A DESONRA DE SER IDOSO NA BÍBLIA
Se a velhice é louvada na Bíblia
como sinal de sabedoria, ela também não deixou de constatar que “velhice honrada
não consiste em ter vida longa, nem é merecida pelos números de anos. Os cabelos
brancos do homem valem pela sua sabedoria, e a velhice pela sua vida sem
manchas” (Sab. 4,7 - 9). Quem não soube acumular sabedoria chegará ao final da
vida desonrado. Ninguém vai perder tempo para ouvir suas lorotas. Salomão é um
exemplo desse tipo de idoso que se torna um louco, não sábio. Nesse caso, a
perda foi lastimável, pois Salomão foi cumulado de sabedoria por Deus na sua
juventude e a deixou escapar. Quando o jovem Salomão reinou, a paz reinou em
Israel. Ele construiu uma casa para Deus. Sabia decifrar enigmas. Seu nome ficou
conhecido entre os povos. Trouxe riqueza para o seu povo. Mas tão logo a velhice
chegou, Salomão perdeu a sabedoria. Ou nunca a teve? O livro do Eclesiástico
denuncia-o com duras palavras: “Entregaste teu corpo a mulheres, deste-lhes
poder sobre teu corpo. Manchaste a tua glória, profanaste a tua raça, a ponto de
fazer vir a cólera contra teus filhos e a aflição até à loucura: erigiu-se um
duplo poder, surgiu de Efraim um reino rebelde” (Eclo 47,19 - 21).
Outro exemplo de idosos que não acumularam sabedoria durante a vida é o dos dois
anciãos do episódio da bela e devota Susana, esposa de Joaquim, um rico que
possuía um belo jardim. Susana costumava passear com o marido nesse local e um
dia resolveu também tomar banho. Havia dentre o povo dois anciãos que exerciam o
papel de juiz. Ambos desejaram o corpo de Susana e tramaram para poder deitar-se
com ela. E aconteceu que quando Susana estava sozinha em seu banho no jardim,
eles saíram do esconderijo e procuraram convencê-la de se entregar a eles.
Susana reagiu com gritos e os seus familiares logo se ajuntaram. Os anciãos
disseram que um jovem estava com ela e que por isso as criadas não estavam por
perto. No dia seguinte, Susana foi acusada por eles diante de Joaquim e do povo.
E enquanto ela era levada para fora da casa para ser apedrejada até à morte, eis
que Deus mandou o espírito de um jovem adolescente, chamado Daniel, para
defendê-la. Daniel acusou o povo de julgá-la sem conhecer a verdade. Convocou o
povo para voltar ao lugar do julgamento e pediu que os anciãos fossem colocados
bem distantes um do outro para serem julgados por ele. À pergunta, em separado,
sobre o tipo de árvore que Susana estava com o jovem, eles se contradisseram. E
foram condenados à morte. Susana foi libertada. As palavras de acusação
proferidas por Daniel (Deus) contra os anciãos foram duras: “Ó tu que
envelhecestes no mal! Agora aparecem teus pecados, que cometestes no passado:
fazendo julgamentos injustos, condenavas os inocentes e o justo!” (Dn. 13).
E como em qualquer sociedade, a presença de homens e mulheres injustos, mesmo
sendo idosos, é quase que inevitável, vale o conselho pastoral da Carta de Tito:
“Que os anciãos sejam sóbrios, respeitáveis, sensatos, fortes na fé, no amor e
na paciência. As mulheres idosas também devem comportar-se como convém a pessoas
sensatas: não sejam caluniadoras, nem escravas de bebida excessiva; pelo
contrário sejam de dar bons conselhos de modo que as recém-casadas aprendam com
elas (Tt. 2,2 - 4).
O ser humano que não cultivou a sabedoria, torna-se um idoso desrespeitado e sem
a alegria de viver para si e para os outros.
publicado no Jornal de Opinião - Belo Horizonte: Fumarc, 2003
frei Jacir de Freitas Faria,
OFM