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Espiritualidade das águas na Bíblia
Introdução
O presente artigo de propõe
refletir sobre a água na perspectiva bíblica. Vivemos o desafio de uma eminente
falta de água potável no planeta. Será que a experiência com a água feita pelo
povo da Bíblia pode nos ajudar a encontrar luzes para essa alarmante hipótese? É
o que queremos responder com o texto que segue. São palavras de sabedoria
inspiradas na espiritualidade das águas na Bíblia. São águas recriadoras do
livro do Gênesis, que perpassam a literatura bíblica e permanecem no sonho de
uma nova Jerusalém, irrigada por águas apocalípticas. A trajetória do povo de
Deus foi marcada pela experiência com a água. Patriarcas e matriarcas, profetas
e reis, sábios da corte e do povo, gente da cidade e do campo, fazedores da Lei
e do culto, todos eles igualmente vivenciaram a experiência das águas bíblicas.
De Adão/Eva a Jesus, a história do povo de Deus foi marcada pela espiritualidade
das águas. É o que veremos a seguir.
1. No princípio era a
recriação a partir da água
A Bíblia, já nas suas páginas
iniciais, fala de água. Águas que criam e recriam o universo. A história de
Israel leva a marca indelével da presença da água em seus eventos fundadores,
como a passagem pelo mar vermelho (libertação do Egito) e a entrada na terra da
promessa. E como não bastasse, quando o povo esteve no exílio da Babilônia, onde
os rios inspiraram resistência (Sl. 137), o povo releu teologicamente a sua
história e descobriu que Deus os criou para o bem, mas, devido ao mal instaurado
entre eles, Deus mandou o dilúvio (Gn 6, 5-9,17) para recriar a humanidade a
partir das águas. Deus interveio destruindo para recriar um novo tempo. A terra
estava corrompida, e nada melhor a água para purificá-la. O dilúvio possibilitou
a salvação da humanidade, da terra e dos animais. O mito do dilúvio de não pode
considerado como único
(1). Muitas outras culturas,
contemporâneas ao mundo bíblico e também recentes, conservaram no imaginário
coletivo a idéia de que o mundo fora uma vez recriado por meio de um dilúvio.
O dilúvio (Gn. 6,5 - 9,17) foi colocado no centro do bloco literário de Gn. 1 -
11. Genealogias, histórias de culpa e castigo e da relação entre Canaã e Israel
estão colocados de modo paralelo para evidenciar a importância do dilúvio como
recriação a partir das águas. Podemos visualizar o quadro narrativo de Gn. 1 -
11 do seguinte modo
(2):
Gn 1,1-2,4: genealogia do céu e da terra
Gn 2,4-4, 16: histórias de culpa e castigo: Adão, Eva, serpente, Caim e Abel
Gn 4,17-5, 32: genealogia de Caim, Set e Adão
Gn 6,1-4: relação entre Israel e Canaã: os gigantes
Gn 6,5-9,17: Dilúvio
Gn 9, 18-38: relação entre Israel e Canaã: pequena história intercalada
Gn 10, 1-32: genealogia de Noé
Gn 11,1-9: história de culpa e castigo: Torre de Babel
Gn 11,10-32: genealogia de Sem
Nunca saberemos se de fato o
dilúvio existiu, mas com certeza podemos afirmar que esse modo mitológico de
narrar fatos foi a expressão literária que o povo encontrou para afirmar o
desejo de recomeçar através da água o sonho de uma nova terra. Nem Deus mesmo
suportava tanta maldade humana.
O fato de Israel ter contado a sua história mostrando que ela foi também marcada
por dilúvio é, no mínimo, muito interessante. Olhando atentamente a geografia de
Israel percebemos que ele é banhado por águas de todos os lados: mar
mediterrâneo, rio Jordão e outros afluentes menores no norte e no sul. Para
entrar na terra da promessa era preciso passar pela água. Não por menos, o judeu
gosta muito do rito de purificação com água. A luta pela posse de fontes de água
era inevitável para a sobrevivência de Israel.
O personagem que aparece no dilúvio, Noé, é visto como símbolo do homem
incorrupto que possibilitou a ação divina de recriar. A sua barca era “tão
grande” que nela foi possível reunir homens, mulheres e seres do mundo animal e
vegetal. Após o dilúvio, Deus prometeu que não mais destruiria o mundo com águas
diluvianas. Notório é o fato que Deus usa a água para visualizar a sua decisão,
o arco-íris, um arco de guerra formado pelo reflexo do sol sobre a água, que por
sua beleza enche qualquer olho de água.
