CAIM DEVIA TER MATADO ABEL!
Análise de Gn 4,1-16 na perspectiva da violência nas
origens
Resumo
O estudo que apresentamos quer ser uma análise retórica de Gn 4,1-16 na perspectiva da violência nas origens, bem como do valor simbólico que evocam os nomes de Caim e Abel. É importante analisá-los como agricultor e pastor, mas também como protótipos do agir humano luta pela sobrevivência.
Introdução
Além de representarem as profissões de Agricultor, pastor e ferreiro, Caim e Abel são todos e qualquer ser humano na difícil tarefa de procurar um relacionamento que não seja o do interesse, da inveja e do ciúme. Enfim, que não seja aquele que produza violência. E violência gera violência. Essa máxima conhecida de todos. Não basta revidar um ataque terrorista com outro ataque. Com certeza, a resposta será imediata. Em nossos dias, cresce cada vez mais a violência em seus mais variados modos: corporal, moral, econômica, social, política, religiosa. A violência hoje se chama droga, ataque terrorista, corrupção política, favela, etc. A classe média brasileira nunca gastou tanto em sistema de segurança, como se isto fosse a solução para o problema da violência. Enquanto não houver justiça social a famosa frase de Plauto continuará a imperar: “Homo homini lupus” (O Homem é o lobo do homem). Infelizmente, o sonho de uma sociedade nova, de um ser humano novo, parece cada vez mais distante. O que não nos impede e perguntar pela origem da violência e buscar na Bíblia textos iluminadores do tema. E será esse o fio condutor de nossa análise de Caim e Abel, em Gn 4, 1-16 (Nota 1)
1 - Qual é a origem da violência?
A origem da violência está em cada um de nós e na relação
que mantemos com o sagrado. O uso arbitrário do poder
origina violência, que, por sua vez, gera injustiça,
insegurança e a afastamento de Deus.
O antropólogo francês, René Gerard, famoso pelo seu livro: A
violência e o Sagrado, publicado pela primeira vez em 1972,
afirma que (Nota 2) a violência está na base da sociedade e
da cultura, sob a forma dissimulada do bode expiatório. Cada
um deseja o que o outro deseja, o que desencadeia uma
rivalidade constante e ameaçadora, que se identifica com o
sagrado, potência sobrenatural opressora, externa ao ser
humano, verso o qual a humanidade tem sempre um sentimento
de atração e repulsa ao mesmo tempo. Por isso, o bode
expiatório, sacrificado em um ritual, serve para apaziguar e
controlar a violência. Sacrifica-se um e todos ficam
contentes. A culpa fica assim atribuída ao bode. E a
violência se apazigua momentaneamente. George Busch afirmou
recentemente que o seu povo não vai dormir em paz enquanto
não encontrar e destruir os culpados do atentado aos USA.
Aqui estamos diante de um bode expiatório ao inverso. Desse
modo, a violência nunca vai chagar ao fim.
2 - A violência na Bíblia
As comunidades que escreveram os textos Bíblicos nos legaram
duas narrações sobre a criação (Gn 1, 1-2,41a e Gn 2, 4b-24)
e dois relatos sobre a violência nas origens (Gn 3, 1-24 e
Gn 4, 1-16). Essa oposição põe em evidência o binômio bem e
mal presente no início da humanidade. Tudo isto, é claro, na
perspectiva de reflexão teológica sobre a vida e o proceder
de quem produziu esses textos. Adão, Eva, Caim e Abel nunca
existiram como indivíduos.
O primeiro texto sobre a violência (Gn 3,1-24) deixa claro
que essa consiste em abdicar a paternidade/maternidade
divina. O ser humano parece ter chegado ao cúmulo de não
mais se reconhecer como filho de Deus.
O segundo texto sobre a violência não é a conseqüência do
“pecado original” dos pais, como quis a interpretação
tradicional desse texto, mas o atestado de óbito da
humanidade que se autodestrói. Um irmão mata o seu próprio
irmão! A paternidade/maternidade divina está violentada.
