus diz: dêem vocês mesmos de comer... e eles
responderam: “então o Senhor quer que a gente vá comprar pão por duzentos
denários?” (6,32-37).
- Jesus caminha sobre as águas e os discípulos se apavoram, pensam que é um
fantasma e começam a gritar. (6,48-50).
- Marcos chega a comentar que os discípulos tinham um coração endurecido (6,52).
O próprio Jesus diz: “então nem vocês têm inteligência? (7,18).
O ponto crítico da crise
Em Marcos 8,14-21, está descrito o ponto crítico da crise. Os discípulos
estavam agindo da mesma maneira que os inimigos de Jesus: “têm olhos e não
enxergam, têm ouvidos e não escutam”(8,18).
Quanto mais Jesus explicava, menos os discípulos entendiam.
A causa da crise
A causa do desencontro estava na compreensão da esperança messiânica. Uns
esperavam um Messias Rei (15,9.32); outros, um messias Santo ou Sacerdote
(1,24); outros, um Messias subversivo (15,6 ; 13,6-8; Lc 23,5); um Messias
Doutor (1,22.27; Jo 4,25); um messias Juiz (1,8; Lc 3,5-9); um Messias profeta
(6,4; 14,65). Ninguém esperava um Messias Servo, anunciado por Isaías (Is 42,1;
49,3; 52,13). Inconscientemente os discípulos esperavam outro Messias e não o
Servo. Queriam que Jesus fosse como eles o desejavam.
Outra causa, esta mais profunda, foi a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai.
Jesus não cedeu, nem mesmo aos apelos dos amigos. “Vamos para outros lugares!
Foi para isso que eu vim” (1,38).
Capítulo quarto
Jesus instrui os discípulos (8,22 a 10,52)
Jesus percebendo a dificuldade da compreensão dos discípulos, começa a instruí-los. Ele começa a falar abertamente sobre a Cruz e sobre o messias, Servo. Jesus instrui através de palavras (8,22 a 10,52); através de testemunho e ação (11,1 a 12,44); e através de um discurso (13, 1-37). Na época em que Marcos escreve o Evangelho, o problema da Cruz não era só de Jesus, mas da Cruz do povo: perseguição, conflito com os judeus, incertezas, conflitos internos, doença e aqueles que tentavam abafar o clamor dos pobres (10,48). Desaparece o entusiasmo inicial, poucos são os milagres: só três, a cura de dois cegos e uma expulsão (8,25; 9,25-26; 10,52). Quase não há mais multidão, só Jesus e os discípulos.
A cura dos cegos... abrir os
olhos dos discípulos
A instrução acontece entre duas curas de cegos: um cego anônimo (8,22-26) e a
cura do cego Bartimeu (10,46-52). Podemos dizer que cegos eram também os
discípulos que tinham olhos e não enxergavam (8,18).
Na primeira cura (8,22-26), o cego não enxergou logo tudo, só na segunda
tentativa o cego enxergou direito. O mesmo aconteceu com os discípulos de Jesus:
Pedro enxergava pela metade - reconhecia em Jesus o Messias, mas Messias sem a
Cruz (8,32). Jesus corrige esta meia visão falando sobre o Messias que deve
sofrer e sobre o discípulo que deve carregar a Cruz (8,27-33). Na segunda,
Bartimeu, pela sua Fé foi curado e seguiu a Jesus.
Entre as duas curas está a longa instrução sobre o sofrimento e a cruz. Segue o
esquema:
1 - Cura do primeiro cego -
(8,22-26)
2 - Primeiro anúncio: (8,27-38)
3 - Instrução sobre o Messias Servo: (9,1-29)
- Transfiguração
- Ensino sobre Elias
- Sobre a fé em Jesus
4 - Segundo anúncio: (9,30,37)
5 - Instrução sobre a conversão: (9,38 a 10,31)
- Não são donos de Jesus
- Caridade e escândalo
- Igualdade homem e mulher
- Jesus e as crianças
- Perigo das riquezas
- Partilha e Comunidade
6 - Terceiro anúncio: (10,32-45)
7 - Cura do cego Bartimeu: (10,46-52)
Em cada um dos anúncio, Jesus
fala da Paixão, Morte e Ressurreição. (8,31; 9,31; 10,33). Os discípulos não
compreendem: no primeiro anúncio, Pedro não quer a cruz e critica Jesus (8,32).