Mesmo que Deus tenha prometido que um novo dilúvio não aconteceria, o mito
bíblico do dilúvio parece denunciar: se não redirecionarmos o nosso modo de se
relacionar com a água, ficaremos sem ela. E aí será preciso invocar águas
celestes para manter a sobrevivência. Haja vista a experiência vivida por nós
brasileiros no famoso “apagão”. Urge recomeçar, recriar a partir da água, antes
que seja tarde demais. No princípio era a água, mas ela também poderá chegar ao
fim. O clamor das águas contaminadas de nosso tempo chega aos céus.
As águas foram feitas para irrigar o jardim da vida. Gn. 2,8 - 15 quis dizer
isso ao afirmar que Deus fez sair do Éden um rio que desdobrava em 4 rios: Fison,
Geon, Tigre e Eufrates. É esse o paraíso sonhado pelos seres humanos daquele
então: uma terra regada pela água. Por outro lado, a leitura bíblica feita de
modo a colocar o homem no centro é uma das causas da desordem ecológica a que
estamos vivendo. “Dominar a terra”, eis uma tradução problemática de Gn. 1, 28.
O seu sentido é “viver em harmonia com”, cuidar da terra, como um maestro rege a
sua orquestra. O ser humano foi feito para dominar as forças caóticas que
impedem a harmonia da vida entre seres humanos, animais e natureza.
Gn 2,6 diz que quando Deus fez a terra e o céu não havia plantas porque Ele
ainda não tinha feito chover sobre a terra. Entretanto, um manancial subia da
terra e regava toda a superfície do solo. Essas palavras criadoras mostram como
água já estava nas origens. É claro que esse foi o modo que o povo encontrou
para explicar a importância da água na vida deles. Sem água seria impossível a
terra existir.
A segunda carta de Pedro, diante da presença dos ‘falsos doutores’, relembra as
águas de Gênesis, fazendo uma ligação apocalíptica da criação pela água e o fim
dos tempos. Assim diz o texto de 2 Pd. 3,5 - 7: “Mas eles fingem não perceber
que existiram outrora céus e terra, esta tirada da água, e estabelecida no meio
da água pela Palavra de Deus, e que por essas mesmas causas o mundo de então
pereceu, submergido pela água. Ora, os céus e a terra da agora estão reservados
pela mesma Palavra ao fogo, aguardando o dia do Julgamento e da destruição dos
homens ímpios”. Também a primeira carta de Pedro 3,20 retoma o dilúvio,
ligando-o ao batismo, quando diz: ...“enquanto Noé construía a arca, na qual
poucas pessoas, isto é, oito, foram salvas por meio da água. Aquilo que lhe
corresponde é o batismo que agora vos salva” ...
2. A água na vida dos
patriarcas e matriarcas
Os nossos pães e mães na fé,
chamados de patriarcas e matriarcas, viveram de modo itinerante nas terras do
oriente médio. Terra é água marcaram as suas vidas, regadas pela presença de
Deus Pai que chama e desinstala.
Na história dos patriarcas e matriarcas encontramos poços de água. O povo tinha
o costume de cavar poços nas cidades e planícies para recolher as águas da chuva
(Dt 6, 10-12; Ne 9,25). Eles eram chamados de ‘poços de água das chuvas’. As
casas antigas de Israel tinham poços no seu interior. A arqueologia confirma
essa informação. O telhado era feito de modo que toda a água da chuva era
recolhida e guardada fresca. Os poços deviam ser rebocados (Jr 2,13). Eles eram
também eram usados em tempos de guerra como esconderijo de alimentos (Jr. 4,
18), bem como lugar de prisão, como por exemplo, de José e Jeremias (Jr. 38,6 -
13; Gn 37,22 - 13). Um outro tipo de poço era o assim chamado “poço de água
viva”, isto é, poços profundos que chegavam até veia d’água[1]. O famoso poço de
Jacó tinha 32 metros de profundidade. Esses poços serviam para dar água aos
animais, mas foram também motivos de brigas entre as pessoas. As cidades também
tinham piscinas de água viva.
O patriarca Abraão se viu em litígio com Abimelec por causa de um poço de água
viva. Os servos de Abimelec usurparam o poço que Abraão tinha cavado. Abraão
chamou Abimelec e ali mesmo, no poço, eles fizeram uma aliança de respeito
mútuo. Abraão lhe ofereceu 7 ovelhas como testemunha que aquele o poço era dele.
Abimelec aceitou a oferta e o poço passou a se chamar de “Poço do juramento”, em
hebraico Be’er Sheba’ (traduzido por Bersabéia).
Isaac herdou de seu pai muitos poços, os quais foram entulhados e cobertos de
terras pelos filisteus e pastores de Gerara. Isaac mandou cavar outros poços.