Analisemos exegeticamente essa passagem. (Nota 3)
3 – O texto de Gn 4,1 -16 e sua estrutura literária
Vamos aplicar ao texto de Gn 4, 1-16 o método exegético de
interpretação de um texto bíblico chamado de análise
retórica. O procedimento consiste, primeiramente, em
delimitar estrutura literária do texto em questão, na sua
relação como os textos anteriores e no interno dele mesmo.
De posse dessa delimitação é inicia-se a análise
exegético-teológica.
O texto de Gn 4,1-16 pode ser delimitado por termos iniciais
ou finais, isto é, substantivos ou frases que contornam o
texto distinguindo-o do texto anterior e posterior. Esses
termos são também chamados de “motivos literários” que
possibilitam a identificação de uma passagem ou perícope
bíblica.
Os termos iniciais são:
4, 1: “O homem conheceu Eva”...
4, 17: “Caim conheceu sua mulher”...
3, 24: “Ele baniu o homem e o colocou diante do jardim do Éden”...
4, 16: “Caim se afastou da presença do Senhor e habitou na terra de Nod, a leste de Éden”...
4,1: aparece o nome “Caim”, em hebraico, Qaîn, o qual se relaciona com o “adquiri”, em hebraico, qanîtî, que vem logo a seguir.
4,16: aparece o nome “Nod”, em hebraico, nôd, que por sua vez, se liga à ordem dada a Caim por Deus, no versículo 14: “ser um errante”, em hebraico, nad. Morar na “terra de Nod” é já cumprir a sina de ser um errante.
4,1: Eva expressa a sua alegria ao conceber Caim dizendo: “Adquiri um homem com a ajuda do Senhor”.
4,16: O fim da história de Caim se resume em: “E Caim se afastou da presença do Senhor”.
I – 4, 1 - 5a: A vida de dois irmãos diferentes
II – 4, 5b - 7: A tentação de Caim
III -- 4, 8 - 16: O fratricídio e suas conseqüências
4. Gn 4, 1 - 5a: a vida de dois irmãos diferentes
Essa primeira parte da passagem em questão delineia o perfil de Caim e Abel, ora como objetos, ora como sujeitos de ações. Desse modo, podemos também dividir Gn 4, 1-5a em três partes, a saber:
4, 1- 2a : Caim e Abel como objetos do gerar dos pais.
4, 2b - 4a: Caim e Abel como sujeitos
Abel: - pastorear de ovelhas;
- oferecer primícias e gorduras do seu rebanho ao Senhor.
Caim: - cultivar a terra
- oferecer produtos do solo em oferenda ao Senhor.
4, 4b-5a: Caim e Abel são objetos da eleição divina. O Senhor se agrada das ofertas de Abel e rejeitas as de Caim.
E como não bastasse, o nascimento dos irmãos são
marcados por diferenças fundamentais.
a) O nascimento de Caim
O texto diz: “O homem conheceu Eva, sua mulher. Ela
engravidou, gerou Caim e disse: Adquiri um homem, com a
ajuda do Senhor” (v1).
No hebraico, o substantivo qaîn significa ferreiro. Ele
deriva da raiz verbal que, por sua vez significa
comprar, obter, fundar, criar, procriar. Daí a afirmação
“adquiri um homem” e não “um filho”. Observamos
nitidamente uma ambigüidade no texto: Eva procriou um
“homem-filho” e obteve um “homem-marido”. O texto parece
a ressaltar que, embora Gn 2,23 tivesse dito que a
“mulher foi levada ao homem”, o homem (Caim) provém da
mulher e não contrário (4, 1). Em todo caso, o texto
valoriza o nascimento de Caim-homem. Isto significa que
Caim seria um herói ou um semideus? Não sabemos.
Eva, ao louvar o nascimento de Caim, expressa toda a sua
alegria e gratidão pelo ocorrido. Nisso está a esperança
promissora do filho ora gerado. No entanto, esse não
será o futuro de Caim. Ele não será abençoado. O
insucesso será a sua sina. A promessa de esperança não
se realiza. Deus age em favor de Eva e contra Caim.
b) O nascimento de Abel
O texto diz: “Ela gerou ainda o irmão dele, Abel”
(v.2a).