Jesus reage e o chama de satanás (8,33). No segundo, os discípulos não entendem,
tem medo e cada um quer ser o maior (932,34). No terceiro, estão assustados, com
medo e querem promoção (10,35-37).
Jesus dá uma lição ao ver a atitude dos discípulos: No primeiro anúncio, ele
exige: negar-se a si mesmo, carregar a cruz e seguí-lo, perder a vida por causa
dele e do Evangelho, e não ter vergonha de sua palavra (8,34-38). No segundo,
exige: fazer-se servo de todos, receber as crianças, os pequenos, como se fossem
ele mesmo (9,35-37). No terceiro, exige: beber o cálice que ele vai beber, não
imitar os poderosos que exploram, mas sim imitar o Filho do Homem, que não veio
para ser servido, mas para servir (10,35-45).
Em dois dos anúncios Jesus pede silêncio (8,30; 9,30) , o mesmo
acontece na transfiguração (9,9). Isto devido à variedade que havia na esperança
messiânica. Nem todos estavam preparados para aceitar um condenado à cruz como
Messias.
As conseqüências da cruz
1 - A transfiguração (9,2 - 10)
Jesus aparece na Glória a Pedro, Tiago e João. Aparecem ainda, Moisés e Elias,
as duas maiores autoridades do AT. Além disso, uma voz do céu diz: “Este é meu
Filho amado! Ouvi-o” . Esta expressão evoca a idéia do Messias Servo, anunciado
por Isaías (Is 42,1). A expressão “ouvi-o”, evoca o profeta prometido no AT (Dt
18,15) . A Transfiguração é a confirmação que Jesus veio para realizar as
escritura. Os discípulos não podiam mais duvidar.
2 - A volta de Elias (9,11 - 13)
Segundo Malaquias, antes da vinda do Messias, Elias deveria voltar(Ml 3,23-24).
Como Jesus seria o Messias se Elias ainda não voltou? (9,11). Jesus responde:
“Elias já veio e fizeram com ele tudo o que quiseram, conforme está escrito”
(9,13).Jesus alude à morte de João Batista (6,16.27-28).
3 - A necessidade da Fé (9,14,29)
Somente a oração é que fortalece a fé. Os discípulos não conseguiam expulsar o
demônio de um menino doente (6,13). Jesus os acusa de geração sem fé (9,19).
Marcos relata ainda, algumas mudanças que devem haver no nível de
relacionamento.
a) - com os que não são da comunidade, abertura: “Quem não é contra nós é a
nosso favor” (9,38-40).
b) - com os pequenos e excluídos, o máximo de acolhimento (9,41-50)
c) - entre homem e mulher, o máximo de igualdade (10,1-12)
d) - com as crianças e suas mães, o máximo de ternura (10,13-16)
e) - com os bens materiais, o máximo de abnegação (10,17-27)
f) - entre os discípulos, o máximo de partilha (10,28-31)
Capítulo quinto
Algumas rupturas (11,1 a 13,37)
Nos capítulos 11 e 12 a instrução de Jesus acontece através da ação e do
testemunho.
Jesus se mantém em seu caminho (11,1-11)
Poucos dias antes da Páscoa, Jesus entra em Jerusalém triunfante. O povo aclama:
“Bendito o que vem em nome do Senhor” (11,9). Jesus aceita, mas com reserva.
Sentado num jumento evoca Zacarias: “Teu rei vem a ti, humilde, montado num
jumento. O arco de guerra será eliminado” (Zc 9,9-10). Jesus não é um Messias
guerreiro.