Com o segundo grupo houve disputa ferrenha pelo poço de água viva encontrado por
Isaac. Eles diziam “a água é nossa”. O último poço cavado por Issac não foi
motivo de litígio e ele exclamou: “Agora Deus nos deu o campo livre para que
prosperemos na terra” (Gn 26,12 - 33). A garantia da água era o sinal de
sobrevivência para os patriarcas. Uma terra fértil dependia da água para
irrigá-la. Sem água, os animais morreriam.
Agar, a matriarca que complicou a história da salvação, encontrou um poço de
água viva e dele deu de beber ao seu filho Ismael, no deserto de Bersabéia.
A matriarca Rebeca, mulher de Isaac foi escolhida à beira de um poço, por um
servo de Abrão. Estando no poço, no momento em que as mulheres iam buscar água,
o servo de Abraão fez um propósito: “A jovem a quem eu disser: ‘Inclina o teu
cântaro para que eu beba’ e que responder: ‘Bebe, e também a teus camelos darei
de beber’ esta será a que designaste para teu servo Isaac, e assim saberei que
mostraste benevolência para com meu senhor” (Gn 24, 14). E assim sucedeu. E
Rebeca tornou-se esposa de Isaac.
O patriarca Jacó também encontrou uma de suas esposa, Raquel, à beira de um
poço. Ela era pastora e fora ao poço dar de beber ao seu rebanho. Jacó a beijou
e lhe disse que era parente de seu pai e filho de Rebeca. Raquel foi logo contar
o fato a seu pai, Labão, o qual acolheu Jacó em sua casa. A história continua
mostrando o casamento de Jacó com as duas filhas de Labão, Lia e Raquel.
Jacó praticou por primeira vez o ato religioso de purificar o corpo com água (Gn
35,2). Também de Jacó é conservada na Bíblia, em Gn. 32,23 - 33, a sua famosa
luta com Deus, na pessoa de um desconhecido. O fato ocorreu no vale do rio
Jacob. Nesse riacho ele fez atravessar sua família e pertences. Alguns rabinos
interpretaram que a luta de Jacó foi com espírito das águas que amedrontava o
povo (2).
Na história do patriarca José, filho de Jacó, ficou registrado que ele foi
responsável pela ida de seus pais para o Egito. Vendido pelos irmãos, ele se
tornou poderoso a ponto de poder livrar o seu povo da seca e da fome que
imperavam nas terras de Canaã e do Egito. A exegese moderna procura compreender
a história de José como novela bem contada para justificar a monarquia
salomônica. E nesse relato está também a questão da falta d’água que gera a
miséria, bem como a ação de Deus na história que liberta seu povo escolhido.
3. As águas do Egito
O Egito, notável potência na
geopolítica do mundo antigo, tinha nas águas do rio Nilo a sua força propulsora.
Um país onde mais de 90% de suas terras são desérticas, esse rio só podia ser
uma bênção dos deuses. Os egípcios acreditavam que o Nilo fora criado no céu
pelo deus Noun, que o fez descer na terra do Egito para alimentar seus devotos
(3).
As margens do Nilo eram fecundas. É famoso o delta do Nilo.
A vida no Egito para o povo de Jacó ficou difícil, quando a memória de José foi
apagada dos anais da corte egipciana. Submetido a trabalhos forçados, o povo
padeceu na escravidão por séculos. Até que apareceu uma liderança israelita
criada na corte, Moisés. Nome que carrega uma história de água. Ele significa:
“salvo das águas” para deixar marcado na história dessa criança que ela fora
colocada em um cesto e atirada nas águas do rio Nilo. A filha do Faraó
presenciou a cena e a salvou das águas. Mal sabia Moisés que mais tarde as águas
voltariam em um outro capítulo de sua história: mar vermelho. Moisés passaria
para a história de seu povo como o homem levantou o seu cajado para abrir as
águas do mar e assim o povo poder passar a pé enxuto (Ex. 13,17 - 15). Sabemos o
simbolismo que essa história carrega. Não podemos compreender o texto ao pé da
letra. Mesmo que o mar não tenha sido aberto como em uma cena cinematográfica, a
narrativa quer mostrar que Moisés e seu povo souberam encontrar o momento exato
para a saída: quando, por algumas horas, parte das águas do mar dos juncos.
Para que o povo pudesse sair do Egito, Deus enviou ‘pragas’. A tradição
conservou a memória de 10 delas. Algumas delas estão relacionadas com as águas
do Nilo. Em duas se diz que Moises, o ‘tirado das águas’, devia se encontrar com
o Faraó, no momento em ele fosse “sair às águas do Nilo” (Ex 7,14). Uma das
pragas se refere diretamente às águas do Nilo, as quais foram transformadas em
sangue. Outra fala das rãs que saíram dos rios, canais e lagoas e invadiram a
terra do Egito (Ex 7,26 - 8,11). Uma outra praga ainda fala de ‘chuva’ de pedras
(Ex 9,13 - 35). O episódio de pragas relacionadas à água mostra como esse
elemento vital para ser humano é usado para por fim à escravidão.