No hebraico hêbêl significa, vento, sopro, hálito, algo
efêmero, vazio, insignificante, fugaz, ilusão, luto,
lamento, choro, desengano. Abel é o representante da
tragédia humana, na sua fugacidade. O livro do
Eclesiastes, quando diz que “tudo é vaidade das
vaidades” (Ecl 1,1) usa o substantivo habel. Tudo é
fumaça, tudo é passageiro. Abel é símbolo de todas as
frustrações do ser humano: luto, dor, fraqueza. Por
isso, o nome dado por Eva ao seu segundo filho quer
mostrar a fragilidade do ser humano, já no início da
criação, não obstante o triunfo magistral do seu
antecessor, Caim. Abel representa também todo Adão, ou
seja, aquele que veio do pó da terra. Assim, Eva dá à
luz a Abel, aquele que “nasceu somente para morrer”. Não
há o que fazer. A violência gera sempre um Abel, vários
abéis. Sem violência todo e qualquer Abel deixará de
existir. E é isso que o conto/mito de Abel e Caim nos
mostrar.
c) Os dois irmãos
O texto afirma antes do anuncio do nome Abel que ele é
irmão de Caim. O substantivo na passagem em questão nada
menos que sete vezes (vv. 2a; 8a; 8b; 9a; 9b; 10; 11), o
que nos indica que este é um tema essencial. A narração
é, de fato, sobre dois irmãos que se tornam rivais. Caim
é o primogênito. No mundo semita, ser primogênito
significa poder e privilégio na herança e bênção. E
nisso também está origem da violência nas origens. A
primogenitura de Caim lhe daria a certeza do sucesso, o
que vem reforçado pelo nascimento do irmão. A desilusão
é a matriz da violência posterior. Caim será sempre o
protótipo de todo ser humano que luta pelos seus
direitos roubados. Mesmo que isso gere violência.
d) A diferença cultural
O texto diz: “Abel apascentava as ovelhas, Caim
cultivava o solo” (v.2b).
A diferença cultural aparece logo no início do relato:
Abel é o pastor nômade de ovelhas e Caim, o agricultor
sedentário. Caim, matando o nômade, recebe como castigo
a aplicação da lei do talião, deve tornar-se “nômade”
errante. A comunidade que produziu esse texto, não
estaria querendo explicar o conflito vivido por ela? O
povo da roça estava sendo expulso para as cidades. As
cidades eram símbolos de idolatria. No deserto, a vida
não era assim. E nessa relação estava a violência.
Bastava remetê-la às origens. E foi o que a comunidade
desse texto fez.
Caim seguiu a profissão do pai Adão, ou melhor a sua
condenação: a de cultivara terra. Por outro lado, a
história da salvação nos mostra que os pastores Abraão,
Isaac e Jacó foram os escolhidos.
e) A diferença no culto
O texto diz: “No fim da estação, Caim trouxe ao Senhor
uma oferenda de frutos da terra; também Abel trouxe
primícias dos seus animais e a gordura deles” (v.3-4a).
A referência “fim da estação” denota o tempo esperado e
necessário para que o trabalho dos dois irmãos dê os
primeiros frutos, seja oriundo da terra, seja dos
animais. E oferta parece normal para a cultura que eles
representam no relato. Uma oferta não tem privilégio
sobre a outra. A diferença aqui se baseia, de fato, no
produto oferecido. Deus não teria como se agradar de
uma, em detrimento da outra. Mas não é isso que ocorre.
É o que veremos a seguir.
f) A diferença no sucesso
O texto diz: “O Senhor voltou seu olhar para Abel e sua
oferta , mas de Caim e da oferenda que trouxera desviou
o olhar” (v. 4b-5a).