Jesus rompe com o Templo (11,12-26)
Jesus entra no Templo, expulsa os vendedores. O Templo é casa de oração e não
covil de ladrões. As autoridades procuram um meio para matá-lo. Os discípulos
entendem que seguir Jesus é perigoso.
Jesus rompe com os Sumos Sacerdotes e autoridades (11,27-12,12)
Estes querem saber com que autoridade Jesus faz esta coisas. Jesus não responde
e os condena. Continua a perseguição.
Jesus rompe com os fariseus e os herodianos (12,13-17)
Estes eram as lideranças dos povoados da Galiléia. Querem saber se Jesus é a
favor ou contra o pagamento de impostos. Jesus diz: “dêem a César o que é de
César, mas a Deus o que é de Deus”...devolvam a Deus o povo.
Jesus rompe com os saduceus (12,18-27)
Representam a elite aristocrática de latifundiários e comerciantes, são
conservadores e contrários à ressurreição.
Jesus rompe com os escribas (12,28-40)
Eram os responsáveis pela doutrina oficial. Jesus questiona o seu ensinamento
sobre o Messias, condena o comportamento ganancioso e hipócrita de alguns deles.
Jesus aponta onde se manifesta a vontade de Deus (12,41-44)
Jesus destaca o gesto caritativo da pobre viúva. Deus se manifesta nos pobres e
na partilha.
Jesus fala com alguns discípulos (13,3-37)
Jesus fez este seu último discurso para apenas quatro discípulos: Pedro, Tiago,
João e André. Trata sobre a destruição do Templo e o fim dos tempos. O discurso
conta com cinco partes:
1) 13,5-8 - não se deixem enganar pelos falsos Messias.
não fiquem alarmados com rumores de guerra.
não será logo o fim.
2) 13,9-13 -vocês serão perseguidos, não tenham medo.
- o Espírito Santo estará com vocês.
3) 13,14-27 -leiam os sinais dos tempos, isto ajudará a perceber a vinda do
Filho do Homem.
4) 13,28-32 -só Deus sabe a hora
5) 13,33-37 -fiquem bem vigilantes.
Quem é Jesus?
No fim, Jesus terminou quase sozinho. Quem era Jesus?
Para o povo.
Estava espantado com seu ensinamento (1,22); era algo novo, manda nos espíritos
impuros (1,27); o povo, porem, não descobriu a identidade de Jesus: João
Batista, Elias, um Profeta (8,28; 6,14-16).
Os parentes e o povo de Nazaré.
Os parentes achavam-no doido (3,21) e o povo de Nazaré não conseguia crer nele
(6,2-6).
As autoridades.
Por medo da popularidade condenavam Jesus em nome da tradição: como é que ele
pode perdoar? (2,7); come com publicanos (2,16); não faziam jejum (2,18); não
obedeciam o sábado (2,24); pediam um sinal (8, 11-12).
Os discípulos.
Apesar de tanta convivência e instrução, os discípulos continuavam cegos (8,18).
Capítulo seis
A morte na Cruz - (14,1-16,8)
1- A conspiração (14,1-2)
O pano de fundo para compreender a paixão foi a conspiração feita pelas
autoridades da época. Não permitiriam que um simples carpinteiro provocasse
tanta desordem.
2- A unção com perfume (14,3-9)
Uma mulher de Betânia unge Jesus com perfume. Os discípulos criticam, mas Jesus
a defende: “ela se antecipou em ungir meu corpo para o enterro” (14,6.8).
3- Atitude dos discípulos (14,10-31)
- 14,10-11 - Judas decide trair Jesus, conspira com os inimigos que lhe
prometem dinheiro. Continua a conviver com os outros, esperando uma oportunidade
para trair.
- 14,12-16 - Jesus, apesar de saber que será traído, quer celebrar a ceia
pascal com os seus.
- 14,17-21 - Jesus anuncia que será traído. Este anúncio é durante a ceia:
comer juntos, a mador expressão de intimidade e confiança.