4. As águas do deserto
Estando no deserto de Sin, em
Meriba, o povo padecia de sede e fome. Eles foram reclamar com Moisés e
exclamaram: “Oxalá tivéssemos perecido no Egito!” Moisés invocou a Deus e o
milagre das águas saídas da rocha aconteceu (Nm. 20,1 - 11). O poder desse gesto
concedido por Deus a Moisés o salvou por meio da água. A liderança de Moisés foi
confirmada pela água que saía da rocha. Ele foi capaz de oferecer água para o
povo, por isso é digno de liderar em nome de Javé.
Quando o povo estava para receber o Decálogo, no Sinai, Moisés pede ao povo que
se purifiquem com água e lavem suas vestes (Ex. 19,10).
Nas prescrições recebidas por Moisés, no Sinai, estão leis referentes ao uso da
água, tais como:
- Aarão e seus filhos, ao serem consagrados como
sacerdotes, deveriam passar por um banho ritual de purificação (Ex. 29,4).
- Também Aarão e seus filhos deveriam fazer a ablução de mão e pés antes oficiar
o serviço religioso. A bacia com água ficaria entre a Tenda da reunião e o altar
(Ex. 30,17 - 21). Caso eles não realizassem esse ato, morreriam.
- Quem tocasse em um cadáver, túmulo ou homem assassinado ficaria impuro e
deveria passar pelo ritual de purificação das águas lustrais (Nm. 19,17 - 22).
No deserto, em meio às tentações,
o povo é consolado pela promessa divina de água: “Eis que o Senhor teu Deus vai
te introduzir numa terra boa: cheia de ribeiros de água e fontes profundas que
jorram no vale e na montanha”... (Dt. 8,7).
5. As águas do Jordão se
abriram para o povo entrar na terra da promessa
Notória é a releitura da
experiência da passagem pelo ‘mar que se abriu’ na vida do povo, quando
terminado a sua peregrinação pelo deserto, ele está para entrar em Canaã, a
Terra prometida. Assim diz Js. 3,14 - 17: “Ora, quando o povo deixou suas tendas
para passar o Jordão, os sacerdotes que levavam a Arca da Aliança estava à
frente do povo. Assim que os transportadores da Arca chegaram ao Jordão e que os
pés dos sacerdotes transportaram a Arca se molharam nas bordas das águas – pois
o Jordão transborda pelas suas margens durante a ceifa –, as águas que vinham de
cima pararam e formaram um só massa a uma grande distância, em Adam, cidade que
fica ao lado de Sartã; ao passo que as águas que desciam em direção ao mar da
Arabá, o mar Salgado, ficaram inteiramente separadas. O povo atravessou defronte
de Jericó. Os sacerdotes que transportaram a Arca da Aliança de Javé
detiveram-se no seco, no meio do Jordão, enquanto todo o povo de Israel passava
pelo seco, até que toda a nação acabou de atravessar o Jordão”.
Com esse gesto, Deus confirmou a sua predileção por Israel, assim como fizera
com Moisés na saída do Egito. Josué e Moisés são confirmados como lideranças,
pois são capazes de separar águas que impedem a vitória, transformado-as em
águas libertadoras.
Quando povo estava se instalando na terra de Canaã, muitas alianças matrimoniais
e políticas foram feitas através da posse de fontes de águas (Jz 1,12 - 15).
O livro dos Juízes, no capítulo 7, versículos 4 e 5 narram o interessante modo
como o juiz Gedeão usou, sob as ordens de Javé, para selecionar homens para a
guerra. Os que se apresentaram para a guerra foram levados ao rio e observados.
Os que beberam água como fazem os cães, isto é, com a língua, foram os
escolhidos. Os que se ajoelharam, não. Os selecionados, diz o texto, chegaram a
trezentos.
6. A defesa da água nos
Códigos de Israel
Os códigos são o modo como o povo
encontrou para garantir o cumprimento do Decálogo, que de 10 mandamentos foram
transformados 613. Os três principais códigos são o da Aliança, o Deuteronômico
e o da Santidade. A água foi também legislada nesses códigos.
O Código da Aliança, elaborado no período dos juízes, previa o seguinte:
- “Se um boi ou um jumento cair num poço destampado,
o dono do poço pagará o preço do boi e ficará com o animal” (Ex 21,33). Os poços
deviam ser fechados com uma pedra grande (Gn. 29,3) ou madeira.