Desviar o olhar significa dizer que Deus não se agradou
de Caim e nem de sua oferta. No Primeiro Testamento,
“voltar o olhar” (sh‘h) aparece 10 vezes e não está
ligado ao fato de aceitar ou não uma oferta. Não estaria
esse verbo, no texto em questão, colocado de forma
estratégica a fazer o leitor perceber o que vem dito a
seguir: Caim passou a andar com o rosto abatido, olhando
para a terra, isto é, caído. E nisso está uma diferença
evidente entre os dois irmãos. A língua hebraica tem um
recurso literário chamado quiasmo que nos ajuda a
entender esse contraste querido na narração. Uma idéia é
colocada em relação à outra na forma de cruz. No texto
ficou assim:
a: O Senhor voltou seu olhar b: para Abel e sua oferta,
b’: mas de Caim e da oferenda a’: desviou o olhar.
Estamos diante de um texto enigmático. Por que Deus age
de maneira diferente com Abel e em relação a Caim? Quais
são os motivos para aceitar uma oferta e rejeitar a
outra? Não estaria Deus mesmo originando a violência nas
origens? Qual era o objetivo da comunidade que produziu
essa história de dois irmãos rivais? E por que eles se
tornaram rivais? Essas perguntas não são fáceis de serem
respondidas. O fato de o conto imaginar dois irmãos
diferentes, equivale colocar a questão da desigualdade e
constatar o surgir da violência e inveja já nas origens.
O que também não de tudo verdade dizer que entre eles só
existem diversidades. O ser irmão, a igualdade entre
eles faz com que um grite: “eu estou privado daquilo que
o outro tem”. Esta constatação é insuportável e daí
nasce a violência. E onde, então, estaria a culpa? Em
Abel? Em Deus mesmo? Em Caim? A tradição encontrou
muitas justificativas para colocar a culpa em Caim. Ele
teria nascido da relação entre Eva e a serpente, conta
um midraxe rabínico. Caim era um avarento, diz o
historiador Flávio Josefo. A oferta de Caim veio da
terra maldita anteriormente por Deus e, por isso, não
poderia ser aceita. Colocar a culpa em Deus pode ser
também possível. A literatura apocalíptica mostra que o
bem e o mal têm a origem em Deus. Ele perdoa e castiga.
Não foi assim que aconteceu com a criação? Adão e Eva,
isto é, os seres humanos, foram criados para o bem, mas
acabaram fazendo do mal. Bem e mal estão dentro de cada
um de nós. E nós somos imagem e semelhança de Deus.
Nessa história toda, sempre tem um tentador e um que é
tentado. Imaginemos que esse seja Caim.
5 - Gn 4, 5b - 7: a tentação de Caim
O texto pode ser dividido em duas partes: v. 5b e
vv.6-7.
O texto da primeira parte diz: “Caim irritou-se muito
com isto, e seu semblante ficou abatido”.
Caim está irritado, se sente desfraldado, sua situação é
injusta e insuportável. Com isso, o seu semblante só
podia ficar abatido. Tristeza misturada com ira o
dominou. E que não fica assim, ao sentir-se
vilipendiado, ainda mais por Deus. Nesse sentido, é
normal Caim sentir-se movido a fazer o mal, isto é, ser
tentado a agir de modo errado. Essa tentação está dentro
de cada um de nós. Por pior que haja alguém, ele quer
sempre eliminar aquilo que não o impede de ser. O batido
não nasce bandido. Ele é feito bandido. O terrorista é
gerado por sistemas iníquos. Afirmou o líder do
movimento terrorista Taliban: “Saibam Israel e seu
comparsa EUA que nós somos fruto do mal que ele nos
faz”. E não por menos, esse exército de terroristas
suicidas aprende as lições de casa desfilando sobre as
bandeiras desses dois países. Violência gera violência.
O texto da segunda parte diz: “O Senhor disse a Caim:
Por que te irritas? E por que o teu rosto está abatido?
Não é assim: se fizeres o bem, o levantarás, e se não
fizeres o bem, o pecado jaz à tua porta como um animal
acuado que te deseja? Mas tu, domina-o”.