- 14,22-25 - Jesus fez um gesto de partilha. Distribui o pão e o vinho
como expressão da doação de si e convidou os amigos a tomar o seu corpo e o seu
sangue.
- 14,26-28 - Jesus anuncia que todo fugirão. Os discípulos rompem com
Jesus, mas Jesus não rompe. Convida todos para o reencontro na Galiléia.
- 14, 29-31 - Jesus prevê a negação de Pedro.
4- Horto das Oliveiras (14,32-35)
Jesus entra em agonia e pede a Pedro, Tiago e João para rezar e eles dormem. Na
continuidade, Judas trai Jesus com um beijo e Jesus é preso.
5- O processo de Jesus (14,53-15,20)
Jesus é preso, julgado e condenado como uma ovelha sem abrir a boca. Assume ser
o Messias sob o título de Filho do Homem (14,62). Pedro nega a Cristo, e
recordando o que Jesus falou, chora. Jesus é condenado pelo poder romano sob a
acusação de ser o Messias Rei (15,2). Cuspido no rosto, Jesus não reage, aparece
mais uma vez o Messias Servo anunciado por Isaías (Is 50,6-8).
6- Jesus diante da cruz (15,21-39)
Na caminhada de Jesus ao Calvário, Simão de Cirene ajuda-o a carregar a cruz
(15,21-22)..
Jesus é crucificado entre dois ladrões. “Deram-lhe sepultura entre
criminosos”(Is 59,9). O Messias é Servo, mas a indicação da causa da morte é
“Rei dos Judeus” (15,25).
Abandonado por todos , Jesus solta um grito e morre. Um pagão descobre e aceita
o que os discípulos não foram capazes de aceitar: “Verdadeiramente este era o
Filho de Deus” (15,39).
7- Diante do sepulcro (15,40-16,8)
Algumas mulheres acompanham tudo, olham de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de
Tiago e Salomé. Continuam fiéis até o fim (15,40-47). No primeiro dia da semana
as três foram ungir o corpo de Jesus e recebem o anúncio da ressurreição
(16,1-8).
8- Um aparente fracasso
O interesse principal de Marcos não é contar o que aconteceu no passado, mas
provocar uma conversão nos cristãos de seu tempo e despertar a esperança, capaz
de superar o desânimo e a morte. Três aspetos devem ser assinalados:
8.1 - O fracasso dos eleitos
Aqueles doze discípulos, chamados e eleitos por Jesus (3,13-19) e por ele
enviados em missão (6,7-13) fracassaram. Judas traiu, Pedro negou e os outros
fugiram. Os discípulos, apesar dos defeitos, não têm malícia e má vontade. São o
retrato fiel de quase todos nós.
8.2 - A fidelidade dos não eleitos
Uns fracassaram, mas aparece a força da fé de outros: a mulher de Betânia que o
ungiu; Simão de Cirene, um pai de família, que carrega a cruz até o Calvário; o
Centurião romano que reconhece Jesus como Filho de Deus; Maria Madalena; Maria,
mãe de Tiago; Salomé e muitas “outras mulheres que subiram com ele para
Jerusalém” (15,41); José de Arimatéia. Os doze fugiram com medo , mas a
continuidade da mensagem do Reino foi garantida pelas mulheres que receberam a
ordem de chamar de volta os homens fracassados (16,7).
8.3 - A atitude de Jesus
A maneira utilizada por Marcos para relatar a atitude de Jesus durante a paixão,
‘e para dar esperança e motivação até mesmo ao discípulo mais desanimado. Jesus
os ama: na hora de anunciar a fuga de todos, já avisa que vai esperá-los na
Galiléia; apesar da traição, negação e fuga, transmite a Eucaristia; na manhã de
Páscoa, manda pelas mulheres, um recado a Pedro que o negou e aos outros: eles
devem ir para a Galiléia.