O Código da Pureza, unido ao
código da Santidade, previa o seguinte:
- “Quando um cadáver de animal cair em um poço,
cisterna e lagos, esses não se tornariam impuros” (Lv 11, 36). A idéia que
sustenta essa lei é que a água tem a característica própria de purificar tudo.
- “O leproso curado deverá se apresentar ao sacerdote e fazer seu ritual de
purificação que consiste em: tomar duas vivas e puras. Imolar uma delas em vaso
de argila sobre água corrente. O sangue da ave imolada será misturado com
madeira de cedro, lã escarlate, hissopo e a ave viva e, depois, mergulhados em
água corrente. O leproso será aspergido sete vezes. A ave viva será liberta. E
ainda o leproso deverá lavar-se com água, raspar os pelos e ficar sete dias fora
de sua tenda” (Lv. 14,1 - 9).
- As roupas de quem carregava um cadáver deveria ser lavada e o carregador
ficava impuro até à tarde (Lv. 11, 25).
- ‘Todo animal morto, considerado impuro, que cair sobre um objeto, esse se
torna impuro e deverá ser lavado com água’ (Lv .11,31 - 33).
- “Todo alimento que se come será impuro, ainda que seja só umedecido com água”
(Lv 11, 34).
- ‘Quem comer da carne de um animal doméstico que vier a morrer deverá lavar as
vestes e ficará impuro até à tarde (Lv. 11,40).
- “Quando um homem tiver emissão seminal deverá banhar em água todo o corpo, e
ficará impuro até à tarde. Toda a veste e todo o couro atingido pela emissão
seminal deverão ser lavados em água e ficarão impuros até à tarde” (Lv. 15, 16).
- ‘Quando um homem tem um fluxo de sangue ele está impuro e todo leito e móvel
que ele se assentar ficará impuro. Quem tiver contato com esses objetos e com o
homem fica impuro e deve lavar as suas vestes (Lv. 15,1 - 8).
- “Quando a mulher tiver coabitado com um homem, deverão ambos lavar-se com
água, e ficarão impuros até à tarde” (Lv. 15,18).
Também o livro dos Números
conserva leis de pureza complementares ao Código da pureza. Destaca-se a das
“águas amargas”. Quando uma mulher cometia adultério sem que houvesse
testemunhas e o marido dela tivesse uma crise de ciúme, esse faria uma ‘oblação
de ciúme’ para fazer a memória do pecado. O sacerdote, então, deveria proceder
do seguinte modo: “ele fará aproximar a mulher e a colocará diante de Javé. Em
seguida tomará água santa em um vaso de barro, e tendo tomado do pó do chão da
habitação, o espargirá sobre a água. E apresentará a mulher diante de Javé,
soltará a sua cabeleira e colocará nas suas mãos a oblação do ciúme. E nas mãos
do sacerdote estarão as águas amargas e de maldição... O sacerdote pedirá a
mulher que faça um juramento imprecatório de inocência: que Javé te faça, no seu
povo, objeto de imprecação e maldição, fazendo murchar o teu sexo e inchar o teu
ventre! Que estas águas de maldição penetrem nas tuas entranhas, a fim de que o
teu ventre se inche e teu sexo murche! A mulher responderá: Amém! Amém!” (Nm.
5,11 - 31). Com o ritual das “águas amargas”, o sacerdote e o marido obtinham a
certeza que a mulher tinha cometido pecado ou não. Caso houvesse pecado, marido
estava isento da culpa e mulher era considerada iníqua.
7. A água na vida dos
reis
Saul, antes de ser ungido rei
pelo profeta e juiz Samuel, encontrou-se com duas jovens que saíam para buscar
água (1 Sm. 9).
Davi, rei de 1010 a 970 a.C., quando Israel era um país só, chegou ao auge do
seu poder quando dominou Rabá, a cidade das águas.
O rei Salomão, filho de Davi com Bersabéia, assumiu o poder no lugar de seu pai
e construiu um Templo para Javé em Jerusalém. Nele Salomão rezou conferindo ao
Templo o poder de ser um lugar onde o povo pudesse vir para pedir chuva. “Quando
o céu se fechar e não houver chuva por terem eles pecado contra ti, se eles
rezarem neste lugar, louvarem seu Nome e se arrependerem de seu pecado, por
teres afligido, escuta no céu, perdoa o pecado de te servo e de teu povo Israel
– tu lhes indicarás o caminho reto que devem seguir – e rega com a chuva a terra
que deste em herança a teu povo” (1 Rs. 8,35 - 36). Assim, o rei, que morava
perto do templo, passa a ter também o poder sobre as águas celestiais.