O texto mostra um diálogo imaginário entre Deus e Caim,
o qual é, na verdade, a voz interior que está dentro de
cada um de nós. É a comunidade do texto procurando
resposta para essa situação angustiante que nos assola.
A pergunta desconcertante ou taxativa de Deus coloca
Caim entre dois caminhos do bem:
a) “Se tu fazes o bem, Deus levantará a sua cabeça, agirá em seu favor”. Caim deve agir com justiça, isto é, fazer o bem, e esperar pela aça, também justa, de Deus. E Caim pode agir assim. O fato de Deus não ter aceitado a oferta de Caim, não significa necessariamente que Ele o rejeitou. Parece que a comunidade do texto esteja querendo justificar em Deus um fato que pode ocorrer com muitos de nós: tudo vai mal, nada dá certo. Mas, não é essa a nossa condição própria de humanos? Não é resistência acreditar que tudo pode mudar? Deus intervirá em nosso favor. Essa é certeza que precisamos acreditar. Basta fazer o bem, o resto fica por conta de Deus.b) “Se tu fazes o bem, podes levantar a cabeça. O fazer o bem provoca, automaticamente, alegria no rosto e cabeça levantada”. A boa ação de Caim fará dele um ser humano bom e alegre. A tristeza no seu rosto é o sinal evidente que ele está agindo mal.
O agir mal de alguém se transforma em um animal agachado à porta de nossas casas esperando para dar o bote. O animal acuado é o símbolo do perigo, da tentação que deve ser dominada. Ele mora dentro de cada um de nós. E está sempre pronto para atacar. Assim também ocorreu com a serpente e a Eva. Ou a Eva/serpente/Adão? Basta que eu deseje o que outro tem ou me sinta lesado nos meus direitos, para que o animal entre em ação. E por mais violento que seja o animal, o mal será maior. Após o famoso ataque terrorista aos USA, representante mor do neoliberalismo, esse “leão” ficou enfurecido. E quem não tem medo de um leão enfurecido? Não é ele “o rei da selva”? Por outro lado, a decisão de agir em favor do bem ou do mal cabe a cada um de nós. Nisso está o sagrado mistério da liberdade. Nisso está a morte e a vida de outrem e de mim mesmo.
6 – Gn 4, 8-16: o fratricídio e suas conseqüências
A terceira parte do nosso conto pode ser dividido em
três partes: v. 8; 9-15a e 15b-16. O diálogo entre Deus
e Caim está no centro. Tendo as ações de Caim no início
e no fim do relato.
A primeira parte diz respeito às ações de Caim. O texto
afirma: “Caim falou a seu irmão Abel: ‘Saiamos’ e,
quando foram ao campo, Caim atacou seu irmão Abel e o
matou”.
O conto/mito narra solenemente o “primeiro” assassinato
realizado entre os seres humanos. E como ele foi
violento. Chegou a ser um fratricídio, um irmão matou o
seu próprio irmão. A bem da verdade, esse não foi o
primeiro assassinato, ele foi, sim, o modo encontrado
para explicar os tantos assassinatos, a violência
instaurada e institucionalizada na época em que o texto
foi escrito. A resistência à violência implicava também
encontrar uma explicação originária para ela.
O violento “Caim” escolhe o campo, lugar solitário e sem
testemunhas, para realizar a violência. A injustiça é
feita às escondidas e o malvado procura esconder as
pegadas de sua violência.
Imagine, trazendo para os nossos, a atualidade desse
texto: os terroristas que atacaram as Torres de Nova
York e o Pentágono planejaram longos anos a fio o
atentado. Estudaram nas escolas do inimigo. Escolheram
vôos que saiam simultaneamente. Um terrorista acreditou
que o outro não iria traí-lo. E CIA nenhuma, por mais
dinheiro que usasse para descobrir planos terroristas,
não foi capaz de descobrir tamanha ação.