Capítulo sétimo
“Verdadeiramente este Homem era o Filho de Deus” (15,39)
O título “Filho de Deus” aparece no início do Evangelho “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1,1) e no fim, na boca do Centurião romano “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (15,39). Entre o começo e o fim aparecem vários outros títulos que nos ajudam a compreender o principal. Cada um deles é uma tentativa de expressar o que Jesus significava para as pessoas:
1 - Messias, Cristo (isto é,
Ungido) (1,1; 8,29; 14,61; 15,32)
2 - Senhor (1,3; 5,19; 11,3)
3 - Filho amado (1,11; 9,7)
4 - Santo de Deus (1,24)
5 - Nazareno (1,24; 10,47; 14,67; 16,6)
6 - Filho do Homem (2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31; 10,33.45; 13,26; 14,21.41.62)
7 - Noivo (2,19)
8 - Filho de Deus (3,11)
9 - Filho do deus altíssimo (5,7)
10 - Carpinteiro (6,3)
11 - Filho de Maria (6,3)
12 - Profeta (6,4.15; 8,28)
13 - Mestre (freqüente)
14 - Bom mestre (10,17)
15 - Filho de Davi (10,47.48; 12,35-37)
16 - Rabboni (10,51)
17 - Bendito o que vem em nome do senhor (11,9)
18 - Rabbi (11,21)
19 - Filho (13,32)
20 - Pastor (14,27)
21 - Filho do Deus bendito (14,61)
22 - Reis dos judeus (15,2.9.18.26)
23 - Rei de Israel (15,32)
Jesus não cabe em nenhum título,
em nenhum esquema.
Um nome, por mais bonito que seja, não revela o mistério de uma pessoa. As
pessoas chamavam Jesus com títulos que lhe interessavam: Santo de Deus, Filho de
Davi, Rei dos judeus, Messias, Filho do Deus Altíssimo. Afinal, quem é Jesus?
Jesus não aceitou esses títulos, somente dois merecem destaque para Jesus:
FILHO DO HOMEM e FILHO DE DEUS.
Filho do Homem, o nome que Jesus
usava para si
No Evangelho de Marcos, Jesus usa este nome, quase sempre para falar de sua
paixão, morte e ressurreição; “O filho do Homem vai ser entregue” (8,31;
9,9.12.31; 10,33; 14,21.41). Três vezes usa para indicar a glória: “Vocês vão
ver o Filho do Homem vindo nas nuvens” (14,62; 8,31; 13,26). Duas vezes
indicando poder: “O Filho do Homem tem o poder de perdoar os pecados” (2,10);
dono do sábado (2,28). Indicam três elementos: sofrimento, glória e poder. Uma
vez, indica como Servido(10,45).
O título Filho do Homem vem o Antigo testamento:
- Em Ezequiel, indica a condição humana do profeta (Ez 3,1.4.10.17; 4,1...)
- No livro de Daniel , ela aparece numa das visões apocalípticas (Dn 7,1-28).
Daniel descreve quatro impérios animalescos, brutais que perseguem e matam :
Babilônios, Gregos, Medos e Persas. São monstros. Depois destes reinos
anti-humanos, aparece o Reino de Deus que tem a aparência não de um animal, mas
sim de um Filho de homem. Um reino com aparência de gente, humano, que promove a
vida.
Para Daniel, a figura do Filho do Homem, representava o povo: “povo dos Santos
do Altíssimo” (Dn 7,27). Este Povo, está na Glória de Deus e recebe dele o
poder, mas passa por sofrimento e perseguição. Temos aqui os mesmos elementos:
sofrimento, glória e poder.
A missão do Filho do Homem é a missão de todo o povo de Deus. Realizar o Reino
de Deus como um Reino humano, que defende e protege a vida. Apresentando-se aos
discípulos como Filho do Homem, Jesus assume a missão o Povo de deus, dos
“Santos do Altíssimo”. Esta missão não é só de Jesus, mas de todos.
Jesus, o Filho de Deus: chave
para entender quem é Jesus
Marcos começa e termina seu Evangelho com a expressão Filho de Deus.
Pastoral vocacional - arquidiocese de Curitiba