O rei Ezequias mandou construir um aqueduto, saindo da fonte de Gion, e um
reservatório recolher a água na cidade de Jerusalém, o qual foi chamado de
piscina de Siloé (2rs 20,20). Esse canal tem mais de 500 m e ainda pode ser
visitado nos dias de hoje.
O rei de Judá, Ozias, homem dedicado à agricultura e ao rebanho, mandou
construir muitas cisternas no país (2 Cr 26,10).
Na batalha contra Moab, os reis de Judá, Edom e Israel se uniram e venceram os
moabitas. Como sinal de vitória eles taparam todas as nascentes de água e
cortaram as árvores frutíferas (2 Rs. 3,4 - 27). Dominar um povo era também
impedir o seu acesso à água potável.
8. Águas de sabedoria e
de libertação nos sapienciais e salmos
No mundo bíblico, a sabedoria
popular logo descobriu que água de mina era melhor que a de um poço. Beber água
de uma fonte conferia força para lutar (1 Sm. 15,19). Vinho misturado com água
era tido como fonte de prazer delicioso (2 Mac. 15,39). A água era também
misturada com vinagre e usada nas refeições (Rut 2,14). A água não podia ser
usada como sacrifício.
Buscar água era um serviço reservado às mulheres. Em tempo de guerra, esse
serviço era penoso, pois o canal que levava à fonte de água era secreto, saindo
do monte, onde estavam construídas as cidades. A fonte visível era encoberta,
como modo de preservar a água dos inimigos invasores. Em Meguido encontramos um
desses canais. Imagine o sofrimento das mulheres para buscar água!
A sabedoria popular pré-israelita compôs cantos para encontrar água nas terras
áridas. Assim o povo cantava: “Brota poço, brota! Entoai-lhe cânticos. Poço
cavado pelos príncipes, que foi perfurado pelos chefes do povo, com o cetro, com
seus bastões” (Nm. 21,17 - 18). A Bíblia conservou e incorporou esse “Canto do
poço” nas suas tradições.
O justo, o sábio e o sensato eram considerados ‘fonte’ de vida, de bênção para o
povo (Pr 10,11; 13,14 e 16,22). Também o livro dos Salmos usou muito a imagem da
água viva para expressar bênção, fertilidade e desejo de Deus. “Minha alma tem
sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada, em água”
(Sl. 63,2). “O justo é como árvore plantada junto d’água corrente” (Sl. 1,3).
Famoso é o Sl 23: “O Senhor é meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens me
faz repousar. Para as águas tranqüilas me conduz e restaura minhas forças”.
Os homens eram aconselhados a “beber da própria fonte”, isto é, não ter relações
sexuais com outra mulher (Pr. 5,15). Nessa mesma linha de pensamento, o mais
poético dos livros bíblico, Cântico dos Cânticos, põe na boca do amado a
seguinte declaração de amor: “Minha amada, tu és a fonte do jardim, poço de água
viva que jorra descendo do Líbano!” (Ct 4,15).
O livro de Jó fala que as desgraças que ocorrem na vida devem partir como as
águas que vão e não voltam mais (Jó 11,16).
As águas do mar, ou mar, ele mesmo, era considerado pela sabedoria popular como
lugar do perigo. Nele habitavam as forças do mal. Deus protegia quem nele
navegava, rezam os Salmos (107; 42 etc.). Nesse sentido, podemos compreender a
atitude profética de Jesus, registrada nos evangelhos, de colocar os espíritos
impuros de Gerasa em uma legião de porcos e atirá-los ao mar. Essa atitude
apocalíptica de Jesus quer mostrar que o império romano (legião), simbolizado
pelo porco, será devolvido ao lugar de onde nunca podia ter saída, o mar.
Muitos salmos rezaram a experiência de libertação feita pelo povo ao atravessar
a pé enxuto o mar vermelho (Sl. 77; 114). Esse ritual é celebrado liturgicamente
como águas que libertam o povo. A memória desse fato não podia cair no
esquecimento. Deus se torna Eterno, pois usou de seu poder para dividir o mar (Sl.
136). Deus é bom porque ele converte o deserto em lagos e a terra seca em
nascentes (Sl. 107).
9. Água nos profetas
O profeta Elias ficou famoso,
também por ter o poder de fazer chover em tempos de seca (1 Rs. 18,41 - 46).