A segunda parte (vv. 9-15a) diz respeito ao diálogo ente
e Caim. O texto relata: “O Senhor disse a Caim: Onde
está o teu irmão Abel? Não sei, respondeu ele. Sou eu o
guarda de meu irmão? 10 Que fizeste?Ele retrucou. A voz
do sangue• do teu irmão clama do solo a mim. 11 És agora
amaldiçoado, banido do solo que abriu a boca para
recolher da tua mão o sangue do teu irmão.12 Quando
cultivares o solo, ele não te dará mais a sua força• .
Serás errante e vagabundo sobre a terra. 13 Caim disse
ao Senhor: Meu crime é pesado demais para carregar. 14
Se hoje me expulsas da extensão deste solo, serei
expulso da tua face, serei errante e vagabundo sobre a
terra, e todo aquele que me encontrar me matará. 15 O
Senhor lhe disse: Pois bem• ! Se matarem Caim• , ele
será vingado sete vezes.”
O relato, nesses versículos, é marcado pelo diálogo
entre Deus e o Caim. Deus fala no início, meio e fim. O
esquema assim se revela:
Das traduções acima, o sujeito do verbo suportar ou
perdoar pode ser Caim ou Deus. (Nota 4 ) Se o sujeito
for Caim: ele (Caim) se sente incapaz de assumir a
própria culpa e suas conseqüências e, portanto, pede
clemência a Deus. Se o sujeito for Deus: ele (Deus),
segundo a opinião de Caim, não poderá perdoar o seu
crime, pois esse é grave demais. A conseqüência do “não
perdão” é o desespero total de Caim. O ser fugitivo é
conseqüência de um pecado irreparável.
Melhor seria considerar o sujeito de modo indeterminado
e traduzir o v. 13: “Minha culpa é por demais grave para
ser suportada, seja por mim, seja por Deus, seja para
quem me encontre”.
Conseqüência dessa tradução:
1) A gravidade da culpa expõe Caim à vingança;
2) Caim afirma que o pecado exige o castigo;
3) O castigo produz violência. O violento é obrigado a escapar sempre, pois será sempre um ameaçado por todos. Quem assassina será assassinado.
4) Nem mesmo a pena suavizada, no caso o exílio, impede a violência;
5) A vontade de Deus em salvar o violento deixa de ser eficaz;
6) O fato de o culpado ser abandonado como vagabundo e indefeso, ele é entregue nas mãos de um potencial assassino, um vingador de sangue.
A terceira parte do relato (vv.15b-16) diz respeito às
ações de Deus e Caim. Deus, com um gesto enigmático,
coloca um sinal sobre Caim e esse passa a ser um
medroso, um ameaçado. O culpado nunca consegue se ver
livre da culpa. E ele deve assumir o seu papel. A
violência instaura o terror. E por mais paradoxal que
seja, o medo de Caim, simbolizado pelo sinal, fará com
que a vida permaneça sobre a terra.
A Caim, ao ser humano, só resta fugir da presença de
Deus e ir morar na terra de Nod, onde vivem os errantes,
o sem pátria. Até que um dia o Éden volte a ser uma
realidade na sua vida. A esperança permanece. A
violência deixará de existir. É preciso sonhar sempre.
Só quando houver justiça social é que não mais haverá
violência, ataques terroristas.
7 - Caim fez bem ao matar Abel!
O estudo que fizemos até o momento deixou claro que a
interpretação das personagens Caim e Abel foi
marcadamente acentuada pelo papel que eles exerceram
como Agricultor e pastor. No entanto, se faz necessário
interpretá-los também como ferreiro e vento.
a) Caim: ferreiro, imagem da violência e da morte
Caim significa ferreiro, profissão que surgiu na lá pelo
ano 1200 a.E.C. Como o povo via o ferreiro na
antiguidade? “O ferreiro gozava duma fama fora do comum
em toda a antiguidade. Boa e má. Era respeitado,
venerado e também temido e odiado.
Tudo isso devido à sua profissão e à sua ligação com o
céu e o inferno. Antes de mais nada, ele era um artesão
e um técnico que conhecia o segredo da transformação do
metais, bronze e ferro. Fabricava instrumentos de
utilidade doméstica, religiosa e militar: lanças,
espadas, machados, facas, setas, martelos, ídolos,
amuletos, imagens dos gênios ancestrais.