Como Moisés, Elias teve o poder de dividir as águas, no seu caso, as do rio
Jordão, para passarem a pé enxuto, ele e Elizeu, seu discípulo predileto. Elias
usou o seu manto para dividir as águas. Quando ele partiu, Elizeu repetiu o
mesmo gesto, batendo o manto de Elias nas águas, as quais se abriram diante dele
(2 Rs. 2,14)
Seguindo as façanhas do mestre, Eliseu fez o milagre de transformar as águas
estéreis de Jericó em água potável (2 Rs. 2,19 - 23). Outra façanha de Elizeu
foi a de conseguir a manifestação de fé em Javé por um chefe do rei de Aram,
chamado Naamã, o qual foi a Eliseu esperando ser curado de sua lepra por Deus de
Israel. O profeta foi categórico: “Vai lavar-te sete vezes no Jordão e tua carne
te será restituída e ficará limpa” (2 Rs. 5,10). Banhar-se no Jordão tem um
significado importante para o profeta, as suas águas se abriram para o povo
passar e alcançar a terra da promessa. Eles libertam e podem curar o leproso.
Banhar 7 vezes significa a plenitude do céu e da terra. O número 4 representa os
pontos cardeais, a terra, e o 3, o céu. Três mais quatro é igual a sete.
O livro do profeta Isaías mostra como a vinda o Messias será sinal de bênção e
fertilidade para o seu povo. Para tanto, ele usa a metáfora da água. A vinda do
Messias trará o conhecimento de Javé para a terra, como as águas enchem o mar
(Is. 11,9). O rei justo será como um ribeiro de água em terra seca (Is. 32,2).
Com a vinda do Espírito do alto, todos serão felizes, como quem semeia junto de
águas abundantes (Is. 32,20). A era messiânica será marcada pelo jorrar de rios
entre montes desnudos, e fontes por entre os vales. O deserto será transformado
em pântanos e a terra seca em nascentes de água (Is. 41,18). O primeiro anúncio
do Messias, feito por Isaías, ocorreu no reservatório de água que abastecia
Jerusalém (Is. 7,1 - 17). Is. 51, 10 conserva a tradição da ação poderosa de
Deus que secou o mar e fez nele um caminho para os libertos do Egito pudesse
passar.
Jeremias acusa o povo de abandonar Javé, a fonte de água viva (Jr. 2,13; 17,13).
Jeremias, assim como Isaías, compara o inimigo como água caudalosa de um rio que
tudo destrói (Jr 47,2; Is 8,7; 17,12; 28,2.17). Mas Deus também destrói o
inimigo, ainda que muito poderoso. “Porque Javé devasta a Babilônia, e acaba com
o seu grande ruído, ainda que suas ondas bramem como grandes águas e ressoe o
fragor de sua voz” (Jr. 51,55).
O profeta Oséias, opondo-se à tradição popular que atribuía aos deuses Baal e
Astarte a origem das chuvas, proclama cheio de esperança: ...“certa, como a
aurora, é a sua vinda (de Javé), ele virá a nós como a chuva, como aguaceiro que
ensopa a terra” (Os. 6,3). Oséias também profetiza que Deus derrama suas águas
de ira contra os chefes de Judá que roubam as terras dos lavradores (Os. 5,10).
Amós proclama que Javé é aquele que chama às águas mar e as derrama sobre a face
da terra (Am. 5,8; 9,6).
Ezequiel anuncia que a prepotente Tiro seria destruída e despedaçada em pleno
mar (Ez. 27). Ezequiel também prediz que no tempo do Messias as águas do mar
morto passariam a ser águas de vida para o seu povo (Ez. 47,7 - 10).
10. As águas do batismo
A água relacionada com o batismo
aparece no Segundo Testamento com a figura de João Batista. O batismo nas ‘águas
do Jordão’ colocava as pessoas em relação direta com Deus libertador. Não eram
mais necessárias as práticas rituais do Templo de Jerusalém. Assim, os batistas
se tornaram perigosos para ordem judaica estabelecida a partir do Templo. Os
evangelhos sinóticos mostram João, de forma escatológica, pregando o juízo e a
vinda do Reino de Deus e de seu Messias. Jesus vai ser confirmado na água, por
João, a sua missão de anunciador do Reino de Deus
(4). Ir ao deserto significava
retomar a figura de Moisés e o êxodo para, de novo, entrar na terra da promessa,
passando simbolicamente pelas águas do mar vermelho. Para tanto, era necessária
a preparação prévia com o batismo na água e de conversão dos pecados.
11. “Eu sou uma fonte de
água viva”
Jesus se apresenta como aquele
que é fonte de água viva: “Se alguém tem sede, que ele venha a mim e que beba,
aquele que crê em mim! Conforme a palavra da Escritura: de seu seio jorrarão
rios de água viva” (Jo 7,37 -38). No famoso episódio do encontro de Jesus com a
samaritana, ele diz: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: ‘Dá-me
de beber’ tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4,10). E mais
adiante, acrescenta: “Aquele que bebe (água daquele poço físico) terá sede
novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede. Pois a
água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida
eterna” (Jo. 4,11).
Os evangelhos conservaram a passagem de Jesus caminhando sobre as águas e Pedro
afundando nelas. A força simbólica deste texto quer expressar o poder de Jesus,
a modo de Moisés, sobre as águas. Sua liderança e filiação divina são
incontestáveis. Pedro não chega a tanto. Ele é ainda um homem de pouca fé (Mt.
14,31).
Quando Jesus morreu na cruz, um soldado o golpeou com a lança e do seu lado saiu
água (Jo 19,34), que gera a vida eterna.
12. Conclusão
O estudo que fizemos nos deixa
claro que:
1. Israel, um povo de pouca água, fez dessa o seu meio
subsistência e de vida.
2. O casamento de muitos patriarcas e matriarcas aconteceu por
meio de um poço de água viva. Moisés conheceu Séfora à beira de um poço. Jesus
caminhou sobre as águas do mar e Moisés as dividiu. À beira de um poço a
Samaritana compreendeu que Jesus era maior que Jacó, que havia cavado aquele
poço, no qual ela fora buscar água para beber e encontrou a água viva, Jesus.
3. A purificação com água, prescrita nos códigos de Israel,
tinha um mero objetivo legalista. Pensava-se que com essas práticas a pessoa
estaria pura.
4. O poder sobre as águas foi disputado por reis e profetas.
Salomão conferiu ao Templo de Jerusalém a autoridade para fazer chover. Elias
tinha o poder de fazer chover, o que minava o poder do templo de Jerusalém.
Moisés, Josué e Elias tiveram o poder de separar.
5. O povo da Bíblia também ajudou a impedir o acesso à água
potável, quando destruía os poços dos vencidos. Atitude não muito ecológica.
6. A famosa frase de Isaias anunciando o Messias: “Eis que uma
jovem concebeu e dará à luz um filho e por-lhe-á nome de Emanuel” foi proclamada
nas águas do canal da piscina superior de Jerusalém. A vinda do Messias tem
ligação com a água.
7. Os profetas retomam a imagem do dilúvio de Gn. para mostrar
como Deus age na história para punir os opressores de seu povo. Javé tem o
controle das águas, mesmo as diluviais, e, por isso, pode agir como Senhor da
história para controlar o opressor e mal na terra. Deus recria e reconduz a
história a partir da água.
8. A crise hodierna no trato com a água e a natureza em geral
poderia muito bem buscar inspiração nos textos bíblicos, os quais revelam o
pensamento dos povos antigos. O famoso texto da criação de Gn. foi sim mal
traduzido e interpretado historicamente. Nesse relato o ser humano, o Adão
(feito do húmus da terra e sua mistura com água) que foi criado à imagem e
semelhança de Deus, recebeu o encargo de ser como Deus, que como pai e mãe,
cuida dos seus como filhos e filhas, extensão do seu ser. Assim deve ser o
proceder do ser humano, zelar e não dominar a natureza. Água não zelada poderá
destruir a vida humana que depende dela para sobreviver.
9. Viva a mãe água! Viva a mãe terra! Voltemos ao espírito das
águas Gênesis. Mas também mantenhamos o sonho apocalipítico da nova Jerusalém
messiânica, na qual “haverá um rio de água viva, que fará frutificar árvores de
vida 12 vezes ao ano” (Ap. 22,1 - 2).
10. A Bíblia é água do início ao fim. São águas bíblicas
pedindo passagem para gerar vida. Vida que revive e faz a vida viver. Ainda é
tempo de recriarmos o paraíso terrestre: quatro rios irrigando a terra que é um
jardim. Ou será que teremos esperar o ano 2025, época prevista pelos
especialistas, na qual 40% da população vai ficar sem água potável? Ainda é
tempo. Basta retornar às origens das águas bíblicas e beber de sua
espiritualidade.
frei Jacir de Freitas Faria,
OFM
1] Cf. Jacir de
Freitas Faria, “O mito do dilúvio contado pelos Maxacalis, israelitas e
babilônios. No conto um projeto que salva a terra, água, animais e seres
humanos”, Estudos Bíblicos, n. 68, p. 36, 2000.
[2] Cf. Idem, p. 36.
[1] Cf. Van den Born, Dicionário enciclopédico da Bíblia, Petrópolis: Vozes,
1987, p. 27-29.
[2] Citado por Marcelo Barros, O Espírito vem pelas águas, São Leopoldo/Goiás:
CEBI/Rede, 2002, p. 131.
[3] Cf. Marcelo Barros, O Espírito vem pelas águas, São Leopoldo/Goiás: CEBI/Rede,
2002, p. 123.
[4] Cf. Marcelo Barros, O Espírito vem pelas águas, São Leopoldo/Goiás: CEBI/Rede,
2002, p. 119.
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