Tinha fama de mago e feiticeiro. Fora colaborador dos
deuses na criação do mundo e arquiteto dos seres.
Chamavam-no “senhor do fogo”, porque transformava
matéria, endurecia o metal, criava formas novas em sua
forja. Fazia até instrumentos para os deuses: o rio era
obra sua. O forno químico do mundo foi preparado pelo
ferreiro. Desse forno saiu o universo com tudo o que
existe.
Seus títulos de glória causavam inveja até nos deuses:
fundador de cidades, herói protetor da aldeia, primeiro
homem das classes nobres. Ensinou como abater os animais
com instrumentos de ferro. Trouxe do céu o fogo e as
sementes. Era também médico que curava as doenças e
preservava do mau olhado.
Chamavam-no de mágico satânico, benfazejo e maléfico,
pois usava de sua técnica a favor e contra homens e
deuses. Ninguém mais categorizado para ser chefe das
aldeias, representantes das comunidades, ministros nas
cortes, construtor de cidades.
Era considerado cantor, profeta e adivinho. Enquanto
trabalhava, entoa hinos, profere palavras mágicas e cria
obras admiráveis. É poeta, dançarino, taumaturgo.
Devido a essas qualidades todas, não era um homem comum.
Vivia retirado da sociedade, nas cavernas, no centro da
terra, na fornalha dos vulcões. Vulcano é o nome de um
deles. O próprio nome já indica sua profissão e moradia.
Carregava no corpo sinais típicos e visíveis. O ferreiro
é defeituoso, coxo, estropiado, caolho, maneta, anão ou
de corpo gigantesco. Tem às vezes forma de demônio. As
marcas que leva no corpo são castigos dos deuses, por
causa de seus poderes mágicos. Os deuses sentiam-se
enciumados pela usurpação dos poderes divinos e pelo
roubo dos segredos do céu.
Apesar disso e por causa disso, seu status é fora do
comum. Devido à sua ligação com mundo além, céu e
inferno, ele goza de imenso prestígio. É chefe, é nobre,
é semideus e até deus. Os deuses da tempestade são
ferreiros que golpeiam com seus martelos, provocando o
ruído dos trovões.
Mas todo mundo sente pavor de tanto poder. Em razão de
tantos títulos, ele é também odiado, desprezado,
marginalizado, maldito, intocável, impuro, paria. Não
pode casar-se com moças da tribo, pois traz azar para a
comunidade”(Nota 5)
b) Abel: vento, imagem das frustrações humanas
Retomando o que dissemos nas páginas anteriores, Abel
significa vento, sopro, hálito, respiro, vapor, névoa,
fumaça, vão, fútil, inútil, vaidade, fugaz, coisa
caduca, que flui rapidamente, que desaparece,
frustração, ilusão, mentira, aborto, desengano, luto,
lamento, choro. Vários textos bíblicos testemunham o uso
de hêbel com os significados acima mencionados, tais
como: Is 49,4; Sl 31, 7; Ecl 4, 4.8.16; 5, 6; 6,2.11.
c) Nas duas imagens a linguagem dos símbolos
Diante dessas informações sobre o significado dos nomes
Caim e Abel, resta-nos perguntar pelo o objetivo da
comunidade que escreveu a história desses dois
personagens? Em que ela estava pensando? Valeu a pena
ter matado Abel? Qual Abel foi assassinado?
O ferreiro, como vimos acima, catalisava na sua
profissão o bem e o mal, o ódio e a violência. O mito
bíblico enfocou mais o lado moral e ético que o nome
Caim evoca: vingança, ciúme, crime. Também preservou o
seu lado de construtor de cidade. Gn 4,17 diz: “Caim
tornou-se construtor de cidade e deu à luz”... Se
considerarmos essa informação importante do texto, bem
como a profissão de ferreiro, podemos interpretar o
drama de Abel e Caim como briga entre a cidade e o
campo. As cidades, naquela começavam a despontar no
cenário e a conseqüência disso era exploração dos
camponeses. Mas, por ora, deixemos de lado essa rica é
válida leitura do mito/conto de Caim e Abel.
O ferreiro, com o golpe do martelo na bigorna, fabrica
vários tipos de instrumentos. Caim, o ferreiro, golpeia
a cabeça do seu irmão Abel, o pobre e insignificante, e
o mata. (Nota 6 ) Caim precisa sempre de um Abel para
matar, e, com o sangue dos Abeis, manter-se no poder. O
sangue derramado perpetua a violência entre os povos.
O pobre, sempre indefeso, vive às margens da sociedade,
esperando a morte chegar. Ele, qual outro Abel, é luto,
dor , sofrimento e desesperança. E se fosse esse o Abel
assassinado por Caim, ele merece o castigo. Mas, o Abel
das frustrações e desilusões do humano mal sucedido em
seus empreendimentos, Caim fez bem em ter matado. E não
merece castigo. Assim, um Abel é fruto de um Caim. E
Caim é conseqüência de um Abel.
8 – O que podemos concluir sobre o estudo de Abel e Caim?
1. O conto sobre Abel e Caim explica teologicamente como
o mal estava já nas origens da humanidade. O que estamos
vivendo tem suas origens no mundo antigo. O mal poderá
continuar no meio de nós, se nós, por livre decisão
continuarmos a perpetuá-lo. E nossa história continuará
indelevelmente condicionada à nossa condição de pecador.
2. Gn 4,1-16 ilumina a temática da justiça quando propõe
a saída da condição de violência originária como
superação da injustiça.
3. O animal acuado é um símbolo bestial da violência que
mora dentro de cada um de nós. Caim foi dominado por
esse animal. Ele entrou em ação. E Caim ficou submetido
ao impulso bestial da violência. Caim ficou atrelado ao
desejo de vida plena que inclui a morte do próprio irmão
e, até mesmo, de Deus. Qual é a solução para essa para
essa atitude não querida por Deus? O próprio livro do
Gênesis responde:
a) Quem matar Caim será vingado 7 vezes.
b) E Lamec será vingado 77 vezes (70x7) o que significa um freio total à autodestruição (Gn 4, 24).
c) O dilúvio (Gn 6, 5-9,17) será a recriação da humanidade. Após o dilúvio, o animal, menos o seu sangue, poderá ser comido pelo ser humano. Sangue é vida. E a vida do outro não poderá jamais ser comida.
d) Após o dilúvio, o ser humano não poderá derramar o sangue de seu irmão (Gn 9,6), senão ele mesmo morrerá. Isto é também um freio à violência. A lei do Talião é o remédio último para frear a violência.
e) Ser imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26) significa dominar o animal que está dentro de cada um de nós. E dominar sem violência.
4. O verdadeiro ser humano para Deus é a integração entre os irmãos Abel e Caim, o ser humano segundo o coração de Deus. Deus, rei-pastor (Abel) governa o mundo em harmonia com a terra (Caim) sem usar a força da violência, mas a da Palavra.
Nota 1 -
Seguiremos o pensamento síntese sobre o tema analisado e
apresentado por Pietro Bovati, in: Justicia e injusticia
en el Antiguo Testamento, apostila, PIB: Roma, 1994, p.
13-27.
Nota 2 - Cf. René Gerard, A violência e o sagrado,
Unesp/Paz e Terra: São Paulo, 1990, p. 333.
Nota 3 - Utilizaremos o método da análise retórica.
Nota 4 - A tradução da LXX e a Vulgata consideram Deus.
Nota 5 - Cf. Rômulo Cândido de Souza, Palavra Parábola.
Uma aventura no mundo da linguagem, Aparecida: Editora
Santuário, 1990, p. 16-17.
Nota 6 - Cf. Rômulo Cândido de Souza, Palavra Parábola.
Uma aventura no mundo da linguagem, Aparecida: Editora
Santuário, 1990, p. 18
Frei Jacir de Freitas Faria, OFM